Como a regeneração do solo virou estratégia das multinacionais de alimentos
Quem não embarcar na agricultura regenerativa, vai ficar para trás e perder mercado.
O alerta da pesquisadora Ana Luer, da Embrapa, resume a transformação que redesenha o sistema alimentar global.
Pressionadas por metas de descarbonização, pela crise climática e pela necessidade de proteger cadeias de suprimento agrícolas, multinacionais de alimentos estão apostando cada vez mais na regeneração.
Mais do que uma agenda ambiental, garantir a saúde do solo tornou-se uma estratégia de negócios e até uma questão de sobrevivência.
“O produtor que está no vermelho não vai para o verde”, afirma a especialista da Embrapa. Ou seja, para ganhar escala, práticas sustentáveis precisam gerar produtividade, reduzir custos e aumentar a resiliência da produção.
O Brasil lidera com tecnologias consolidadas no campo e grandes empresas do setor já colhem os benefícios de um modelo produtivo mais resiliente e de baixo carbono.
Na PepsiCo, a descarbonização começa no campo e passa necessariamente pela transformação da agricultura.
A gigante de alimentos compra cerca de 450 mil toneladas de insumos agrícolas por ano no Brasil, incluindo batata, milho e coco.
“Incorporar práticas regenerativas não é apenas uma escolha, é uma necessidade para garantir a resiliência da nossa cadeia de suprimentos e o futuro do sistema alimentar”, diz à EXAME, Isabela Malpighi, Chief Sustainability Officer da PepsiCo Latam.
No setor de laticínios, a lógica é semelhante. A Danone também incorporou a agricultura regenerativa ao centro de sua estratégia para reduzir emissões e fortalecer a resiliência da cadeia de produção de leite.
Do laboratório ao campo
A ideia de regenerar o solo não surgiu do nada. No Brasil, ela é resultado de décadas de evolução tecnológica na agricultura.
Segundo a especialista da Embrapa, a transformação começou ainda nos anos 1970, quando a ciência agrícola brasileira conseguiu tornar produtivos os solos tropicais, historicamente considerados ácidos e pobres.
Depois vieram novos avanços, como a adaptação de culturas temperadas ao clima tropical e o desenvolvimento de sistemas de produção mais eficientes.
“Muito do que hoje se chama de agricultura regenerativa é algo que o Brasil já faz há muito tempo”, destaca.
Nas últimas décadas, o foco da pesquisa agrícola passou a incorporar também a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
“O conceito fala de um olhar holístico sobre a saúde do solo: não apenas como uma superfície de produção, mas como um sistema vivo que precisa maximizar biodiversidade, carbono e conservação da água”, explica Ana.
Entre as práticas que integram esse modelo estão o plantio direto, a rotação de culturas, o uso de bioinsumos e sistemas integrados de produção, como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa evolução é a fixação biológica de nitrogênio, tecnologia desenvolvida pela Embrapa que permite substituir fertilizantes químicos.
Hoje, a prática está presente em mais de 40 milhões de hectares de soja no Brasil, gerando uma economia estimada em mais de US$ 20 bilhões por ano para os produtores e evitando cerca de 200 milhões de toneladas de emissões de CO₂ equivalente.
Outro modelo que ganha escala é a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), já adotado em cerca de 17,4 milhões de hectares de fazendas no Brasil .
Estudos conduzidos no maior experimento desse tipo no país mostram que o balanço líquido de emissões de gases de efeito estufa nesses sistemas pode ser negativo. Ou seja, o sequestro de carbono supera o impacto emitido.
Os custos do sistema alimentar
O avanço dessas práticas também responde a desafios estruturais do sistema alimentar global.
Segundo um relatório da consultoria Systemic, os custos ocultos associados às emissões de gases de efeito estufa, perda de biodiversidade e desigualdades em saúde ultrapassam US$ 10 trilhões por ano no mundo.
No Brasil, esses impactos são estimados em cerca de US$ 500 bilhões anuais. Ao mesmo tempo, o país ocupa uma posição estratégica na agenda: concentra até 20% da biodiversidade mundial e cerca de 30% das espécies vegetais comestíveis do planeta.
Apesar disso, a produção e o consumo global de alimentos seguem concentrados em poucas culturas. Essa tendência à chamada monotonia alimentar favorece sistemas agrícolas mais homogêneos, mais suscetíveis a eventos climáticos extremos e mais dependentes de agroquímicos.
Uma transformação consistente para sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes poderia reduzir mais de US$ 200 bilhões por ano até 2050, aponta o estudo.
Quando regenerar vira estratégia de negócio
Se a regeneração começa no solo, ela também passa necessariamente pelas empresas que compram matérias-primas agrícolas.
Na PepsiCo, a agricultura regenerativa faz parte da estratégia global PepsiCo Positive, que busca reduzir emissões e fortalecer a resiliência da cadeia de suprimentos. "A agenda é antes de tudo, uma estratégia de gestão de risco climático", reforça Isabela.
Globalmente, a empresa estabeleceu a meta de disseminar práticas regenerativas em cerca de 4 milhões de hectares até 2030. Em 2024, aproximadamente 1,4 milhão de hectares adotaram as práticas.
Segundo a companhia, apenas no último ano a implementação das técnicas contribuiu para a redução de 1,6 milhão de toneladas de emissões de gases de efeito estufa na cadeia agrícola.
No Brasil, o avanço também é significativo. Hoje, a maioria dos fornecedores de batata da PepsiCo já aplica ao menos duas práticas regenerativas, como rotação de culturas, uso de plantas de cobertura e bioinsumos.
“Solos mais saudáveis capturam carbono, reduzem impacto e se tornam aliados importantes na transição para uma economia de baixo carbono”, afirma a executiva da companhia.
A empresa também aposta em tecnologia para ampliar a eficiência no campo. Sensores, drones e plataformas de agricultura de precisão ajudam a monitorar lavouras e otimizar o uso de água e insumos.
Um estudo conduzido com o Instituto Federal Goiano, envolvendo seis produtores de batata e mais de 1.700 hectares, mostrou aumento de até 22% na produtividade e redução de até 33% em doenças do solo.
“O retorno financeiro aparece diretamente na produtividade e na resiliência", diz Isabela.
Regeneração na cadeia do leite
No setor de laticínios, a estratégia também avança. A Danone incorporou práticas regenerativas à produção de leite por meio da iniciativa Jornada Flora, que apoia produtores na transição para modelos mais sustentáveis.
“A agricultura regenerativa é a base da nossa estratégia”, afirma à EXAME, Taísa Costa, gerente de Sustentabilidade da companhia no Brasil.
O programa já apoia mais de 130 fazendas, com capacitação técnica, incentivo e iniciativas voltadas ao bem-estar animal.
A empresa também estabeleceu metas climáticas alinhadas à iniciativa Science Based Targets (SBTi), incluindo a redução de 30% das emissões absolutas de metano provenientes do leite fresco utilizado em seus produtos até 2030.
Entre 2020 e 2024, os resultados da cadeia brasileira já mostram avanços: redução de 47% nas emissões de CO₂ e queda de 42% nas emissões de metano.
“Produzir alimentos de forma sustentável exige ir além da simples redução de danos — é preciso recuperar os ecossistemas", diz a executiva da Danone.
Além do impacto ambiental, a transição também trouxe ganhos econômicos para os produtores.
Dados do programa indicam aumento de 59% na margem de lucro das fazendas, crescimento de 22% na renda real e 17,6% mais produção de leite por vaca.
Para a empresa, regenerar o solo e fortalecer o sistema produtivo é parte da própria sustentabilidade do negócio.
Quem paga a transição climática no agro?
Se regenerar o solo virou estratégia para multinacionais de alimentos, a transição no campo ainda depende de um fator central: financiamento.
Segundo Ana Luer, da Embrapa, a adoção de práticas regenerativas exige investimento inicial e mecanismos que reduzam o risco para quem produz. “O produtor que está no vermelho não vai para o verde”, afirma a pesquisadora.
Por isso, empresas e instituições financeiras começam a testar novos modelos de incentivo para acelerar a transição no campo, combinando crédito, assistência técnica e contratos de longo prazo.
O maior exemplo atual é o Leilão do Ecoinvest, iniciativa lançada pelo governo federal para atrair capital internacional e ampliar o crédito destinado à recuperação de áreas degradadas e à adoção de sistemas produtivos mais sustentáveis.
Na PepsiCo, o incentivo financeiro faz parte da estratégia de expansão da agricultura regenerativa. Segundo Isabela, a empresa estruturou um modelo baseado em parceria com agricultores.
“Sabemos que o principal desafio da transição para sistemas produtivos mais sustentáveis é financeiro”, afirma.
A gigante de alimentos tem implementado modelos que combinam pagamento por prática e pagamento por resultados, oferecendo apoio inicial para a adoção de boas práticas e bônus quando metas ambientais são atingidas.
“Compartilhar custos, riscos e benefícios com os agricultores é essencial para dar escala ao modelo de regeneração”, diz a executiva.
A Danone também aposta em instrumentos financeiros. Em 2025, lançou um programa de crédito em parceria com o Banco do Brasil no valor de R$ 100 milhões, com condições especiais para produtores de leite dentro do Plano Safra.
Para a gerente de sustentabilidade da companhia no Brasil, a transição precisa gerar ganhos econômicos para quem está na linha de frente no campo.
“A agricultura regenerativa traz retorno financeiro direto ao produtor por meio do aumento de eficiência”, destaca Taísa.
À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e cadeias agrícolas enfrentam maior instabilidade, financiar a regeneração do solo pode se tornar tão importante quanto desenvolver novas tecnologias.
Para o sistema alimentar global, a agenda começa a se consolidar: regenerar o solo deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou também a ser uma estratégia econômica.
Para multinacionais de alimentos, é o centro de tudo para garantir produtividade, segurança de abastecimento e competitividade em um sistema alimentar cada vez mais pressionado pelo clima.
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