Com aumento no querosene de aviação, passagens devem ficar mais caras

Por Rebecca Crepaldi 1 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Com aumento no querosene de aviação, passagens devem ficar mais caras

Com o aumento de 55% no preço do querosene de aviação (QAV) pela Petrobras, o combustível saltou da casa dos R$ 3 mil para R$ 5 mil – e deve afetar os valores de passagens aéreas, explicam especialistas. Tal movimento é resultado da alta do petróleo, devido à Guerra entre Irã e Israel. O barril do tipo Brent, por exemplo, ultrapassou recentemente a marca dos US$ 115.

A informação já havia circulado no mercado através do Grupo Abra, holding que controla a Gol e a Avianca. Segundo o diretor financeiro da empresa, Manuel Irarrazaval, a cada elevação de US$ 1 por galão no preço do QAV, as passagens poderiam subir cerca de 10%.

“É uma relação direta. Depois de folha de pagamento, combustível é o principal custo. Isso vai com certeza afetar as passagens. Eu imagino que nas próximas horas a gente já veja as companhias aéreas anunciando aumentos, e eles possivelmente vão ser imediatos. É o repasse de custos”, enfatizou Bruno Corano, CEO da Corano Capital.

De acordo com Corano, os trechos que tendem a sofrer mais são justamente os que têm menor concorrência. “Se eu sou o único que voa numa rota da cidade A para cidade B, isso me permite, pela ausência da concorrência, puxar os preços mais para cima.”

Mas, mesmo em rotas que têm concorrência, também é preciso analisar a demanda. “Congonhas-Santos Dumont tem muita concorrência, mas também tem muita demanda. Então, rotas que têm muita demanda ou pouca concorrência são certamente as que vão sofrer mais.”

Entretanto, Irarrazaval afirmou que esse aumento será “moderado” quando comparado à alta das cotações internacionais do combustível. Mas já há movimentos no mercado.

A Azul informou recentemente, em teleconferência de resultados com analistas, que elevou o preço médio das passagens em mais de 20% ao longo das últimas três semanas e anunciou que pretende adotar estratégias para lidar com a pressão de custos. Entre as ações previstas, está a redução de aproximadamente 1% na oferta de voos domésticos no segundo trimestre de 2026.

As companhias aéreas informaram que irão se posicionar via Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). Em nota oficial, o órgão disse:

A Abear alerta para os impactos do reajuste de 54,6% no preço do Querosene de Aviação (QAV). Somado ao aumento de 9,4% em vigor desde 1º de março, o combustível passa a responder por 45% dos custos operacionais das companhias aéreas. A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do país e a democratização do transporte aéreo.

Embora mais de 80% do QAV consumido no Brasil seja produzido internamente, sua precificação acompanha a paridade internacional, o que intensifica os efeitos das oscilações do preço do barril de petróleo sobre o mercado doméstico, ampliando os impactos de choques externos sobre os custos das companhias aéreas.

Nesse sentido, a Abear tem defendido a implementação de mecanismos que permitam diminuir os impactos do aumento do QAV, garantindo o desenvolvimento do transporte aéreo, a conectividade nacional e a sustentabilidade econômica das operações.

Vale a pena comprar passagem agora?

Mesmo que acabe o conflito, segundo Paula Sauer, economista, planejadora financeira CFP, doutora em Psicologia, e professora de Economia Comportamental na ESPM, o mercado leva ao menos 90 dias para se normalizar. Se a viagem é no curto prazo e as datas não são flexíveis, pode ser, sim, recomendado comprar a passagem.

“Por outro lado, se a viagem é mais para o final do ano, os governos e as companhias aéreas têm um pouco mais de tempo para elaborar e colocar em prática estratégias para mininizar os impactos dos custos no bolso do consumidor final. Até lá, inclusive, os preços podem até baixar”, diz.

Carlos Castro, planejador financeiro pela Planejar, também destaca que quanto mais próximo da data deixar para comprar a passagem, mais o preço se eleva, devido à ocupação do avião, entre outros fatores. De qualquer forma, “o consumidor precisa se planejar para viajar”, enfatiza o planejador.

Para Corano, desde que a pessoa saiba exatamente quando vai viajar, se ela já vinha acompanhando os preços e tem certeza que ainda não subiu, talvez ainda hoje ou no máximo amanhã ainda dê tempo de comprar passagens sem elas sofrerem os reajustes. Segundo ele, é “uma corrida contra o relógio para terminar de comprar as melhores oportunidades”.

“Um aumento de 55% é um aumento bastante considerável e que impacta não só o turismo, mas tudo o que depende de transporte aéreo”, explica Sauer. E essa alta já pode ser sentida. De acordo com a especialista, os preços sobem antes dos custos efetivamente aumentarem — essa é a chamada 'inflação de expectativa'.

“A inflação de expectativa acaba gerando a própria inflação. As empresas aumentam os preços por precaução."

Medidas do Governo

O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) confirmou à EXAME que enviou proposta ao Ministério da Fazenda, à Casa Civil da Presidência da República, ao Ministério de Minas e Energia e à Petrobrás com medidas voltadas à redução dos impactos da elevação do preço internacional do petróleo sobre o setor aéreo.

Segundo nota, o documento, elaborado pela Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), sugere a redução da alíquota do PIS/Confins sobre o QAV, a redução da alíquota do IOF incidente sobre empresas aéreas e a redução da alíquota de imposto de renda incidente sobre o leasing das aeronaves.

"Outras medidas estão em fase inicial de discursão na secretaria e precisam de maturação antes do encaminhamento aos órgãos", diz o órgão.

A nota ainda enfatiza que o objetivo é preservar a competitividade das empresas, evitar repasses excessivos ao consumidor e manter a conectividade aérea no país. "O material foi encaminhado como subsídio técnico para avaliação e, neste momento, integra tratativas internas do governo federal sobre sua viabilidade", afirma.

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