Como a guerra no Irã deve mexer com o trigo na Argentina — e o pão do Brasil

Por institucional 18 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a guerra no Irã deve mexer com o trigo na Argentina — e o pão do Brasil

A guerra envolvendo o Irã já começa a pressionar uma cadeia sensível da economia global — e seus efeitos podem chegar ao pão consumido no Brasil. A disparada no preço da ureia, fertilizante essencial para o cultivo de trigo, colocou produtores argentinos diante de um dilema às vésperas do plantio.

O insumo, responsável por fornecer nitrogênio às lavouras, praticamente dobrou de preço em poucas semanas.

Desde o início do conflito, os preços da ureia acumulam alta de 61%, o que tem gerado resistência por parte dos compradores em avançar nas negociações, segundo levantamento da StoneX.

A alta reflete a redução da oferta global, especialmente dos países do Golfo Pérsico, diretamente impactados pelo conflito e pelas restrições no Estreito de Ormuz — uma das principais rotas do comércio internacional.

Com custos mais elevados, agricultores argentinos agora reavaliam seus planos. Parte deles considera reduzir a aplicação do fertilizante, enquanto outros cogitam até abandonar o plantio de trigo nesta temporada, que começa nas próximas semanas.

Mesmo com a retomada das navegaçõe no Estreito de Ormuz nesta sexta-feira, 17, pelo Irã, o cenário segue incerto. Segundo John Ollett, analista de fretes da Argus na Europa, ainda não está claro se haverá mudanças efetivas nas condições de navegação na região.

“Foi especificado que a passagem seria permitida pela ‘rota coordenada já anunciada’, o que pode significar que os iranianos continuarão cobrando pedágios pela travessia”, afirma.

O impacto logístico já aparece nos custos de transporte. Dados da Argus mostram que o frete de navios do tipo VLCC do Golfo do Oriente Médio para o leste asiático saltou para US$ 15,71 por barril, ante US$ 6,14 antes do início da guerra. Embora as tarifas tenham recuado nas últimas semanas, há risco de nova alta com a recomposição de estoques na Ásia.

“O frete pode subir ainda mais se a passagem livre pelo estreito for implementada, já que compradores correrão para formar estoques”, diz Ollett.

Segundo Tomás Pernías, analista de fertilizantes da StoneX, existe um represamento logístico relevante na região.

"Ainda que o fluxo de navegação pelo Estreito de Ormuz seja retomado, é esperado que o mercado global permaneça enfrentando dificuldades, em razão dos constrangimentos logísticos acumulados pelo setor nas últimas semanas. O cessar‑fogo reduz a tensão, mas não resolve os desequilíbrios estruturais no curto prazo, diz Pernías.

Pão mais caro no Brasil?

Os efeitos dessa pressão sobre custos podem atravessar fronteiras e atingir diretamente o Brasil. A Argentina é o principal fornecedor de trigo para o mercado brasileiro, o que torna qualquer mudança na produção local um fator de risco para os preços internos.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve importar 6,7 milhões de toneladas de trigo na próxima temporada — com forte dependência do país vizinho.

Na última safra, a Argentina registrou produção recorde de 29,5 milhões de toneladas, segundo a Bolsa de Cereais de Rosário. Ainda não há estimativas oficiais para o próximo ciclo, mas a incerteza sobre o uso de fertilizantes já levanta dúvidas sobre o potencial produtivo.

O país consome cerca de 2,5 milhões de toneladas de ureia por ano, não apenas no trigo, mas também em culturas como o milho, onde o insumo é fundamental para o desenvolvimento das plantas.

Em um cenário de custos mais altos e margens pressionadas, a decisão dos produtores argentinos nas próximas semanas pode ter impacto direto na oferta regional de grãos — e, em última instância, no preço do pão que chega à mesa dos brasileiros.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: