Como cuidar dessa geração? Negócio criado pós-pandemia cresce com educação parental
A saúde mental de crianças e adolescentes se tornou um dos maiores desafios desta geração, não só no Brasil, mas no mundo. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que 1 em cada 7 adolescentes no mundo vive com algum transtorno mental, sendo ansiedade e depressão os mais comuns.
E a pandemia agravou esse cenário: os casos de ansiedade e depressão cresceram mais de 25% globalmente apenas no primeiro ano da crise sanitária. Entre jovens, os impactos são ainda mais preocupantes. O suicídio já aparece como uma das principais causas de morte nessa faixa etária, sendo a terceira entre adolescentes de 15 a 19 anos, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde.
No Brasil, o quadro também chama atenção. O país lidera a prevalência de depressão na América Latina e registra altos índices de ansiedade, os maiores do mundo, de acordo com a OMS. Além disso, segundo a Unicef, cerca de 1 em cada 6 adolescentes brasileiros apresenta algum transtorno mental, com maior risco de automutilação, depressão e suicídio.
Diante desse cenário, cresce a demanda por soluções que ajudem famílias a lidar com o comportamento, as emoções e o desenvolvimento das novas gerações, e é exatamente nesse espaço que surgem novos negócios, como o Instituto Eduque Bem, empresa criada por duas mães em 2022.
Um negócio que nasce da dor, e vira escala
Foi no meio da pandemia, período marcado pelo aumento do estresse familiar e do adoecimento emocional, que Michelle Bottrel e Sarah Mendonça decidiram transformar experiências pessoais em um modelo de negócio.
As duas empreendedoras de Minas Gerais chegaram à educação parental por caminhos semelhantes: desafios reais na maternidade.
Sarah, formada em artes cênicas e psicopedagogia, começou a estudar o tema após enfrentar dificuldades na criação do filho, que é neurodivergente. A partir de episódios de estresse e falta de ferramentas práticas para lidar com a situação, mergulhou em formações sobre comportamento infantil, sono, regulação emocional e dinâmica familiar.
Michelle, bacharel em psicologia e com atuação internacional, passou por um processo parecido ao retornar ao trabalho e perceber mudanças no comportamento do filho. O episódio a levou a aprofundar os estudos em parentalidade e a construir uma audiência digital voltada a pais.
O encontro das duas, que são de Minas Gerais, mas que se conhecerem e criaram o negócio online (com Michele morando no Canadá e Sara no Brasil) deu origem a um negócio de educação que tem como objetivo escalar o impacto.
“Percebemos que não seria possível transformar a realidade das famílias atendendo uma a uma. Era preciso formar profissionais para multiplicar esse conhecimento”, afirma Michelle.
Veja também: A NR-1 e a saúde mental estarão no centro das atenções das empresas em 2026
Da formação ao mercado: o modelo do Instituto Eduque Bem
Assim nasceu o Instituto Eduque Bem, em 2022, uma escola de formação profissional focada em neuroeducação parental, que hoje atua em três frentes principais:
O diferencial do modelo está na base científica: todo o conteúdo é estruturado a partir da neurociência, explicando como o cérebro da criança funciona, e por que determinados comportamentos acontecem.
“Não trabalhamos com achismos. Traduzimos ciência para que o profissional consiga aplicar e explicar para os pais”, dize Sarah.
O negócio também aposta em um modelo escalável: ao formar profissionais, amplia o alcance e cria uma rede de atuação indireta com famílias.
Hoje, segundo as fundadoras, o instituto já formou cerca de 5 mil profissionais e impactou mais de 30 mil famílias.
Veja também: Da saúde mental à aula de teatro: a estratégia da Vivo para formar líderes e reter talentos
Internacionalização e evento nos Estados Unidos
Agora, a empresa entra em uma nova fase: a internacionalização.
Entre os dias 23 e 29 de maio, o instituto realiza sua primeira imersão internacional em Orlando, nos Estados Unidos, reunindo cerca de 30 profissionais do mercado materno-infantil.
A proposta é oferecer uma experiência que vai além da formação tradicional, combinando:
A escolha dos Estados Unidos está ligada à origem da metodologia que inspirou o projeto. Após participarem da formação internacional com bolsa 100% baseada na metodologia de Conscious Discipline, por meio do curso “Do nascimento aos 5 anos” (em inglês: Birth to Five Years), em Orlando, as empreendedoras decidiram levar a experiência para suas alunas, mantendo o aprendizado no contexto original.
As empresárias Michelle Bottrel e Sarah Mendonça vão levar na imersão internacional nos Estados Unidos a experiência que tiveram no curso “Do nascimento aos 5 anos” (em inglês: Birth to Five Years), realizado em Orlando (Instituto Eduque Bem/Divulgação)
Quem são as participantes e o que acontece na imersão nos EUA
A primeira edição internacional do evento será realizada com um grupo intencionalmente reduzido: cerca de 30 mulheres, em sua maioria profissionais do mercado materno-infantil, como psicólogas, pedagogas, psicopedagogas e educadoras que já atuam diretamente com famílias.
A escolha por um grupo menor, segundo as fundadoras, é estratégica. A ideia é garantir acompanhamento próximo e aprofundar a experiência individual de cada participante.
“Não queríamos um evento massivo. O objetivo é transformar a atuação dessas profissionais, não apenas transmitir conteúdo”, afirma Michelle.
A programação combina três pilares principais:
Além disso, o evento marcará o lançamento do livro “Disciplina consciente, neurociência e regulação emocional na infância e adolescência” escrito pelas duas fundadoras, que será entregue às participantes durante a abertura.
“É um livro grande, só com exercícios, para trabalhar com os pais. Ficou muito maravilhoso”, diz Sarah.
Veja também: No Dia Mundial da Saúde Mental, essa farmacêutica dá folga para todos os funcionários
Um mercado que cresce e passa por gerações
O avanço do Instituto Eduque Bem, que começou do zero e no último ano faturou R$ 3 milhões, reflete uma mudança estrutural: a saúde mental deixou de ser um tema restrito à medicina e passou a influenciar educação, trabalho e até decisões de consumo.
Com famílias mais pressionadas, crianças expostas a novos estímulos, especialmente digitais, e pais em busca de orientação, a educação parental se consolida como um novo nicho de mercado.
E, ao unir ciência, experiência pessoal e modelo escalável, negócios como esse mostram que, no centro da crise da saúde mental, também surge uma nova economia: a que busca ensinar adultos a cuidar, melhor, de si e da próxima geração.
“O nosso maior segredo é a disciplina consciente. A gente aplica no nosso negócio, na vida pessoal e nos relacionamentos a intenção no que você faz para chegar ao resultado. E vivemos isso de dentro para fora, aquilo que a gente ensina”, diz Sarah.
Veja também: Como empreender com sucesso nos EUA, no podcast "De frente com CEO":
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: