Como está Goiânia hoje, após o acidente com Césio-137?
No último mês, a série Emergência Radioativa reascendeu o debate sobre o acidente com Césio 137 em Goiânia. A produção da Netflix é baseada na história real do caso, que aconteceu em 1987, e já é uma das mais assistidas de língua-não inglesa na plataforma.
A capital goiânia foi o centro das atenções do mundo em setembro daquele ano, especialmente após a explosão da usina nuclear de Chernobyl, que causou um gravíssimo aidente radioativo na Ucrânia em 1986. Hoje, 39 anos após o acidente, a cidade tenta equilibrar o desejo de seguir em frente bcom a necessidade vital de não esquecer as lições deixadas por 19 gramas de um pó azul brilhante e letal.
Protagonizada por Johnny Massaro, Emergência Radioativa reconstrói a corrida contra o tempo de médicos e cientistas para conter a "nuvem invisível" que afetou mais de 112 mil pessoas. A obra joga luz sobre os heróis anônimos e as vítimas que, até hoje, lutam por reconhecimento e assistência médica especializada em um sistema que ainda carrega as marcas do preconceito e da desinformação.
Os rejeitos contaminados soterrados na Abadia de Goiás hoje em dia (Cnen/Divulgação)
Como está Goiânia hoje, após o Césio 137?
A paisagem urbana da capital mudou para tentar ressignificar os pontos críticos da contaminação. Diferente de Chernobyl, onde a zona de exclusão é evidente, Goiânia integrou os locais atingidos ao dia a dia da cidade. O antigo Estádio Olímpico, que serviu de centro de triagem para mais de 100 mil pessoas, hoje é o moderno Centro de Excelência do Esporte.
Onde antes funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), marco zero da tragédia, hoje está o Centro de Convenções de Goiânia. Já as ruas do Setor Aeroporto e do Setor Central, que abrigavam os ferros-velhos onde a cápsula foi aberta, tiveram seus nomes alterados e o solo selado com camadas de chumbo e concreto.
Para muitos pesquisadores, essa "limpeza" visual é também uma forma de silenciamento histórico de uma cicatriz que ainda atravessa gerações.
O Hospital Geral de Goiânia (HGG) continua sendo referência no atendimento às vítimas do césio 137, e mantém o acompanhamento dos radioacidentados através do SUS.
O suporte direto é concentrado no Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA). Em 2026, cerca de 1.300 pessoas ainda frequentam a unidade para monitoramento vitalício. As queixas, porém, persistem: pacientes e descendentes (segunda e terceira gerações) relatam dificuldades no acesso a medicamentos de alto custo e a necessidade de maior amparo psicológico para lidar com o estigma que, embora menor, ainda existe.
Em 1987, a operação de descontaminação gerou cerca de 6 mil toneladas de rejeitos (roupas, utensílios, restos de casas demolidas e solo). Todo esse material foi levado para Abadia de Goiás, a 20 km da capital, onde foi enterrado em depósitos de chumbo e concreto no Parque Estadual Telma Otergal. Hoje, o espaço é coberto de grama com duas grandes estruturas quadradas, e está isolado da população, monitorado pela CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear).
Especialistas estimam que os resíduos só serão considerados totalmente seguros no século 23.
A limpeza em Goiânia após a contaminação do Césio 137 (Karen Kasmauski/Corbis via Getty Images)
Relembre o acidente com césio 137 em Goiânia
O desastre teve início em 13 de setembro de 1987. Dois catadores de recicláveis foram até o Instituto Goiano de Radioterapia, que estava desativado havia dois anos. Lá eles encontraram um cabeçote de chumbo de uma máquina de tratamento de câncer. Ao tentarem abrir o cabeçote com marretas, romperam a cápsula protetora e expuseram o cloreto de césio-137.
O material foi vendido para o dono de um ferro-velho, Devair Ferreira, que se encantou com o brilho azul intenso do pó no escuro. Sem saber do perigo, ele distribuiu fragmentos para familiares e amigos. A criança Leide das Neves, sobrinha dele, chegou a ingerir partículas durante uma refeição.
O césio 137 ficou por vários dias espalhado nas casas de diversas pessoas. Após apresentar sintomas típicos da contaminação por radiação, como vômitos, tonturas e diarreia coletiva, a esposa de Devair, Maria Gabriela, suspeitou do objeto. Ela colocou a cápsula em uma sacola e a levou de ônibus até a Vigilância Sanitária. Foi a percepção deela que interrompeu a cadeia de contaminação, embora ela mesma tenha se tornado uma das vítimas fatais.
Oficialmente, quatro pessoas morreram nos dias seguintes à exposição aguda, incluindo a pequena Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, que se tornou o símbolo da tragédia. Eles foram enterrados em caixões de chumbo e as famílias foram linchadas pela população local, desinformada.
O funeral de Israel Dos Santos, a terceira vítima do Césio 137 na época
A associação de vítimas do césio 137 estima que o número total de mortes relacionadas a sequelas e cânceres ao longo dos anos chegue a 66, com mais de 1.400 pessoas contaminadas em diferentes níveis.
A operação de descontaminação foi uma das maiores do mundo. Cerca de 6 mil toneladas de rejeitos — incluindo roupas, utensílios, solo e casas inteiras demolidas — foram recolhidas.
O que aconteceu com os responsáveis pelo césio 137?
A tragédia do Césio-137, além do erro humano, foi também uma falha sistêmica de fiscalização que gerou batalhas judiciais por décadas. No campo criminal, a resposta veio em 1992: três sócios do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) e um físico responsável foram condenados por homicídio e lesão corporal culposos (quando não há intenção de matar). As penas, no entanto, foram brandas: 3 anos e 2 meses de prisão, que acabaram convertidos em prestação de serviços comunitários e multas.
Na esfera cível, a Justiça Federal condenou a União, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o Estado de Goiás e o antigo Ipasgo ao pagamento de indenizações que chegaram a R$ 2 milhões, além de pensões vitalícias para as vítimas diretas e seus descendentes. Os catadores que encontraram o aparelho foram considerados vítimas pelo tribunal, uma vez que o Estado e o IGR falharam em garantir a segurança e o descarte adequado de um material de altíssima periculosidade.
Apesar das condenações, a Associação das Vítimas do Césio-137 ainda relata em 2026 uma luta constante para que as pensões sejam reajustadas e para que o atendimento médico no CARA não sofra interrupções. Para muitos sobreviventes, a maior punição não foi a judicial, mas o estigma social que os acompanhou por anos, dificultando a obtenção de empregos e a reintegração total à sociedade goiana.
Qual a diferença entre Chenobyl e Goiânia?
Enquanto o acidente ucraniano foi causado por uma explosão termonuclear em larga escala, o caso goiano foi um acidente de manuseio.
O Césio-137 em pó é extremamente solúvel e volátil, o que facilitou sua propagação por simples contato físico, suor e vento. O fascínio pelo brilho azul — uma característica da interação da radiação com a umidade do ar — foi o "cavalo de Troia" que levou o material para dentro das casas brasileiras.
Na Ucrânia,a explosão lançou toneladas de combustível nuclear e grafite na estratosfera, e contaminou continentes inteiros via nuvens radioativas. O perigo era conhecido e combatido por especialistas (liquidadores) em uma operação de guerra técnica, e foi rapidamente contido. O isolamento foi radical: uma zona de 30 km foi evacuada e permanece desabitada até hoje, o que criou uma cápsula do tempo soviética e uma reserva natural selvagem.
No Brasil, o perigo era invisível e sedutor. O brilho azul do césio-137 — o Efeito Cherenkov — agiu como um "ímã", e atraiu crianças e adultos para o contato direto com a fonte, o que gerou uma taxa de exposição interna altíssima, caso raro em desastres nucleares. A estratégia foi a descontaminação urbana e a reintegração. Casas foram demolidas, o asfalto foi arrancado e o solo selado, mas a cidade continuou pulsando ao redor dos pontos críticos.
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