Como a Veja construiu uma cadeia 100% brasileira para fazer tênis e faturar R$ 1,79 bilhão

Por Guilherme Santiago 30 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como a Veja construiu uma cadeia 100% brasileira para fazer tênis e faturar R$ 1,79 bilhão

Antes das nove da manhã, Nilva da Cunha Lima já percorreu boa parte da estrada de seringa. Ela sai cedo, entra na floresta e faz cortes no tronco das árvores para extrair o látex, que escorre até pequenos recipientes presos à casca. “Com oito anos, eu já andava nessas estradas com a minha mãe”, conta. Depois, ela volta para casa, passa o café e se prepara para retornar à mata, onde ainda vai recolher o material que começou a escorrer horas antes.

É dessa rotina diária que sai a borracha usada nos tênis da Veja, marca criada em 2004 e que hoje é vendida em mais de 100 países com um faturamento que ultrapassou os 280 milhões de euros em 2024 – cerca de 1,79 bilhão de reais.

Fundada pelos franceses Sébastien Kopp e François-Ghislain Morillion, a marca surgiu depois de testemunharem as condições de trabalho precárias em fábricas na Ásia, África e América do Sul. A decisão, então, foi fazer diferente.

A dupla resolveu estruturar uma cadeia própria, compra direta de produtores e menos intermediários. E escolheram o Brasil para instalar a produção.

Algodão orgânico cultivado no Ceará abastece a produção dos tecidos (Divulgação)

Hoje, mais de 3,5 milhões de pares de tênis são produzidos por ano. Todos no Brasil. A borracha vem da Amazônia, onde famílias extrativistas com as de Nilva produzem o material de forma sustentável. No nordeste, agricultores do Ceará cultivam algodão orgânico. O couro vem do Rio Grande do Sul, em uma produção que garante menos uso de químicos. Mais recentemente, as garrafas PET, que dão vida aos forros de poliéster dos tênis, vem de uma rede própria de catadores do Sul e Sudoeste de Minas Gerais e são feitas sem uso de água.

Destrinchando a cadeia produtiva

A partir do momento em que a borracha sai da floresta, o processo deixa de depender de uma única lógica de produção e passa a exigir coordenação entre etapas que funcionam em ritmos diferentes, com variáveis que nem sempre são previsíveis. “Não é uma cadeia simples de organizar”, afirma Luciana Batista Pereira, responsável por coordenar todas essas etapas de produção.

O material coletado por Nilva e outras famílias segue para cooperativas locais, onde passa por um primeiro tratamento antes de ser integrado à produção industrial. É nesse ponto que a borracha começa a se aproximar do produto final, mas ainda distante da forma que o consumidor reconhece.

Seringueiras na floresta amazônica são a base da matéria-prima que integra a cadeia produtiva da marca (Divulgação)

Em paralelo, o algodão percorre outro caminho. Produzido no Nordeste, ele passa por fiação e tecelagem até chegar ao tecido usado nos modelos. O couro, por sua vez, exige uma cadeia própria e um nível maior de controle.

Essas frentes não se organizam de maneira linear, mas avançam em paralelo e precisam se encontrar no momento certo. Luciana descreve esse arranjo como um dos principais desafios da operação. “Não é uma cadeia que você liga e ela simplesmente roda”, diz. “É um tipo de produção que exige acompanhamento constante, porque qualquer mudança em uma ponta impacta o resto.”

Bancar uma escolha

Manter essa estrutura ao longo do tempo não foi uma consequência do crescimento, mas uma decisão. Desde o início, a Veja optou por construir uma cadeia própria, mesmo sabendo que isso significaria operar com mais etapas, mais interlocutores e menos margem para simplificação. Para Luciana, a empresa cresceu dentro desse modelo – e não apesar dele.

“Seria muito mais fácil fazer diferente”, diz ela. “Seria mais simples comprar tudo pronto, de um mesmo distribuidor, trabalhar com fornecedores maiores, reduzir o número de etapas. Mas não é isso que a gente quer fazer.”

A escolha tem implicações diretas sobre o tamanho da empresa. Diferente de marcas que crescem com base em escala e terceirização ampla, a Veja condiciona sua expansão à capacidade de acompanhar a própria cadeia.

O crescimento, ainda assim, é consistente. A produção saiu de cerca de 5 mil pares em 2005 para 3,5 milhões em 2024. Para Luciana, no entanto, o ponto central não está no volume, mas na forma como ele é construído.

“Dá mais trabalho, sem dúvida. Mas é muito mais interessante. Você entende o que está acontecendo, conhece as pessoas, acompanha o processo de verdade. Isso muda completamente a relação com o produto.”

Loja da Veja na rua Oscar Freire, em São Paulo (Divulgação)

Mostrar para o mundo

Fato curioso é que Veja no Brasil operava sob o nome Vert. Apesar de semelhante, o significado no mundo inteiro era outro: convidar o consumidor a enxergar para além do tênis e o que há por trás de sua produção. “O foco era construir a cadeia. Agora existe um esforço de mostrar como ela funciona.”

Esse movimento inclui o lançamento de um documentário que percorre diferentes regiões do país, acompanhando etapas da produção que normalmente não aparecem para o consumidor final. A proposta é reduzir a distância entre quem está na origem e quem encontra o produto pronto.

Para Nilva, essa visibilidade tem um significado maior. “As pessoas precisam saber que tem trabalho ali”, diz. “Quando falam da floresta, muita gente acha que não tem ninguém. Mas tem gente vivendo disso, trabalhando todo dia.”

A expectativa da empresa é que o documentário circule nos principais mercados onde a marca está presente e ajude a dar contexto ao produto. Não como uma narrativa paralela, mas como parte do que ele é. Luciana resume o momento como uma mudança de postura. “A gente continua fazendo do mesmo jeito, mas agora também quer mostrar o que isso significa”, diz.

Após estréia em Paris, os filmes chegam em São Paulo no dia 07 de maio, em uma sessão única e aberta ao público no Theatro São Pedro, às 18h, seguida de um painel com os personagens dos curtas, o diretor Christophe Abric e os fundadores da VEJA François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp.

Acesse o link de inscrição para o evento aqui.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: