Como é se hospedar no resort que receberá o G7
Há uma cena que se repete toda vez que um hóspede abre pela primeira vez a porta do seu quarto no Hôtel Royal, em Evian-les-Bains: uma pausa involuntária diante da janela. Do outro lado do vidro, o Lago Leman se estende até a margem suíça, onde as luzes de Lausanne começam a piscar com o cair da tarde. É o tipo de vista que desacelera o pensamento, e talvez seja exatamente por isso que, na próxima semana, os líderes das maiores economias do mundo vão se instalar lá para a cúpula do G7.
A localização do Evian Resort, complexo que reúne hotéis, spa, campo de golfe e uma série de outras formas de lazer às margens do Lago Leman, não é exatamente um segredo. O lugar já acolheu, em 2003, a cúpula do G8. Mas a confirmação de que presidentes e primeiros-ministros voltarão a cruzar seus portões relança os holofotes sobre um destino que, com mais de um século de história, segue em alta na região.
Hôtel Royal: piscinas aquecidas na propriedade com vista para o lago Leman (Edouard Guibaud/Divulgação)
Um palácio construído para um rei que nunca chegou
A história do Hôtel Royal começa com uma ausência ilustre. O hotel foi inaugurado em 1909 em homenagem ao rei Eduardo VII da Inglaterra, que seria um dos primeiros hóspedes do estabelecimento. O monarca morreu em 1910 sem ter cumprido a promessa de visitar o lugar construído para ele.
Ao longo do século seguinte, o Hôtel Royal recebeu a Rainha Mãe da Inglaterra, o poeta Igor Stravinsky, a atriz Greta Garbo, Ray Charles, Phil Collins, Kylie Minogue, Hugh Grant, Isabelle Adjani, além de incontáveis chefes de Estado, príncipes europeus e do Oriente Médio. A lista é um resumo da cultura e do poder do século XX, e continua a ser escrita.
Em 2015, o hotel passou por uma reforma completa, que preservou e realçou os afrescos do século XX pintados por Gustave Jaulmes e Adrien Karbowsky, ao mesmo tempo em que introduziu toques contemporâneos que rejuvenesceram os espaços sem apagar sua memória. O resultado é o luxo silencioso que os franceses dominam desde antes de o termo ter se tornado uma tendência.
Hôtel Royal: suíte com vista para o lago Leman (VLeroux/Divulgação)
O hotel conta com 118 quartos e 32 suítes, incluindo cinco suítes temáticas personalizadas. Entre elas, a Suíte David Leadbetter, dedicada ao famoso treinador de golfe; a Suíte Esa-Pekka Salonen, em homenagem ao compositor e maestro; e a Suíte Amundi Evian Championship, dedicada às ícones do golfe feminino. O sexto andar abriga sete suítes de alto padrão com vista espetacular para o lago e os Alpes. A mais exclusiva, a Royal Suite, tem 207 metros quadrados e 60 metros quadrados de terraço privativo. Os quartos são amplos, com iluminação suave, silêncio absoluto e banheiros banhados em luz natural.
A estrela Michelin que começa com um espelho
Jantar no Les Fresques, o restaurante estrelado do Hôtel Royal, é uma experiência que começa antes mesmo de a comida chegar à mesa. O cardápio é entregue com uma capa com um convite, já que o espelho acoplado convoca o olhar para o teto. Ali estão as pinturas de Gustave Jaulmes, os afrescos que deram nome ao restaurante e que são, eles próprios, uma obra de arte listada como patrimônio histórico da França.
Depois de admirar o que está acima da cabeça, o olhar inevitavelmente vai para além das janelas: o Lago Leman ao entardecer, com as luzes de Lausanne surgindo na margem oposta.
Les Fresques: restaurante com uma estrela Michelin desde 2018 (Nicolas Jacquemin/Divulgação)
O Les Fresques detém uma estrela Michelin desde 2018. O restaurante recebeu recentemente um novo chef executivo: Yohan Fatela, nascido em Grenoble e formado em alguns dos melhores endereços da gastronomia mundial. Os ingredientes vêm de fornecedores locais, com peixes do lago, queijos da região e carne bovina de Saboia. Quando não encontra o que procura nos mercados, o chef vai diretamente ao jardim orgânico do hotel, um espaço de 3.000 metros quadrados onde ervas aromáticas e vegetais são cultivados com técnicas de permacultura.
O menu segue o ritmo das estações e fala a linguagem da montanha e da água, os dois elementos que definem Evian. No final do jantar, um carrinho de queijos se aproxima da mesa: uma seleção cuidadosa de produtos locais que transforma a sobremesa em um exercício de terroir.
A água que viaja 15 anos antes de chegar à pele
A cidade batiza o nome da água, reconhecida mundialmente por suas propriedades minerais. Evian-les-Bains existe como destino porque, em 1789, o Conde Laizer descobriu as propriedades terapêuticas da água mineral natural Evian, que brota nas encostas do platô de Gavot. A água demora 15 anos para percorrer os Alpes e emergir na superfície, filtrada por camadas de argila e enriquecida com minerais ao longo de uma jornada subterrânea. Esse percurso é a metáfora central do evianSPA, o spa do Hôtel Royal.
evianSPA: eleito melhor retiro de bem-estar da França em 2024 e 2025 (ggardette /Divulgação)
São 1.700 metros quadrados de área dedicada ao bem-estar, desde relaxamento profundo à desintoxicação, da hidratação celular ao rejuvenescimento. O spa foi eleito melhor retiro de bem-estar da França em 2024 e 2025 e conta com 22 salas de tratamento, circuito hídrico com vista para as montanhas, sauna, sala de vapor, piscina fria, academia 24 horas e a icônica piscina aquecida ao ar livre.
O golfe como sala de reunião
Há um local não declarado pelo qual chefes de Estado gostam de se encontrar em lugares como Evian: o campo de golfe. O Evian Resort Golf Club, fundado em 1904, é um dos destinos de golfe mais emblemáticos do mundo. Com vistas para o Lago Leman e os picos alpinos, o clube abriga dois percursos: o Champions Course, de 18 buracos, e o Lake Course, de seis buracos, inaugurado em 2020.
Mas o golfe, para além da competição, funciona como uma espécie de diplomacia paralela. Há algo na natureza do jogo, as horas caminhando lado a lado, o ritmo lento, a conversa que nasce espontaneamente entre tacadas que dissolvem formalidades e abrem espaço para o tipo de entendimento que as salas de conferência raramente proporcionam. Não por acaso, presidentes e primeiros-ministros têm o hábito de calçar os sapatos de golfe quando precisam de uma conversa fora do protocolo. Em Evian, o campo está ali, exatamente para isso.
Na última semana, a pequena cidade já estava se preparando para a chegada dos chefes de estado. A partir de amanhã, 15, os líderes do G7 vão debater o futuro da economia global com o Lago Leman como pano de fundo. É o tipo de reunião que, dizem os que participaram de edições anteriores, tem resultados diferentes quando acontece longe dos palácios de governo e perto da natureza. Quem sabe se não é a água, com seus 15 anos de silêncio subterrâneo, que ajuda a clarear as ideias.
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