Como a guerra no Irã afeta indústrias muito além do petróleo
Desde que a atual guerra no Irã estourou, há cerca de três semanas, os olhos dos mercados do mundo estão fixados em um número em particular: o preço do barril de petróleo bruto.
A cifra para o Brent, o padrão global da commodity bruta, chegou a bater os 106 dólares na segunda, 16, na maior alta desde a invasão russa da Ucrânia, que também impactou o mercado de petróleo global.
Os impactos da guerra sobre o estreito de Ormuz resultaram em uma crise energética global que afeta cadeias de suprimento por todo o mundo. O principal mercado afetado é o do petróleo – afinal, mais de 20% do comércio global de petróleo navega pelas águas de Ormuz.
Além de ser usado para fabricar combustível, o petróleo e seus derivados também são a base para fabricar plásticos, borrachas sintéticas, detergentes, corantes e vários outros químicos industriais que são importantes ingredientes para a economia global.
Além disso, 22% da ureia comercializada no mundo, usada na produção de fertilizantes, 24% do alumínio global, cerca de 33% do hélio e até 45% do enxofre globais são produzidos no Oriente Médio.
E o bloqueio de Ormuz não é o único problema; ataques de drones em plantas que produzem essas commodities afetam drasticamente indústrias como transporte, manufatura e produção de comida.
Transporte
O setor do transporte, seja por terra, mar, ou água, sofre drasticamente com a guerra no Irã devido às incertezas cercando combustíveis e processos de refinaria do petróleo bruto (Silvio Avila/AFP/Getty Images)
A indústria do transporte, coluna vertebral de muitos outros setores, depende muito de produtos refinados a partir do petróleo para combustível. A refinação do petróleo envolve processos e equipamentos altamente precisos, e a ausência de elementos adjacentes, ou até de elementos considerados contaminantes, como enxofre, podem afetar esses processos, aumentando custos de operação para refinarias, potencialmente danificando seus equipamentos e, sobretudo, reduzindo o volume final de combustíveis produzidos, como diesel e combustível de aviação.
Os efeitos em cascata fizeram com que a China suspendesse todas as exportações de produtos refinados, a fim de economizar mais para si. Isso resultou no disparo nos preços da gasolina, do diesel e dos combustíveis para aviões em Singapura, o centro comercial para o petróleo na Ásia – combustíveis de aviação no país atingiram mais de 200 dólares por barril em um pico no meio de fevereiro, segundo apuração da revista britânica The Economist.
A empresa de análise Kpler prevê que se Ormuz continuar bloqueado, países na Oceania como Austrália e Nova Zelândia utilizarão 80% de seus estoques em 36 dias; na África, o prazo chega em 23. Países asiáticos fora Japão, China e Coreia do Sul, que através de estoques vastos e soluções diplomáticas, muitas vezes além do alcançe de nações mais pobres, são capazes de aguentar mais tempo, esgotarão a maioria de seu petróleo em apenas 12 dias. Muitos países no sul e sudeste asiático, por exemplo, já estão fechando escolas e outras instituições, decretando semanas úteis bem menores e até mesmo adiantando a comemoração de importantes feriados religiosos.
Mesmo uma resolução para o conflito e uma reabertura rápida do estreito não trarão alívio, devido aos severos danos já causados tanto aos mercados quanto à plantas de produção, extração e refinarias. Além disso, um fator psicológico também entra em ação, estima a Kpler, já que muitos comerciantes poderiam ficar relutantes em depender novamente, e de maneira tão intensa, da rota pelo Oriente Médio.
Manufatura
Setor manufatureiro sofre com falta de matérias primas devido à guerra no Irã (Dibysngshu Sarkar/AFP Photo)
Um outro setor altamente impactado é o de manufatura, que também depende em grande parte das instalações do Golfo Pérsico. A região é responsável pelo fluxo marítimo de cerca de 45% da produção global de nafta, um derivado do petróleo amplamente utilizado na produção de plásticos, e de 23 a 30% das exportações de outros plásticos fundamentais, como estireno e polietileno.
