Com R$ 13 milhões, universidade ganha distrito de inovação que transforma 75% do aluguel em pesquisa

Por Guilherme Gonçalves 21 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Com R$ 13 milhões, universidade ganha distrito de inovação que transforma 75% do aluguel em pesquisa

A quase 300 quilômetros de Porto Alegre, uma cidade no interior gaúcho quer reforçar uma vocação que vai além do agronegócio e da saúde. Passo Fundo inaugurou nesta quarta-feira, 20, o Passo Fundo Valley, um distrito de inovação construído pela Universidade de Passo Fundo (UPF) com investimento de R$ 13 milhões.

O complexo ocupa uma área de 10 hectares dentro do Campus I da universidade e amplia em mais de 75% a estrutura já dedicada à inovação. Com a expansão, o ecossistema ligado à UPF passa a ter mais de 7 mil metros quadrados de infraestrutura voltada a pesquisa, desenvolvimento e empreendedorismo.

O projeto nasce com 34 lotes destinados a empresas de base tecnológica, além de coworking, incubadora, laboratórios, espaços compartilhados e uma arena para eventos e conexões. A expectativa da universidade é que o distrito ultrapasse mil empregos diretos quando atingir ocupação plena.

Mas o principal diferencial do projeto não está nos prédios ou nos lotes. Está no modelo financeiro criado para atrair empresas. Até 75% do valor pago pela ocupação dos espaços poderá retornar às próprias empresas na forma de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Como o espaço vai transformar aluguel em pesquisa

Ao contrário de condomínios empresariais tradicionais, as empresas não comprarão terrenos no Passo Fundo Valley. Elas recebem o direito de uso por 20 anos — renováveis por mais 20 — e constroem suas próprias instalações.

A universidade estruturou um modelo em que grande parte do valor pago pelo uso do espaço pode voltar para dentro da operação da companhia. Na prática, esse dinheiro pode financiar bolsas de estudo, laboratórios, estágios, projetos de pesquisa ou desenvolvimento de novas tecnologias em parceria com a universidade.

"Entendemos que esse é um modelo que também inova. Nos interessa que a empresa esteja ali dentro se desenvolvendo, desenvolvendo seus produtos e processos. E interessa que ela também agregue a universidade para impulsionar ainda mais a pesquisa, a produção científica e a formação de talentos", diz Bernadete Dalmolin, reitora da UPF.

Instaladas neste ecossistema, as empresas passam a acessar mais de 200 laboratórios especializados da universidade, além de pesquisadores, estudantes, certificações e infraestrutura científica já existente.

"As empresas de modo geral não conseguem ter uma estrutura de pesquisadores, laboratórios e certificações. Tudo isso existe dentro da universidade. Quando você cria um ambiente de encontro das pessoas, facilita para que a inovação aconteça", afirma a reitora.

Passo Fundo Valley: novo complexo reúne laboratórios, coworking e áreas para empresas desenvolverem pesquisa aplicada (Passo Fundo Valley/Divulgação)

O que haverá no distrito de inovação

Neste primeiro momento, a entrega do projeto contempla os lotes e a ampliação da infraestrutura já existente no parque tecnológico da universidade. Foram adicionados 2,9 mil metros quadrados à estrutura anterior, que tinha 4 mil metros quadrados.

O espaço passa a contar com:

Quatro empresas já assinaram termos para ocupar áreas do distrito e terão prazo de seis meses para iniciar as obras. Duas delas já possuem relacionamento próximo com a universidade.

Uma delas é a Semicrop, startup de soluções de agrobiotecnologia criada a partir de pesquisas conduzidas por professores da própria instituição. Outra é a Stara, fabricante de máquinas agrícolas que mantém projetos conjuntos de tecnologia embarcada com a universidade.

"São empresas que já desenvolvem pesquisas dentro da universidade, com estudantes, professores e programas de pós-graduação. É um exemplo de como essa aproximação entre indústria e universidade vem sendo construída", diz Bernadete.

Passo Fundo Valley: modelo prevê que até 75% do valor pago pelas empresas seja revertido em projetos de pesquisa e inovação (Passo Fundo Valley/Divulgação)

A corrida das universidades para criar ecossistemas de inovação

O Passo Fundo Valley não surge isoladamente. Nos últimos anos, universidades brasileiras passaram a construir ambientes que aproximam produção científica e mercado.

No Rio Grande do Sul, o exemplo mais conhecido é o Tecnopuc, criado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre, que reúne startups, centros de pesquisa e grandes empresas. Outro caso no mesmo estado é o Tecnosinos, ligado à Unisinos, em São Leopoldo, que abriga operações de tecnologia e empresas ligadas à indústria 4.0.

Fora do Rio Grande do Sul, iniciativas semelhantes incluem o Parque de Inovação Tecnológica São José dos Campos (PIT), em São Paulo, e o Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que concentra empresas e centros de pesquisa em áreas como energia, biotecnologia e tecnologia da informação.

A diferença, segundo a reitora da UPF, está em tentar replicar esse modelo fora das regiões metropolitanas.

"O Valley prova que o futuro tecnológico do Brasil não cabe em três ou quatro metrópoles. Ele também pode ser construído nas cidades médias do interior", afirma Bernadete.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: