Como a crise climática encarece o cacau e está por trás do "sabor chocolate"
A Páscoa de 2026 chega mais cara para os consumidores, e para muitos, também com uma mudança difícil de ignorar: chocolates mais gordurosos e com menos sabor.
O que está por trás é uma cadeia global pressionada pela crise climática, que encareceu o cacau e já começa a alterar a composição de produtos que chegam às prateleiras.
Se o mundo não conter o aquecimento global, projeções já indicam para o risco de escassez de cacau até 2050.
Com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos, o agronegócio é afetado pela queda de produtividade e aumento da volatilidade da oferta da matéria-prima.
É o que aconteceu na África Ocidental, responsável por cerca de 70% da produção mundial, onde houve uma redução de 70% no comodity nos últimos anos.
Secas, chuvas irregulares e pragas, como um fungo que afetou plantações na Costa do Marfim e em Gana, provocaram quebras de safra e pressionaram os preços desde 2022.
Entre o fim de 2024 e o início de 2025, o mercado global de cacau viveu um dos choques mais intensos da história recente, com preços que chegaram a superar US$ 10 mil por tonelada.
O impacto foi significativo e a tonelada de cacau saiu de cerca de US$ 2.500 para um pico de US$ 12.000, segundo dados da indústria.
Atualmente, os preços recuaram, mas ainda permanecem elevados na casa de US$ 5.000 e US$ 5.500 em um patamar considerado alto pelo setor, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab).
No Brasil, essa pressão já chegou ao consumidor. O preço do chocolate subiu quase 25% nos últimos 12 meses, segundo os dados da inflação do IPCA-15, levantamento que considera o período entre abril de 2025 e março de 2026.
Especialistas alertam que o desafio do país é ampliar a produtividade, já que ainda não há uma autossuficiência em cacau, principalmente devido a falta de investimento, acesso a crédito e renovação das lavouras.
Ao mesmo tempo, o cenário abre espaço para crescimento da produção nacional, especialmente em um contexto de oferta global pressionada.
Menos cacau, mais gordura
Com a matéria-prima mais cara, a indústria global de chocolate passou por uma reconfiguração. Parte das empresas reduziu gramatura, ajustou receitas e, em alguns casos, diminuiu o teor de cacau dos produtos para preservar margens de lucro.
É nesse contexto que ganha espaço o chamado “sabor chocolate”: produtos com menor concentração de cacau e maior uso de açúcar, gorduras e aromatizantes.
Pela legislação brasileira, chocolates devem ter ao menos 25% de cacau. Abaixo disso, entram na categoria de “sabor chocolate”, ainda que mantenham aparência, formato e preço semelhantes aos insumos tradicionais.
Para o consumidor, a mudança aparece na textura mais oleosa, gosto menos intenso e a sensação de um produto “diferente”, mesmo com preços mais altos.
Na contramão, Dengo aposta em cacau sustentável
Enquanto parte da indústria busca alternativas para reduzir custos, algumas empresas seguem na direção oposta.
É o caso da Dengo, marca brasileira de chocolates premium fundada em 2017 por Guilherme Leal, cofundador da Natura. A empresa opta por manter alto teor de cacau e ingredientes naturais, mesmo diante da pressão de custos.
A estratégia inclui operar com cacau 100% brasileiro e uma cadeia integrada, comprando diretamente de pequenos e médios produtores no sul da Bahia, especialmente na região de Ilhéus.
Em entrevista recente à EXAME, a CEO da Dengo afirmou que, apesar da alta histórica do cacau, a empresa não alterou suas receitas nem reduziu o teor do ingrediente e manteve seu posicionamento premium baseado em qualidade e origem.
Essa escolha aumenta a exposição ao preço da matéria-prima, mas a Dengo busca compensar com eficiência operacional e fortalecimento da marca. A aposta é que qualidade e posicionamento sustentem a alta no valor, mesmo em um cenário adverso causado pelo clima.
Com o cacau mais caro, a tendência é que parte da indústria continue buscando alternativas para reduzir custos, enquanto outras marcas apostam em diferenciação e maior valor agregado.
A seguir, confira como funciona o mercado de R$ 42,5 bilhões do chocolate no Brasil, na série "Do campo ao concreto" da EXAME:
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