Com receita secreta há 180 anos, bebida italiana quer repetir no Brasil sucesso que faz na Argentina

Por Guilherme Gonçalves 24 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Com receita secreta há 180 anos, bebida italiana quer repetir no Brasil sucesso que faz na Argentina

Em bares de São Paulo, um copo alto com gelo, licor escuro e refrigerante de cola começou a aparecer com mais frequência nos últimos meses. Para muitos brasileiros, a combinação ainda causa estranhamento. Para os argentinos, é quase uma instituição nacional.

O chamado fernet con cola nasceu em Buenos Aires nos anos 1980 e transformou uma bebida criada na Itália em um símbolo cultural do país vizinho. Agora, a dona da marca Fernet-Branca quer fazer o caminho inverso: usar a força do ritual argentino para abrir espaço em um mercado onde ainda é pouco conhecida.

Os sinais de crescimento já apareceram. Segundo dados da consultoria IWSR, o consumo de Fernet-Branca no Brasil cresceu 440% em 2025 em relação ao ano anterior. A maior parte desse avanço ocorreu no Sul do país, região que historicamente mantém maior proximidade cultural com Argentina, Uruguai e Paraguai.

À EXAME, a Fernet-Branca diz que o movimento brasileiro faz parte da sua estratégia de expansão internacional. Hoje, a companhia está presente em mais de 160 países e registra faturamento anual na casa de US$ 500 milhões.

Uma receita de 1845 que atravessou seis gerações

Muito antes de virar ingrediente de drinques em bares de Buenos Aires ou São Paulo, o Fernet-Branca nasceu com outro propósito.

A bebida foi criada em 1845 pelo farmacêutico Bernardino Branca, em Milão, inicialmente como um digestivo medicinal. A fórmula combinava ervas e especiarias em uma receita que permanece secreta até hoje. O produto chegou a ser vendido em farmácias e utilizado em hospitais ao longo do século 19.

Quase dois séculos depois, a empresa continua sob controle da mesma família.

Manter um negócio por seis gerações não é algo comum, especialmente no setor de bebidas, marcado por fusões e aquisições bilionárias. Enquanto concorrentes como Campari passaram por processos de consolidação global, a Fratelli Branca permaneceu independente.

A filosofia da companhia resume essa visão de longo prazo. O lema interno é pensar sempre na próxima geração — e não no próximo trimestre.

A produção permanece concentrada em apenas duas fábricas: uma na Itália e outra na Argentina.

Como a Argentina transformou uma bebida italiana em símbolo nacional

Se na Itália o Fernet nasceu como digestivo, na Argentina ganhou outra identidade.

A forte imigração italiana levou a bebida ao país ainda no século 19. Décadas depois, surgiu uma combinação improvável: Fernet misturado com refrigerante de cola. Rapidamente, o drinque virou hábito social.

Hoje, a Argentina responde pelo principal mercado da marca no mundo e se tornou praticamente um caso de estudo sobre construção de categoria. A bebida ganhou vida própria, principalmente entre consumidores mais jovens.

A empresa, porém, evita a ideia de simplesmente reproduzir a fórmula argentina em outros países.

Segundo a companhia, a estratégia não é exportar um modelo pronto, mas criar relevância local a partir de diferentes hábitos de consumo.

Como a Fernet-Branca quer repetir o sucesso no Brasil

O principal obstáculo da empresa no Brasil talvez não seja preço nem distribuição. É algo mais básico: fazer o consumidor entender o que é Fernet-Branca.

A companhia reconhece que ainda está em uma fase de construção de mercado, focada em gerar experimentação e criar ocasiões de consumo.

"O Brasil é um mercado prioritário dentro da nossa estratégia. É um mercado estratégico de longo prazo para Fernet-Branca e, hoje, encontra-se em uma etapa de construção", disse a empresa em nota para a EXAME.

Hoje, a operação local é realizada em parceria com a Aurora Fine Brands, responsável pela importação e distribuição no país. A estratégia combina presença em bares, restaurantes e varejo especializado.

O Sul acabou se tornando uma espécie de laboratório natural. Por afinidade cultural e proximidade com os países vizinhos, a região já possui consumidores mais acostumados a sabores herbais e amargos. Mas a ambição é maior.

São Paulo aparece agora como um próximo passo natural. A cidade concentra uma cena de coquetelaria em expansão e consumidores mais dispostos a testar categorias novas.

"Não se trata de limitar o desenvolvimento da marca ao Sul, mas de construir a partir de uma região onde Fernet-Branca pode dialogar de forma mais natural com determinados códigos culturais já existentes", diz outro trecho da nota enviada pela empresa.

A receita criada em 1845 nunca mudou. O entorno dela, sim. Nos últimos anos, a companhia passou a reforçar sua relação com a coquetelaria, aproximou-se de bartenders e ampliou seu portfólio de aperitivos e vermutes.

A ideia não é abandonar a tradição, mas adaptá-la. Internamente, a empresa usa uma expressão em latim para definir esse processo: Novare Servando — inovar preservando.

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