Como ficam os seus investimentos se a Selic cair para 14,5%

Por Esfera Brasil 29 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como ficam os seus investimentos se a Selic cair para 14,5%

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central divulga nesta quarta-feira, 29, sua nova decisão sobre a taxa básica de juros, em um momento em que o mercado já trabalha com um cenário amplamente precificado: um corte de 0,25 ponto percentual.

Se confirmada a projeção, a Selic cairá de 14,75% para 14,50% ao ano, na segunda redução consecutiva.

Antes disso, em março, as autoridades monetárias cortaram, pela primeira vez desde maio de 2024, a taxa de juros em 0,25 ponto percentual, reduzindo para 14,75% ao ano antes 15%. Esse foi o patamar mais alto de juros desde 2006 e ficou nesse nível desde junho do ano passado, o que impulsionou principalmente investimentos em renda fixa.

Isso porque mais do que o número em si, a decisão tem impacto direto sobre o dinheiro dos brasileiros. A Selic é o principal referencial, ou benchmark, no jargão do mercado, para os investimentos no país. Como taxa básica de juros, ela dita o ritmo de rendimento de diversas aplicações financeiras, da renda fixa à renda variável, passando por fundos e imóveis.

Por isso, qualquer mudança, ainda que pequena, afeta decisões de alocação e retorno esperado.

Ações: impacto limitado no curto prazo

Para quem investe em ações, o consenso entre especialistas é de que um corte de 0,25 ponto deve provocar pouco efeito imediato. "Acredito que pouca coisa mudará se tivermos um corte de 0,25 ponto percentual, principalmente porque é algo que o mercado já amplamente precifica", afirma João Daronco, analista CNPI da Suno Research.

Segundo Daronco, o foco está no tom do comunicado dado o aumento da previsão da inflação neste ano que, no último Boletim Focus, de segunda, 27, subiu de 4,8% para 4,86% na sétima semana consecutiva de elevação do índice.

"Tivemos ao longo das últimas semanas um aumento das expectativas de juros futuros por parte do mercado, o que pressiona as ações e sinaliza que esse ciclo de corte pode ser mais brando do que o esperado", diz.

Na mesma linha, Fernando Fontoura, sócio-fundador e gestor da Persevera Asset Management, avalia que o atual estágio do ciclo ainda não é suficiente para destravar um fluxo relevante para a bolsa brasileira.

"25 pontos-base de corte não muda muito o cenário com o investimento em ações, porque esse fluxo de verdade dos investidores locais vem quando esse ciclo estiver mais avançado", afirma Fontoura. "O nível da taxa ainda é muito elevado e não é um corte grande o suficiente para animar substancialmente a pessoa física".

Ainda assim, há um alerta importante sobre timing, como alertam os especialistas. "Se o investidor esperar a taxa de juros cair para migrar para a renda variável, vai chegar no final da festa", afirma Daronco. "O mercado sempre precifica antecipadamente".

Mesmo com a Selic em patamar restritivo, o Ibovespa, principal referência acionária do mercado local, já subiu 17,06% até o fechamento desta terça, 28, acima do patamar da taxa de juros.

Entre os setores, em um ambiente de juros ainda elevados, o analista da Suno destaca o de seguros, que tende a se beneficiar da maior remuneração financeira.

Fundos imobiliários: efeito marginal, mas com mudanças internas

Nos fundos imobiliários (FIIs), o impacto também tende a ser limitado no curto prazo, especialmente diante das incertezas externas com a guerra no Oriente Médio e da trajetória ainda indefinida dos juros.

"Por ora, o efeito é marginal", afirma Marcos Baroni, head de FIIs da Suno Research. "Precisamos ter mais convicção de que os juros seguem caindo ao longo deste ano e também no ano que vem para que possamos ter um patamar terminal mais baixo".

Mesmo assim, há nuances importantes dentro da classe. Nos fundos de papel atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), a queda da Selic pode fazer o rendimento cair em termos absolutos, mas, em comparação com o próprio CDI, esses fundos podem até render proporcionalmente mais.

"Com relação aos fundos de papel indexado a CDI, tem uma queda de rendimento marginal, mas é importante lembrar que os fundos CDI, embora o rendimento nominal pode cair, o rendimento relativo pode aumentar, então o nominal diminui, mas em percentuais relacionados ao CDI, a tendência é que aumente, mesmo que o CDI caía", afirma Baroni.

Já Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, destaca que, num cenário em que a taxa de juros pode terminar o ano entre 13% e 13,5%, os fundos atrelados ao CDI tendem a se beneficiar, já que conseguem sustentar dividendos mais elevados por mais tempo. Se a queda dos juros for gradual, como o mercado espera, isso aumenta a atratividade dos fundos de recebíveis em relação aos fundos de tijolo.

"Isso pode mudar o fluxo de investimentos, que vinha indo para ativos como shoppings, e direcioná-lo novamente para recebíveis. Isso acontece porque os fundos de tijolo, em geral, pagam rendimentos menores. Ao longo de um ou dois anos, essa diferença de dividendos faz bastante diferença na rentabilidade", afirma Pletes.

"Além disso, um ambiente de juros ainda elevados dificulta alguns investimentos ligados aos fundos de tijolo".

Fundos de investimento: cautela e foco em qualidade

Nos fundos de investimento, o cenário também é de poucas mudanças imediatas. "O corte, por si só, é pequeno e não deve gerar mudanças relevantes nas estratégias no curto prazo", afirma Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos.

O principal fator, segundo Santos, segue sendo o ritmo do ciclo de cortes. O economista também estima que a Selic termine o ano com uma taxa de 13%, patamar que ainda favorece a renda fixa. "Ela segue como o carro-chefe das carteiras", diz.

A recomendação, nesse contexto, é de cautela e seletividade. "Fundos de crédito privado exigem atenção à qualidade das carteiras. A preferência atual é por fundos high grade", afirma. Além disso, a diversificação continua sendo importante, com espaço para multimercados e ações, sempre respeitando o perfil do investidor.

O gestor da Perservera reforça que a indústria ainda passa por um momento de ajuste após volatilidade recente. No primeiro trimestre do ano, os fundos de ações, por exemplo, registraram a maior rentabilidade média do período, de 10,7%, mas ainda assim ficou abaixo do Ibovespa, que avançou 16,3% no trimestre.

O cenário de multimercados também refletiu a deterioração de parte das estratégias no trimestre. A classe teve rentabilidade média de 1,7%, abaixo do CDI, que ficou em 3,4% no período.

A tendência, segundo Fontoura, é de menor exposição a riscos, com gestores mais conservadores diante de incertezas como inflação, combustíveis e oscilações na curva de juros. Ainda que esses fatores impactem os retornos, o posicionamento mais cauteloso deve limitar perdas mais acentuadas no curto prazo.

"Os gestores devem estar com posicionamentos mais conservadores agora", diz. "Os fundos acabam ficando em segundo plano até que o ciclo de corte avance mais".

Renda fixa: ainda protagonista

Mesmo com a queda da Selic, a renda fixa segue performando bem em 2026, especialmente nas estratégias mais conservadoras e de menor prazo.

No primeiro trimestre o IMA-S, que acompanha títulos pós-fixados ligados à Selic, subiu 3,49%; o IMA-B 5, de títulos indexados à inflação com vencimentos mais curtos, avançou 3,87%; o IRF-M 1, de prefixados curtos, subiu 3,28%; e o índice geral IMA teve alta de 3,07%.

"Isso mostra que a renda fixa continua entregando retorno consistente, mas também mostra que os melhores desempenhos ficaram em vencimentos mais curtos, porque o mercado segue cauteloso com inflação, guerra, juros longos e risco fiscal", explica Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital.

Mesmo com a possível queda de juros ao final desta quarta, os analistas ouvidos pela EXAME dizem que a renda fixa segue atrativa, já que a Selic ainda seguirá na casa dos dois dígitos, patamar historicamente elevado.

Se o corte se confirmar, ano segue positivo para quem aposta nessa classe, principalmente nos pós-fixados. "O custo de oportunidade de sair do pós-fixado fica alto. Um retorno real na casa de 8% a 9% ao ano, praticamente sem volatilidade e com liquidez, é algo que historicamente o investidor brasileiro raramente teve à disposição", diz Lucas Queiroz, estrategista de renda fixa do Itaú.

Outra categoria que deve seguir "brilhando os olhos dos investidores" em renda fixa são os títulos IPCA+. Na Empiricus, a preferência é justamente por esses ativos de longo prazo. "Eles permitem capturar tanto o carrego da inflação realizada quanto um possível fechamento das taxas de juros reais ao longo do tempo", afirma Lais Costa, analista de renda fixa da casa.

Nos prefixados, porém, é preciso mais cuidado, de acordo com os especialistas. "Em condições normais, os ativos prefixados tendem a liderar no início do ciclo. Mas após a forte alta nos rendimentos provocada pela escalada nos preços do petróleo, eles continuam apresentando desempenho inferior ao CDI", diz Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset.

Gabriel Nakaya, analista da Nord Investimentos, diz, contudo, que há um equilíbrio. Para o especilaista, pelo patamar elevado, mesmo com os cortes projetados, o investimento em títulos ligados ao CDI permanece atrativo.

"De todo modo, pelo juros nominal e real elevado, uma alocação tanto em títulos prefixados como indexados à inflação mostram um carrego interessante, bem como a possibilidade de ganhos com marcação a mercado caso o ciclo de corte de juros seja mais acentuado que o projetado", finaliza.

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