Com 'Quinze Dias', cinema brasileiro vai atrás do público que o streaming já conquistou
Ser adolescente não é fácil. O corpo muda sem pedir licença, de repente os pais se tornam seres incompreensíveis e o mundo inteiro parece caber dentro do peito. Essa turbulência rendeu ao cinema algumas de suas histórias mais duradouras: Grease, Curtindo a Vida Adoidado, 10 Coisas que Eu Odeio em Você, Meninas Malvadas, A Culpa é das Estrelas. Hollywood soube transformar a juventude em gênero. Mas para o espectador brasileiro existia sempre uma distância, como se o reconhecimento chegasse pela metade. Por mais que os dramas da adolescência sejam semelhantes em qualquer lugar do mundo, havia sempre um detalhe que lembrava que aquela história era de outro lugar.
Felizmente, produtoras brasileiras têm apostado cada vez mais em contar suas próprias histórias para o público jovem. O streaming deu o pontapé nessa nova safra. A Netflix investiu com mais força em uma dezena dessas produções a partir de 2020: Modo Avião, com Larissa Manoela, Confissões de Uma Garota Excluída, com Klara Castanho, e Depois do Universo, com Giulia Be.
As séries também ganharam espaço. De Volta aos 15, estrelada por Maisa e baseada no romance de mesmo nome da escritora Bruna Vieira, alcançou 2 milhões de visualizações na semana de lançamento da segunda temporada, em 2023, figurando o top 10 das produções mais vistas da Netflix no mundo.
Maisa (à esq.) e Larissa Manoela (à dir.) em cena de De Volta aos 15, série brasileira que se tornou um dos maiores sucessos nacionais da Netflix (Vans Bumbeers/Netflix)
“Não existe uma única juventude, história ou abordagem”, afirma Elisabetta Zenatti, vice-presidente de Conteúdo da Netflix Brasil. “Jovens querem se ver representados na tela com a mesma verdade e diversidade do seu dia a dia.”
Só que a indústria do cinema demorou para chegar a essa conclusão. “O mercado cinematográfico tradicional não tomou essa decisão [de investir em produções para jovens adultos] e quem saiu na frente foi o streaming”, assume Juliana Capelini, diretora executiva da Conspiração Filmes. “Essas plataformas entenderam a força de histórias jovens e plurais, enquanto o circuito de cinema comercial ainda carece desse tipo de produção de grande alcance.”
Há, no entanto, sinais de mudança. Produções pensadas para o cinema, com foco no público jovem e temáticas mais diversas, começam a ganhar espaço. Para especialistas, é uma tentativa do cinema conquistar, finalmente, o público que as plataformas de vídeo sob demanda fidelizaram há um bom tempo.
‘Uma nova era para o cinema teen brasileiro’
Quinze Dias, produzido pela Conspiração e que estreia nesta quinta-feira, 18, talvez seja a produção que encara esse desafio de forma mais destemida.
“Estamos inaugurando um nicho praticamente inédito no cinema comercial brasileiro: um filme teen, pop e para o público LGBTQIA+”, diz Juliana
O longa acompanha Felipe (Miguel Lallo), um adolescente gordo e inseguro que sofre bullying na escola. As férias eram sua esperança de escapar das humilhações, mas os planos vão por água abaixo quando Caio (Diego Lira), o vizinho por quem era apaixonado na infância, se torna hóspede na sua casa.
“Essas histórias são como um espelho quebrado em cacos: cada fragmento reflete um pedacinho de quem assiste”, avalia Vitor Martins, autor do livro que dá origem ao roteiro. “Quando um jovem gay e gordo como o Felipe se enxerga na tela, ele entende que a sua história é digna de virar cinema. E isso dá uma sensação de invencibilidade e enfrentamento que antes ele não tinha.”
Vitor Martins, autor do livro que originou o roteiro: para ele, essas histórias funcionam como espelho para o jovem que nunca se viu na tela (José de Holanda)
As expectativas da Conspiração vão além do filme. “O público jovem é a maior fatia dos frequentadores de cinema no Brasil hoje, mas ainda consome quase que exclusivamente a cinematografia estrangeira”, revela Juliana.
“Precisamos conquistar o público de jovens adultos com as nossas próprias histórias nacionais.”
Para isso, a produtora também depende de um movimento dos exibidores de dar espaço e tempo nas telas para que o carinho do público se converta em receita nas bilheterias. “Quinze Dias nasce como uma bela exceção, mas com o potencial de inaugurar uma nova era para o cinema teen brasileiro.”
Público com apetite
Produções pensadas para o público jovem existem no Brasil há bastante tempo. Malhação, exibida pela Rede Globo por 25 anos, marcou gerações e moldou o imaginário do que era ser jovem no país. Outras são lembradas com carinho: Confissões de Adolescentes e Sandy & Junior, na TV; As Melhores Coisas do Mundo, Desenrola e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, no cinema.
Mas, segundo Rodrigo Bomfim, doutor em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), eram iniciativas tímidas, pontuais e, muitas vezes, incapazes de abarcar a diversidade cultural e social brasileira. No cinema, as obras ficavam restritas a festivais e circuitos nichados. “Quando um adolescente queria se ver na tela, recorria às produções estrangeiras”, diz.
Não à toa, séries como Euphoria e Heartstopper fazem tanto sucesso no Brasil: são fenômenos porque o público teen tem apetite para conteúdos que os retratem, explica o pesquisador. Sex Education, por exemplo, ficou entre as produções mais pesquisadas pelos brasileiros na semana de estreia da segunda temporada, em 2020, com mais de 1,6 milhão de buscas no Google.
Para Bomfim, é um anseio por representação. Um estudo encomendado pela Netflix em 2020 corrobora com essa percepção. O levantamento mostra que 69% dos brasileiros entre 16 e 25 anos buscam por representatividade nas produções audiovisuais que consomem. A pesquisa, que ouviu mil jovens, concluiu que enxergar-se na tela é fator decisivo para escolher o que assistir.
“Esse é um público que por muito tempo teve as suas histórias negadas”, afirma Vitor. “O Brasil tem um histórico forte de produção para o público infantojuvenil, mas depois pulava direto para o adulto. Esses jovens, que têm desejo de se enxergar nas telas, foram negligenciados por muito tempo.”
Das prateleiras para as telas
O streaming ajudou a acelerar essa transformação, mas não foi o primeiro a perceber o potencial desse público. Antes que as plataformas passassem a investir em narrativas voltadas aos jovens brasileiros, a literatura nacional para jovens adultos já havia demonstrado que existia uma demanda reprimida por histórias de identificação, romance e amadurecimento ambientadas no país.
O caminho, porém, não foi simples. O mercado editorial enfrentou resistências semelhantes às que hoje ainda aparecem no cinema. Paula Pimenta, autora de Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série, relembra que teve originais recusados por editoras que sequer chegaram a ler o manuscrito. O argumento era sempre o mesmo: adolescentes não teriam interesse em livros longos.
A realidade mostrou o contrário. Suas obras se transformaram em best-sellers, conquistaram uma geração de leitores e, anos depois, renderam adaptações para as telas. Em 2024, Fazendo Meu Filme ganhou uma versão audiovisual com distribuição da Prime Vídeo, estrelado por Bela Fernandes e Xande Valois.
O sucesso desses livros não foi passageiro. Ao longo da última década, a literatura young adult deixou de ocupar um espaço periférico nas livrarias para se tornar uma das forças mais relevantes do mercado editorial brasileiro.
Os números ajudam a explicar essa transformação. Segundo o Panorama do Consumo de Livros, o País ganhou 3 milhões de novos leitores entre 2024 e 2025. O crescimento foi puxado principalmente pela faixa de 18 a 34 anos, justamente o público que hoje movimenta comunidades literárias nas redes sociais e impulsiona o sucesso de autores voltados aos jovens adultos.
Para o audiovisual, esses números funcionam como uma espécie de teste de mercado. Quando um livro conquista milhares de leitores jovens, ele deixa de ser apenas um sucesso editorial e passa a representar uma audiência já mobilizada em torno daquela história. E isso reduz uma das grandes incertezas da indústria cinematográfica: saber se existe público interessado naquele universo. "Um livro best-seller já chega com público garantido", resume Paula.
Vitor Martins percebeu essa mudança de perto. Quando publicou Quinze Dias, em 2017, sentia que sua obra ocupava um espaço ainda pouco explorado. "Era difícil encontrar histórias semelhantes, não tinha muitos irmãos na livraria", lembra. Hoje, segundo ele, o cenário é outro. "Em qualquer livraria, é fácil encontrar histórias para o mesmo público, mas com outros pontos de vista."
A trajetória de Thalita Rebouças também ajuda a ilustrar como essa ponte entre literatura juvenil e audiovisual vem sendo construída há mais tempo. Seu livro deu origem ao filme É Fada!, lançado em 2016 e estrelado por Kéfera Buchmann e Klara Castanho. Produzida com orçamento de R$ 3 milhões, a adaptação foi um verdadeiro sucesso: arrecadou R$ 16,7 milhões nas bilheterias e levou cerca de 1,7 milhão de espectadores aos cinemas.
Miguel Lallo, Débora Falabella e Diego Montez protagonizam Quinze Dias, uma das apostas recentes do audiovisual brasileiro para o público jovem (Laura Campanella)
É o fim ou apenas o começo?
Para especialistas, Quinze Dias chega em um momento em que a relação entre literatura juvenil e cinema começa a se estruturar com mais consistência, mas em que o circuito comercial ainda hesita. O preço dos ingressos, a concentração dos cinemas em shopping centers e a preferência dos exibidores por blockbusters estrangeiros seguem como obstáculos concretos.
Bomfim, pesquisador da UFBA, acredita que o streaming ainda deve liderar esse processo no curto prazo, sobretudo para produções sem grande apelo comercial imediato ou sem uma figura de alcance massivo no elenco.
O sinal mais relevante, porém, não vem das salas de cinema. Vem do comportamento de um público que lota as Bienais do Livro, movimenta bilhões de visualizações em comunidades literárias nas redes sociais e elegeu séries estrangeiras como seus maiores fenômenos culturais – não por falta de interesse no que é nacional, mas por falta de oferta à altura.
Juliana tem clareza sobre o que está em jogo além da bilheteria. ”Representar o jovem na tela é, na verdade, um investimento no futuro da nossa cultura”, diz.
“Quando geramos identificação no público adolescente, estamos formando o espectador que vai consumir o cinema adulto brasileiro amanhã. É uma engrenagem para que as nossas histórias continuem vivas, fortes e emocionando as próximas gerações.”
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: