Como as pousadas tradicionais se reinventaram na era dos Airbnbs
O Airbnb foi fundado em 2007 com o nome Airbed & Breakfast e, desde então, incorporou parte do vocabulário das pousadas tradicionais americanas sem necessariamente oferecer o que o nome sugere. Duas décadas depois, uma parcela dos viajantes usa "Airbnb" para se referir a qualquer tipo de hospedagem alternativa, independentemente do formato.
Para os proprietários de bed-and-breakfasts, hospedagens de gestão familiar que incluem quarto e café da manhã no valor da diária e geralmente funcionam em casas históricas com poucos quartos, o deslocamento de linguagem tem consequências práticas: hóspedes chegam sem saber que vão compartilhar o espaço com outros viajantes e com o próprio anfitrião.
O negócio se expandiu. Em regiões turísticas dos Estados Unidos, o crescimento acelerado dos aluguéis por temporada na última década criou uma pressão direta sobre as pousadas tradicionais. Em determinados mercados, centenas de imóveis listados como aluguéis de curta temporada operam dentro de um raio de poucos quilômetros. O desafio do setor é convencer viajantes de que o modelo oferece algo diferente de alugar uma casa inteira, frequentemente pelo mesmo preço ou menos.
Serviço como diferencial
O mercado global de bed-and-breakfasts movimentou cerca de US$ 33,75 bilhões (R$ 191 bilhões) em 2026, segundo a Mordor Intelligence, com projeção de crescimento anual de 4,95% até 2031. Pousadas boutique e de patrimônio histórico lideraram o segmento em 2025, com 31,62% da receita total.
O crescimento ocorre num ambiente em que o argumento de preço, antes favorável aos aluguéis por temporada, perdeu força. O preço médio de um aluguel de curta temporada nos Estados Unidos chegou a US$ 258,91 (R$ 1.465) por noite em maio de 2026, segundo a AirDNA, antes de qualquer taxa de limpeza ou administração, que costumam aparecer apenas no checkout.
A resposta dos B&Bs ao avanço dos aluguéis por temporada passou por mudanças operacionais concretas. Os rígidos horários de check-in, antes fixados entre 16h e 18h, praticamente desapareceram com a adoção do auto check-in. A flexibilidade, que era uma vantagem dos aluguéis por temporada, passou a estar disponível também nas pousadas.
A pesquisa da Mordor Intelligence indica que 54% dos viajantes que se hospedaram em B&Bs recentemente afirmaram que a imersão local importa mais do que a classificação por estrelas do estabelecimento. Em média, hóspedes americanos contrataram 4,7 experiências adicionais durante estadias em pousadas em 2023, número bem acima dos padrões pré-pandemia.
Os diferenciais de serviço foram ampliados. Máquinas de espresso nos quartos, cardápios de travesseiros, degustações de vinho à tarde e café da manhã feito na hora se tornaram parte da proposta de valor de muitos estabelecimentos. Em pousadas boutique, a inclusão de todos os custos no valor da diária passou a ser um argumento de venda frequente, já que aluguéis por temporada adicionam taxas de limpeza e administração na etapa final da reserva.
Do estilo antiquado ao design contemporâneo
O design contemporâneo virou um dos principais argumentos de venda das pousadas tradicionais frente aos aluguéis por temporada (Jonathan Borba/Pexels)
Se o serviço é um diferencial consolidado, a identidade visual virou outra frente de renovação. Durante anos, os B&Bs americanos carregaram uma imagem de decoração excessiva, mobília antiquada e enfeites de crochê. Parte expressiva do setor abandonou esse padrão nas últimas temporadas.
Quartos com papéis de parede de impacto, linho crisp, peças contemporâneas combinadas com antiguidades selecionadas e materiais produzidos por artesãos locais passaram a definir o estilo de pousadas que apostam no reposicionamento. Os preços acompanham o espectro: a variedade de tamanhos de quarto típica de propriedades históricas permite que muitos B&Bs ofereçam desde opções mais acessíveis até acomodações que chegam a quase US$ 500 (R$ 2.832) por noite.
A pressão regulatória sobre os aluguéis por temporada também favoreceu o setor. Cidades como Nova York, Barcelona e Singapura endureceram as regras para hospedagens de curta duração nos últimos anos. Em Nova York, a aplicação da Local Law 18 reduziu os anúncios ativos do Airbnb em cerca de 70%, de mais de 22 mil para menos de 3 mil listagens.
Em Barcelona, a prefeitura avançou para eliminar licenças de curta temporada no centro até 2026. Nesse contexto, pousadas com operação regularizada ganharam visibilidade em mercados antes dominados pelos aluguéis por plataforma.
Listar no Airbnb virou estratégia
A presença massiva do Airbnb como plataforma de busca acabou convencendo muitas pousadas a cadastrar seus quartos no próprio aplicativo. Em setembro de 2025, o Airbnb lançou o Boutique Retreats Program, voltado a pousadas de patrimônio histórico e com identidade de design, e passou a oferecer serviços contratáveis durante a hospedagem, como massagens e catering. Em nota à imprensa, a empresa afirmou que vê os B&Bs como parceiros, não como concorrentes.
A mudança de nome de algumas associações do setor ilustra como o reposicionamento de marca se tornou central. A California Association of Bed & Breakfast Inns, fundada em 1991, passou por dois rebrandings e opera hoje como Boutique Hotels of California. A justificativa é objetiva: viajantes buscam mais pelo termo "hotel boutique" do que por "bed-and-breakfast" nas plataformas digitais.
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