A crise é tamanha que diversas grandes empresas manufatureiras asiáticas já decretaram force majeure, o que significa que essas companhias não serão capazes de cumprir obrigações contratuais devido a fatores além do seu controle.
Elementos petroquímicos também estão presentes em muitos medicamentos, como parte dos compostos ativos. Além disso, o bloqueio também põe em perigo a exportação de diamantes, que – além da indústria da moda e das joias – também são amplamente utilizados em setores manufatureiros como pontas de ferramentas cortantes e perfurantes: o Golfo Pérsico produz 26% dos diamantes industriais do mundo. Também é de lá que vem 26% do glicol mundial, utilizado em tintas, e 30% do metanol, que vê uso em uma miríade de produções, de plásticos a produtos químicos e materiais de construção.
O alumínio, essencial para embalagens, transporte, redes de energia e até mesmo fontes de energia sustentáveis, também sofre. As grandes fornalhas em estados do golfo como no Catar estão sem gás para sua operação normal devido ao bloqueio, enquanto plantas no Bahrein e nos Emirados Árabes não conseguem exportar seus produtos pelo mesmo motivo. Até mesmo um porto do país de Omã, levemente fora do estreito, está sob ataque, enquanto custos para o transporte dessas commodities não param de aumentar.
Como resultado, o preço do alumínio disparou, fazendo a Bolsa de Metais de Londres atingir preços de 3.440 dólares por tonelada, próximo do maior valor em quatro anos. Preços para a entrega em regiões que dependem dos suprimentos do golfo, como a Europa, cujas importações da região representam 14% do estoque de alumínio e os EUA, onde a cifra chega até aos 21%, bateram recordes.
Por fim, um outro importante bem industrial, e talvez inesperado, que sofreu com a guerra é o gás hélio, essencial para sistemas de resfriamento dos poderosos ímãs envolvidos na produção de chips semicondutores. Antes da guerra, o Catar produzia em seu enorme complexo de Ras Laffan cerca de 17 toneladas do gás por dia, uma cifra que representava cerca de um terço do estoque global. Atualmente, no entanto, Ras Laffan está inativa, e não existem substitutos viáveis para a produção de hélio no momento.
Produção de alimentos
Preço de fertilizantes pode prejudicar colheitas em todo o mundo, e incertezas sobre a commodity afetam o Brasil particularmente (Leandro Fonseca /Exame)
A indústria alimentícia também sofre com o fechamento, devido às grandes quantidades de fertilizantes que são oriundos da região. Esse problema, talvez mais do que os outros, afeta o Brasil diretamente, já que importamos grandes quantias desses produtos do golfo, e a guerra faz o preço subir consideravelmente.
Dados da ONU sugerem que cerca de um terço do transporte marítimo de fertilizante passa por Ormuz: cerca de dois terços desse número são representados por ureia, normalmente derivada de gás natural, e o resto toma a forma de fosfato. Por mais que o Brasil seja negativamente impactado, o cenário é ainda pior para outros países – de acordo com apuração do The Economist, o Quênia, o Paquistão, a Somália, o Sri Lanka e a Tanzânia importam mais de 25% de todo o seu fertilizante da região. Para o Sudão, a figura é ainda pior: o país importa mais da metade desses produtos do Oriente Médio.
E os preços já dispararam. A ureia, que já era um produto relativamente caro, viu seu preço subir em 35% desde o começo da guerra. Nos últimos 3 meses, preços de entrega para as américas aumentou em mais de 70%.
O enxofre, outro fertilizante e importante componente no processamento de metais na forma de ácido sulfúrico, viu um aumento de 40% nos preços, ultrapassando o último pico de 2022. As flutuações nos preços de aquisição e de entrega, e no tempo que esses produtos levam para chegar a seus destinos, podem prejudicar drasticamente as próximas colheitas, especialmente conforme a primavera chega no hemisfério norte para uma nova temporada de semeação e colheita.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: