Como a reprodução entre parentes ajudou na extinção dos neandertais
Os neandertais dominaram grande parte da Eurásia entre cerca de 400 mil e 45 mil anos atrás. Eram caçadores habilidosos, produziam ferramentas sofisticadas de pedra e confeccionavam roupas com peles de animais. Ainda assim, sua existência esteve longe de ser estável. Dois novos estudos mostram que esses grupos viviam em populações pequenas, dispersas e frequentemente isoladas, o que os colocou em risco constante de extinção ao longo de centenas de milhares de anos.
As pesquisas foram publicadas nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e reúnem dados de DNA antigo extraído de fósseis extremamente pequenos, alguns com apenas alguns centímetros. Os trabalhos contam com a participação de cientistas de instituições como a Universidade Estadual da Califórnia em Northridge, a Universidade de Yale e a Universidade de Tübingen, além de contribuições de pesquisadores de centros como o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva. Segundo a paleoantropóloga Hélène Rougier, uma das autoras, os avanços na genômica estão permitindo que fragmentos mínimos revelem informações detalhadas sobre populações antigas.
Espécie não se "misturava" com outros grupos
Um dos estudos analisou o genoma de um fragmento de osso encontrado na Caverna Denisova, na Sibéria, local onde neandertais e denisovanos viveram há mais de 100 mil anos. A comparação com outros genomas mostrou que essas populações acumulavam diferenças genéticas mínimas. Isso é um sinal de endogamia, ou seja, reprodução entre parentes próximos, algo comum em grupos muito pequenos. O geneticista Diyendo Massilani, da Universidade de Yale, explica que essas populações podiam ter apenas algumas dezenas de indivíduos, especialmente nas regiões mais extremas do território ocupado pela espécie.
Essa estrutura populacional ajuda a explicar por que os neandertais apresentavam baixa diversidade genética. De acordo com Joshua Akey, geneticista da Universidade de Princeton, o número total de indivíduos reprodutores pode ter sido de apenas alguns milhares em toda a Eurásia. Espalhados por um território enorme e com pouco contato entre si, esses grupos evoluíam de forma isolada e acumulavam mutações diferentes.
Apesar das expectativas, eles sobreviveram
Mesmo com esse cenário desfavorável, os neandertais sobreviveram por quase 400 mil anos. Os pesquisadores sugerem que isso pode ter sido possível porque estavam bem adaptados aos ambientes em que viviam. Segundo Massilani, enquanto o ambiente permanecia estável, a baixa diversidade genética não necessariamente impedia a sobrevivência das populações.
O segundo estudo analisou a presença dos neandertais na Europa ao longo dos últimos 130 mil anos, combinando dados arqueológicos com DNA mitocondrial de dezenas de indivíduos. Os resultados mostram que, apesar da ampla distribuição geográfica, o chamado “tamanho efetivo da população” permaneceu sempre baixo. O paleogeneticista Cosimo Posth, da Universidade de Tübingen, aponta que a limitação de recursos pode ter impedido a formação de grupos maiores.
População colapsou na era glacial
Um dos momentos mais críticos ocorreu entre 75 mil e 65 mil anos atrás, durante uma era glacial intensa. Nesse período, há evidências de uma forte redução no número de sítios arqueológicos, indicando um colapso populacional. Parte dos neandertais encontrou refúgio no sudoeste da Europa, especialmente em regiões do sul da França, enquanto outras populações desapareceram.
Após o fim desse período glacial, os grupos sobreviventes voltaram a se expandir pela Europa e partes da Ásia. No entanto, a diversidade genética já havia sido drasticamente reduzida. Segundo Posth, todas as linhagens anteriores praticamente desapareceram, restando apenas uma única linhagem dominante.
Fim da espécie
O declínio final aconteceu há cerca de 45 mil anos, quando mudanças climáticas rápidas coincidiram com a chegada dos humanos modernos à Europa. De acordo com a geneticista Qiaomei Fu, da Academia Chinesa de Ciências, esses fatores combinados foram especialmente difíceis para populações pequenas e com pouca diversidade genética. Em poucos milhares de anos, o número de neandertais caiu drasticamente até desaparecer por completo, por volta de 42 mil anos atrás.
Para os cientistas, a trajetória dos neandertais também ajuda a entender a história da nossa própria espécie. Segundo Hugo Zeberg, geneticista do Instituto Max Planck, comparar humanos modernos, neandertais e denisovanos funciona quase como um experimento natural da evolução.
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