Como esta empresa quer acabar com a evasão nas academias

Por Marina Semensato 19 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como esta empresa quer acabar com a evasão nas academias

A ideia surgiu dentro de uma academia. Não como conceito de negócio, mas a partir de uma observação cotidiana: o equipamento estava lá, o aluno também, mas a constância não. Luís Canevari via esse problema de perto na Corpus, a academia fundada pelo pai em São Paulo. Décadas depois, é a partir dessa mesma pergunta — como fazer as pessoas continuarem treinando — que o Grupo Trendx chega à FIBO Global Fitness 2026, em Colônia, para apresentar sua linha de equipamentos de cardio com biometria facial integrada.

A empresa não nasceu com essa ambição. Em 2010, Canevari voltou de uma viagem ao exterior com a percepção de que o mercado brasileiro de equipamentos fitness estava tecnologicamente atrasado. Ele trouxe a Keiser, americana reconhecida pelo uso de resistência pneumática — que usa ar comprimido em vez de pesos de ferro tradicionais—, com representação exclusiva para o Brasil.

A resistência foi imediata. "Na época, o mercado fitness era muito mais tradicional. Equipamentos mais pesados, pouca sofisticação tecnológica e uma visão muito centrada na máquina em si, não necessariamente no que ela entregava de resultado ou experiência", diz Canevari. "Foi um trabalho grande de educação e demonstração até que essa lógica fosse absorvida", disse com exclusividade à EXAME.

Da Keiser à RAE

A Keiser abriu portas. Com ela, a Trendx equipou centros de treinamento do Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Internacional, Bragantino e da seleção brasileira, além de redes como Bodytech e Companhia Athletica. Com o tempo, os clientes começaram a pedir mais do que bikes de alta performance. Queriam acessórios, ergômetros, soluções complementares. A Trendx respondeu com a RAE Fitness, marca própria criada em um momento em que o crossfit, em expansão no Brasil, tornava essa demanda mais visível.

A Goper veio depois, em 2022, para resolver um problema diferente. "Não adiantava ter bons equipamentos se o aluno não continuava treinando", diz Canevari. A marca foi criada com a proposta de usar a tecnologia para trazer constância para os treinos. A plataforma reúne mais de três mil aulas ao vivo e sob demanda, métricas de desempenho e, agora, reconhecimento facial integrado aos equipamentos de cardio.

A Corpus funcionou como laboratório ao longo desse processo. A academia do pai recebeu treinadores americanos e europeus trazidos pela Keiser e serviu de ambiente de teste para as soluções que o grupo desenvolveria depois. A dificuldade de manter alunos engajados foi o que ajudou a equipe a identificar o problema: cada etapa entre chegar e começar a treinar — escolher o equipamento, ajustar, buscar o treino do dia — é uma chance de desistir. "Qualquer barreira no fitness pode virar desistência", afirma o CEO.

Treino e LGPD

O reconhecimento facial elimina etapas. Quando o usuário se posiciona diante da máquina, o sistema o identifica, acessa seu histórico e carrega um treino adaptado ao seu perfil. "Só conseguimos personalizar se soubermos quem é o cliente, e precisamos saber de uma forma sem fricção, transparente e automática", diz Canevari. "Por isso o reconhecimento facial foi o método mais funcional."

Luís Canevari, CEO e fundador da Trendx, e Marília Canevari, Diretora Comercial da Trendx (Divulgação)

O ponto mais sensível é o dado. Reconhecimento facial envolve biometria, que a LGPD trata como informação protegida. A empresa diz que o dado pertence ao usuário: a academia o usa dentro da relação com o aluno, e a Goper fornece a tecnologia. Canevari compara o funcionamento ao da Netflix, em que a personalização depende de saber quem está do outro lado. "Não dá para falar de personalização sem falar de responsabilidade", afirma. Para o dono da academia, o ganho é de retenção — quanto menos passos entre chegar e treinar, maior a chance de o aluno voltar.

Estreia na Alemanha

O grupo tem mais de 15 anos de operação no Brasil e atende uma base heterogênea: academias independentes, grandes redes, centros de treinamento profissional, condomínios e clínicas. Segundo Canevari, essa diversidade é proposital e mostra que as soluções não dependem de um único tipo de negócio para funcionar. A Trendx não divulga faturamento, mas afirma ter crescido acima da média do setor.

A presença na FIBO é o primeiro movimento estruturado de internacionalização do grupo. A feira, realizada em Colônia há quatro décadas, é considerada o maior encontro global da indústria de fitness. "O principal fator foi maturidade. A gente passou por um ciclo importante de consolidação de portfólio, desenvolvimento tecnológico e clareza de posicionamento", diz Canevari. "Não faria sentido estar na FIBO apenas como presença institucional."

No estande alemão, a Trendx apresenta o ecossistema completo da Goper. Além da bike Pro Experience, que estreia com reconhecimento facial, estão a esteira Goper Pro Max, que já traz a mesma tecnologia, e outros três equipamentos de cardio: a Smart Bike, a esteira Runway e a esteira Personal Touch. A marca leva ainda a Smart Band, pulseira que monitora em tempo real os dados dos alunos em aulas coletivas e permite ao professor ajustar a intensidade do treino.

Linha cardio Goper Pro (Divulgação)

A meta declarada é impactar um milhão de pessoas pela prática de atividade física. Logo após a feira, a empresa começa a operar com um distribuidor na Espanha — sua primeira representação na Europa. Há negociações em curso para um segundo distribuidor na América Latina.

O movimento internacional é consequência do que o grupo construiu no Brasil em torno das três marcas. "Quando você constrói um ecossistema, com marcas que se complementam e uma camada tecnológica por trás, você deixa de competir só por preço e passa a competir por solução", diz Canevari.

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