Como a Guerra do Irã ajudou a adiar o fim da guerra da Ucrânia
Quando dois grandes conflitos ocorrem ao mesmo tempo, os impactos são mais diretos e acontecem em tempo real. Desdobramentos em um conflito – por mais que ocorram do outro lado do mundo - podem reverter completamente situações em outro, prejudicando prospectos de paz e econômicos que ditam o rumo de uma guerra.
Podemos ver isso acontecendo atualmente na dinâmica entre a guerra israelense-americana contra o Irã e a invasão russa da Ucrânia, dois conflitos independentes e separados por quilômetros de terreno que afetam um ao outro diretamente. A situação na Ucrânia parecia congelada: linhas de frente que avançavam lentamente, e impasses diplomáticos que impediam qualquer tipo de concessão. A nova guerra no Irã, todavia, promete mudar subitamente o andamento do conflito.
Antes dos ataques a Teerã, problemas internos assolavam tanto o invasor quanto o invadido. A situação na Ucrânia é difícil devido, primariamente, aos ataques russos na infraestrutura energética e em complexos habitacionais, resultando em falta de calefação e uma miríade de outros problemas no clima frio.
Politicamente, todavia, apesar de alguns escândalos, a situação era relativamente estável. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, teve altas taxas de aprovação durante toda a duração do conflito, batendo até os 90% no início, em 2022, e seus números mais baixos ainda pairam nos 60%. Visto como vítimas de uma guerra injusta, a Ucrânia, seu líder, e sua população também contam com ampla simpatia e apoio internacional, especialmente de seus aliados na Otan e na União Europeia.
Na Rússia, por outro lado, a instabilidade econômica e social reinou durante muito do conflito. Visto como agressor, Vladimir Putin enfrenta escrutínio internacional e conta com pouco apoio. A guerra que iniciou drena uma economia já limitada por intensas sanções, agravadas ainda mais pela invasão. Uma nação exportadora, a Rússia depende da venda de seu petróleo, e chegou a vender barris a 22 dólares para a Índia, uma mera fração do preço normal da commodity.
Suas tropas e veículos não conseguiam ganhos significativos, pois enfrentavam um arsenal internacional, fornecido tanto pela Otan e pela União Europeia e pelos próprios EUA. Relatos de dentro do Kremlin apontam para intensas reformas e repressões políticas, e o consenso entre analistas era de que Putin estaria cada dia mais próximo de aceitar concessões para encerrar o conflito.
Como a guerra do Irã afetou prospectos de paz na Ucrânia
Fumaça e chamas sobem no local dos ataques aéreos a um depósito de petróleo em Teerã, em 7 de março de 2026. Guerra no Irã tira foco americano da Europa e gasta valiosos recursos que poderiam ser usados para defender a Ucrânia (Sasan / Middle East Images / AFP /Getty Images)
No dia 28 de fevereiro desse ano, todavia, durante o quarto ano da invasão, os prospectos mudaram com os ataques em Teerã. O fechamento do estreito de Ormuz viu não só um choque na oferta global de petróleo – o que torna a Rússia uma alternativa muito mais atraente, levantando sanções – mas também atraiu diretamente a atenção dos EUA, que viraram as costas para o conflito na Ucrânia. Sem seus maiores obstáculos militares e econômicos, Putin adquiriu um novo ímpeto e parece agora menos disposto a chegar a um acordo que envolva qualquer concessão russa.
Conforme o embate em Teerã toma a atenção do Pentágono, a Europa sente a ausência dos Estados Unidos não só como fornecedor de armamentos para a Ucrânia mas também como importante mediador e limitador à ameaça da Rússia. Pior ainda é a queima dessas armas, tão caras quanto são destrutivas, no Irã, em um imbróglio do qual analistas veem pouca chance de saída para os EUA nas próximas semanas.
“Todos entendem que, para nós, isso é a nossa vida — as armas adequadas”, disse o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a repórteres na segunda-feira. “Se houver hostilidades prolongadas no Oriente Médio, isso certamente afetará o fornecimento. Tenho certeza disso.”
