Como essa startup encontrou R$ 1,8 bilhão em fraudes e erros nos planos de saúde

Por Daniel Giussani 13 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como essa startup encontrou R$ 1,8 bilhão em fraudes e erros nos planos de saúde

Uma cirurgia simples pode esconder cobranças inesperadas. Em um procedimento de apendicite, por exemplo, pode aparecer na conta hospitalar uma manta térmica, item usado para manter a temperatura do paciente em cirurgias longas, e que, naquele caso específico, simplesmente não era necessário.

É esse tipo de inconsistência que a Arvo, startup brasileira de tecnologia em saúde, tenta identificar antes que o pagamento seja feito.

A empresa desenvolveu uma plataforma de auditoria de contas médicas baseada em inteligência artificial que analisa cobranças feitas por hospitais, clínicas e laboratórios às operadoras de planos de saúde. O objetivo é detectar erros, abusos ou fraudes nas faturas médicas antes que o dinheiro saia do caixa das operadoras.

Os resultados mais recentes mostram o tamanho do problema. Em 2025, a tecnologia da Arvo identificou 1,8 bilhão de reais em pagamentos indevidos no sistema de saúde suplementar. Desde 2022, a empresa já analisou 160 bilhões de reais em despesas médicas.

“O setor carrega um volume relevante de gastos que não precisariam existir. Estimativas apontam que cerca de 16% das despesas de saúde são indevidas, seja por erro, abuso ou fraude”, diz Fabrício Valadão, CEO e cofundador da Arvo.

A aposta da empresa agora é ampliar o uso da tecnologia entre operadoras de saúde — e, no longo prazo, levar a ferramenta também para outras partes do sistema, incluindo o setor público.

O problema bilionário

O sistema de saúde suplementar brasileiro movimenta cerca de 270 bilhões de reais por ano em despesas assistenciais. O setor atende 51 milhões de pessoas e convive com um desafio crescente: o aumento constante dos custos médicos.

Nos últimos anos, a pressão ficou evidente nos resultados financeiros. Segundo dados citados pela Arvo, a maioria das grandes operadoras tiveram prejuízo operacional em três dos últimos quatro anos, reflexo da combinação entre inflação médica, aumento da utilização de serviços e dificuldades na gestão de despesas.

Dentro dessa conta, um problema chama atenção: pagamentos indevidos.

Eles podem surgir de diferentes formas. Em alguns casos, um hospital cobra um item que não era necessário no procedimento. Em outros, um erro de faturamento inclui materiais extras ou procedimentos adicionais. Há também situações de abuso ou fraude.

Separar o que é legítimo do que não é virou um desafio operacional para as operadoras.

Isso acontece porque a análise dessas contas ainda é feita, em grande parte, manualmente.

“Hoje, esse processo depende de auditores analisando caso a caso. É um trabalho extremamente detalhado e complexo”, afirma Valadão.

Como a inteligência artificial analisa contas médicas

A proposta da Arvo é automatizar esse processo com inteligência artificial.

A plataforma funciona como uma espécie de auditor digital, analisando as transações médicas em duas etapas principais: antes da autorização do procedimento e depois que a conta médica é enviada para pagamento.

Para fazer isso, a empresa desenvolveu mais de 70 agentes de inteligência artificial capazes de examinar grandes volumes de dados e identificar padrões fora do esperado.

A análise funciona em duas frentes.

A primeira envolve modelagem de padrões clínicos e operacionais. Os algoritmos analisam características de cada atendimento — idade do paciente, diagnóstico, tipo de procedimento e histórico de casos semelhantes — para identificar se algum item cobrado foge do padrão esperado.

A segunda frente envolve interpretação de contratos entre operadoras e prestadores de saúde.

Esses contratos costumam ser complexos e cheios de exceções. Um determinado procedimento pode ter preços diferentes dependendo do porte cirúrgico, do tipo de sala utilizada ou da combinação com outros serviços.

Grande parte dos sistemas usados pelas operadoras não consegue lidar com essa complexidade.

A Arvo tenta resolver essa lacuna analisando as regras contratuais e verificando se a cobrança está de acordo com o que foi negociado.

Um exemplo prático de cobrança indevida

O exemplo da cirurgia de apendicite ajuda a ilustrar o problema.

A apendicectomia é um procedimento relativamente comum e costuma seguir um padrão clínico conhecido. Em alguns casos analisados pela Arvo, porém, apareciam itens na conta hospitalar que não faziam sentido para aquele tipo de cirurgia.

Um deles era a manta térmica, equipamento usado para manter a temperatura corporal do paciente em cirurgias mais longas.

Quando o sistema identifica esse tipo de inconsistência, ele sinaliza a cobrança para revisão antes do pagamento.

Segundo a empresa, a preocupação não é determinar se houve fraude ou erro. O foco é simplesmente evitar o pagamento indevido.

“A gente não está preocupado em encontrar um culpado. O objetivo é garantir que o pagamento seja feito de forma correta”, diz Valadão.

De onde veio a Arvo

A Arvo foi fundada por Fabrício Valadão e Rafael Tinoco, dois executivos com experiência no setor de saúde.

Valadão passou por empresas como a consultoria Bain & Company e pela multinacional Aon, onde trabalhou com projetos ligados a planos de saúde. Tinoco construiu carreira em tecnologia e saúde, com passagens por empresas como Amil, Gympass — hoje Wellhub, plataforma de benefícios corporativos — e Alice, operadora digital de planos de saúde.

Os dois tinham uma visão em comum: muitos dos problemas de custo da saúde no Brasil estavam ligados à falta de tecnologia nos processos administrativos.

Enquanto setores como o financeiro passaram por uma forte transformação digital, boa parte da gestão de contas médicas ainda depende de processos manuais.

A Arvo nasceu com a proposta de atacar justamente esse ponto.

Em vez de criar um novo plano de saúde ou uma rede de hospitais, os fundadores decidiram desenvolver tecnologia para ajudar operadoras a reduzir desperdícios.

Um mercado maior do que parece

Embora a maioria dos consumidores associe o mercado de planos de saúde a grandes empresas, o setor é mais fragmentado do que parece.

Existem cerca de 700 operadoras de planos de saúde no Brasil, muitas delas com atuação regional.

As cinco maiores concentram pouco menos de 35% do mercado, deixando espaço para centenas de operadoras de médio e pequeno porte.

Esse cenário amplia o potencial de crescimento para empresas de tecnologia voltadas ao setor. Além disso, o Brasil é um dos maiores mercados de saúde privada do mundo — atrás apenas dos Estados Unidos em alguns levantamentos.

A estratégia da Arvo agora é ampliar o alcance da tecnologia dentro do sistema de saúde.

Além das operadoras, a empresa avalia oportunidades de aplicação da plataforma em outros pontos da cadeia, como hospitais, clínicas e laboratórios.

Outro caminho possível é o setor público.

A lógica de auditoria de contas médicas, segundo a empresa, também poderia ajudar a reduzir desperdícios no sistema público de saúde. A oportunidade é grande.

Se parte dos 16% de despesas indevidas estimadas no setor pudesse ser eliminada, o impacto financeiro para operadoras e pacientes seria significativo — e poderia ajudar a aliviar a pressão de custos que hoje afeta todo o sistema.

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