Com alta de 70% em um ano, bolsa do Japão arruma casa para receber mais investidores

Por Ana Luiza Serrão 29 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Com alta de 70% em um ano, bolsa do Japão arruma casa para receber mais investidores

A Bolsa de Valores de Tóquio está prestes a realizar o que muitos especialistas consideram a maior reformulação de sua infraestrutura tecnológica desde a criação do sistema atual, investindo 100 milhões de ienes ou cerca de US$ 619 mil para dar conta de um volume de negócios altíssimo.

Esse movimento técnico é uma resposta direta à realidade das telas dos operadores, onde o índice Nikkei 225 tem batido recordes históricos sucessivos, acumulando uma valorização de 78% nos últimos doze meses e atraindo uma avalanche de capital internacional que há muito tempo não se via por lá.

Todavia, essa necessidade de expansão surge em um momento em que o iene atinge suas menores cotações em décadas, ultrapassando a barreira dos 161 por dólar, o que, embora acenda alertas para a economia real, acaba barateando os ativos locais para quem vem de fora.

Infraestrutura sob pressão histórica

O mercado vive uma espécie de retorno ao passado, lembrando de quando o Japão era o porto seguro da liquidez global. Em 2006, a bolsa foi forçada a paralisações e reduções de horário porque o sistema simplesmente não aguentou o peso das ordens de venda durante o escândalo da empresa de tecnologia Livedoor.

Mais recentemente, em abril de 2025, o mercado japonês enfrentou um novo teste quando o anúncio de novas tarifas comerciais pelo governo dos Estados Unidos provocou um pânico vendedor, levando o volume diário a 370 milhões de trades, um recorde na época.

A bolsa japonesa agora deve manter a capacidade sempre no dobro do maior volume máximo antecipado, e como as projeções agora apontam para picos de 750 milhões de ordens, o novo teto de 1,5 bilhão foi estabelecido para evitar qualquer risco de "crash" tecnológico.

Negociadores de alta frequência dominam

Essa euforia nos terminais de negociação é alimentada por uma mudança profunda no perfil de quem opera, com os chamados negociadores de alta frequência dominando entre 70% e 80% de todas as ordens enviadas à bolsa, utilizando algoritmos complexos que compram e cancelam ativos em milissegundos.

Além dos robôs, há um exército de investidores individuais que redescobriu o mercado doméstico após grandes corretoras como a SBI Securities e a Rakuten Securities eliminarem as taxas de corretagem para ações locais no final de 2023.

O resultado foi imediato e a SBI viu suas ordens diárias saltarem para 4,45 milhões, o dobro do volume anterior, enquanto a Rakuten também registrou um crescimento superior a 100%, alcançando 3,07 milhões de transações por dia.

O investidor institucional também mudou sua tática, adotando o chamado "fatiamento de ordens" (order slicing), que consiste em dividir uma grande compra em centenas de pequenas operações para evitar que o preço do papel dispare antes que a ordem seja 100% executada.

Política, fluxo estrangeiro e nova leitura do Japão

Já a política desempenha um papel de sustentação nesse novo cenário, com a reeleição da primeira-ministra Sanae Takaichi em fevereiro servindo como um catalisador para a estabilidade, reduzindo o risco percebido e atraindo o investidor estrangeiro, que chegou a injetar 1,8 trilhão de ienes em uma única semana antes do pleito.

O mercado japonês, segundo estrategistas do Goldman Sachs, entrou no que chamam de "fase de entrega", onde as reformas de governança e o foco na rentabilidade (ROE) precisam mostrar resultados reais para manter o rali vivo.

Há também um componente de autoproteção dos investidores locais que está ajudando. Em maio, os japoneses realizaram a maior venda de ações estrangeiras em cinco anos, retirando 2,72 trilhões de ienes do exterior para fugir da volatilidade do setor de tecnologia e dos conflitos no Oriente Médio.

Neste ano, o SoftBank também acabou superando a Toyota em valor de mercado, sinalizando que o Japão tem acompanhado a inovação voltada à inteligência artificial (IA) e não apenas como um exportador de automóveis, o que atrai ainda mais liquidez para setores de alta tecnologia.

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