Os comentários apontam uma semelhança que a Ucrânia tem com o Irã, mas que os EUA não apresentam: tanto Kiev quando Teerã lutam uma guerra existencial, ao invés de meramente política e ideológica como é para Washington. A queda de Kiev representa a queda de um país, e pode servir como um prelúdio para o resto da Europa, assim como a queda de Teerã traria o fim de um regime que busca se manter o poder a qualquer custo.
Além dos armamentos, com o preço do barril de petróleo batendo acima de 100 dólares, muitas sanções americanas sobre o petróleo russo foram levantadas, removendo um grande peso dos ombros de Putin, que lida com uma guerra estagnada em uma economia enfraquecida. Demanda por fertilizantes russos, já que o congelamento de Ormuz também afetou o fluxo de ureia e outros fertilizantes para o mundo também dispararam, conforme muitos países lidam com insegurança alimentar e prospectos sombrios conforme a primavera toma conta do hemisfério norte, trazendo uma nova temporada de semeadura.
Ainda melhor para Putin, a guerra no Irã afasta os EUA não só dele, mas também de seus aliados da Otan. Após o congelamento de Ormuz – considerado por muitos analistas como uma grave falha estratégica dos EUA – o presidente americano, Donald Trump, pediu à Otan para que enviassem armamentos, tropas e navios para reabrir o estreito, efetivamente envolvendo muitos países em uma guerra com a qual não têm relação alguma. Quando suas propostas foram rebatidas com ambiguidade e, em alguns casos, rejeição total, Trump chamou a reação de “um erro muito tolo”. Para Putin, divisões cada vez maiores entre seus inimigos são algo bem-vindo.
Politicamente, o cenário também melhora para o Kremlin. A guerra no Irã, desaprovada por muitos eleitores e políticos americanos – inclusive membros vocais do movimento MAGA como o jornalista de direita Tucker Carlson e membros do partido republicano de Trump – pinta um cenário preocupante para o presidente, conforme as eleições de meio de mandato pairam no horizonte político do segundo semestre, e preliminares já apontam para um ímpeto democrata.
Para Putin, isso significa, além da fragmentação política nos EUA, seu maior inimigo, a possibilidade de um substituto com visões diferentes em relação à Rússia e posturas mais amenas sobre conflitos. Mas, acima de tudo, presidentes americanos são figuras temporárias, e a guerra no Irã acelera essa mudança.
Nem tudo é um mar de rosas para o Kremlin
Apesar de boas notícias, situação segue precária para o Kremlin (ALEXANDER NEMENOV / Colaborador/Getty Images)
Mesmo com amplas vantagens no que parece ser um golpe de sorte, a Rússia ainda enfrenta intensos problemas socioeconômicos, com muitos em Moscou acreditando que os bons tempos durarão pouco. Até maio, céticos no Kremlin acreditam que a guerra no Irã já terá acabado, e que as duras sanções serão reimpostas conforme o mercado de petróleo gradualmente se recupere do choque.
No coração do Kremlin, a situação segue turbulenta. Muitos dos planos para mudança no corpo político do país, como intenções de preencher o parlamento com militares veteranos, ainda estão em andamento, e a repressão de críticos atinge novos níveis, com o cancelamento das operações da plataforma de mensagem Telegram – a mais popular no país – e a prisão de um blogueiro russo crítico a Putin em uma instalação psiquiátrica. Ao mesmo tempo, apagões de internet são cada vez mais frequentes no país conforme a população expressa sua insatisfação com a guerra, que já se alastra há mais de quatro anos – mais tempo que todo o envolvimento soviético na Segunda Guerra mundial.
O jornalista e autor russo Mikhail Zygar escreve em uma coluna de opinião no jornal americano The New York Times: “Um nível de descontentamento público que até recentemente seria impensável agora faz parte do cotidiano. Em breve, ao que tudo indica, o Sr. Putin terá que fazer uma escolha crucial: ou concordar com alguma forma de desescalada na Ucrânia, potencialmente incluindo o fim da guerra, ou seguir na direção oposta — intensificando os controles em todos os níveis, chegando até mesmo a uma nova mobilização.”
Por mais que seja impossível de prever, a decisão de Putin parece depender, em grande parte, nas decisões do EUA e no andamento de uma guerra a milhares de quilômetros de distância de suas linhas de frente, com a qual a Rússia não tem relação direta.
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