Combustíveis fósseis colocam 'pé na garganta' na economia, diz secretário da ONU

Por Letícia Ozório 30 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Combustíveis fósseis colocam 'pé na garganta' na economia, diz secretário da ONU

O secretário-executivo da ONU para Mudanças Climáticas, Simon Stiell, usou a abertura de um diálogo de alto nível sobre transição energética em Paris, nesta quinta-feira, 30, para traçar um quadro sombrio da economia global — e defender que a crise atual nos mercados de energia é, paradoxalmente, um acelerador da virada para as renováveis.

"A crise de custos dos combustíveis fósseis está com o pé na garganta da economia global, e a estagflação está em marcha", disse Stiell no discurso que abriu o primeiro Diálogo de Alto Nível pela Transição Energética, organizado pela Presidência da COP31 e pela Agência Internacional de Energia (AIE).

O evento, realizado em Paris a partir das 7h (horário de Brasília), reúne líderes de governos, indústria, finanças e sociedade civil na preparação para a conferência climática de novembro, em Antalya, na Turquia.

Stiell apontou a guerra no Oriente Médio como motor da instabilidade energética, com impactos que se espalharam "como uma pandemia" a todos os países, pressionando orçamentos de famílias, empresas e governos.

Mas identificou aí uma ironia: "Os que lutaram para manter o mundo viciado em combustíveis fósseis estão inadvertidamente turbinando o boom global das renováveis."

Investimento em energia limpa

Os números que Stiell cita reforçam o argumento. O investimento em energia limpa se aproximava do dobro do investimento em combustíveis fósseis em 2025.

A geração solar ultrapassou 600 terawatts-hora em relação a 2024 — um salto que classificou como "colossal", ainda que a transição permaneça desigual entre países.

Espanha e Paquistão foram citados como exemplos de nações protegidas dos piores efeitos da crise por contarem com matrizes ricas em renováveis. A França, país-sede do evento, está dobrando o financiamento em eletrificação.

"É por isso que tantos governos estão acelerando seus planos de energias renováveis: para restaurar a segurança nacional, a estabilidade econômica, a competitividade, a autonomia de políticas públicas e a soberania básica", afirma o secretário-executivo.

Fim dos combustíveis fósseis?

O alerta central do discurso foi de cautela: que governos não usem a crise como pretexto para comprometer-se com combustíveis fósseis no longo prazo. Stiell pediu também que se rompa o vínculo entre preços de eletricidade e fósseis — para que o custo mais baixo das renováveis chegue de fato nas contas dos consumidores.

Para acelerar essa virada, o secretário defendeu o que chamou de Action Agenda — mecanismo do Acordo de Paris que reúne governos, empresas, investidores e sociedade civil para transformar compromissos em projetos concretos na economia real — de forma equitativa, "tanto no Norte quanto no Sul Global".

Nesta semana, disse, governos e organizações da sociedade civil se reunem em Santa Marta, na Colômbia, exatamente para discutir a saída dos combustíveis fósseis — exemplo, segundo ele, de "coalizões dos dispostos" que já estão agindo.

Na pauta de prioridades imediatas, destacou mais investimento em redes elétricas e armazenamento de energia, cortes nas emissões de metano — gás que classificou como "ultrapotente" — e atenção à segurança alimentar.

A guerra está provocando escassez de fertilizantes e ameaça 45 milhões de pessoas com fome aguda em 2026, disse.

Caminho ao US$ 1,3 trilhão

Para os países em desenvolvimento, Stiell cobrou o desbloqueio do financiamento climático e cumprimento do novo acordo coletivo de metas — o New Collective Quantified Goal — incluindo o roteiro para mobilizar US$ 1,3 trilhão.

A urgência, para Stiell, tem data marcada: quando os países se reunirem na COP33 no segundo balanço global de ação climática, precisam estar mais perto de cumprir os compromissos assumidos no primeiro. O diálogo em Paris é o primeiro de uma série que a Presidência da COP31 realizará nos próximos meses com a AIE, buscando traduzir compromissos em resultados antes de novembro. "Devemos aproveitar este momento. Não temos tempo a perder", encerrou.

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