Como foi cobrir in loco uma Copa do Mundo
O jornalismo nos empresta vidas, nos dá acessos aos quais jamais imaginaríamos ter. Uma dessas oportunidades que tive foi a de cobrir a Copa do Mundo da Alemanha, lá mesmo, em 2006.
Passei 40 dias no país, entre Berlim, Munique, Colônia e a pequena cidade de Königstein, um vilarejo com dois mil habitantes perto de Frankfurt, onde a seleção brasileira ficou hospedada parte do tempo, em um luxuoso hotel da rede Kempinski.
Aquele era um mundo quase analógico, pré iPhone. O Gmail tinha acabado de ser lançado. O principal provedor de serviços e-mail era então o Hotmail. Ainda recebo em minha velha conta, quase desativada, as comunicações oficiais da FIFA.
Eu trabalhava em uma revista semanal. A cobertura foi basicamente off-line, apenas para a edição impressa. O modelo de negócios da publicação era baseado em venda de assinaturas e publicidade. Inteligência artificial, então, era apenas o título de um filme do Spielberg. Minha comunicação com a redação era através de um celular Nokia, limitado a ligações de voz e mensagens de texto.
O site da publicação era um repositório de matérias menores. O máximo a que nos aventuramos no mundo on-line naquela cobertura foi em um blog de curiosidades, com um post diário, que não devia ter mais de 50 visualizações por publicação.
Apurávamos durante a semana e escrevíamos, eu e mais um repórter, duas a três matérias por edição, na quarta e na quinta-feira. Sobrava tempo. Todas as noites saíamos para comer bratwurst e eisbein com chucrute e beber algumas canecas de weissbier. Voltei de lá com alguns quilos a mais.
Foi uma Copa muito bem-organizada. A credencial de jornalista garantia passagens de trem, gratuitas e ilimitadas, entre todas as cidades em que os jogos eram disputados. Os vagões eram extremamente confortáveis. Alguns dispunham até de um sinal capenga de wi-fi.
O Brasil então era amplo favorito. Tínhamos um timaço, melhor ainda que a equipe pentacampeã de 2002. Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Adriano, Ronaldo Fenômeno... poucos meses antes do início da Copa o diretor editorial da publicação me pediu uma matéria de capa com a seguinte chamada: Ronaldinho Gaúcho é melhor que Pelé.
Argumentei muito. Ronaldinho estava no auge, fazia coisas com a bola que ninguém acreditava. Daí a compará-lo com Pelé me pareceu (e a todo mundo com quem conversei) um exagero sem tamanho. No fim, escrevi a tal matéria, com muitas considerações, e consegui ao menos colocar um ponto de interrogação no título: Ronaldinho Gaúcho é melhor que Pelé?
Não era, claro. Mas a discussão mostra o grande momento do futebol brasileiro.
Tostão entre os jornalistas
O acesso dos jornalistas à seleção brasileira era restrito, mas ainda assim bem mais amplo do que acontece atualmente. Lembro de ouvir veteranos como Juca Kfouri contar que na Copa do Mundo de 1982, na Espanha, os jornalistas encontravam os jogadores para tomar café da manhã e, à noite, para tomar uma cerveja e fumar um cigarrinho.
Em 2006, o acesso à maior parte dos jornalistas era no cercadinho, um espaço reservado na saída do hotel e dos jogos, em que ficávamos chamando os jogadores brasileiros, humilhados, implorando por uma declaração vazia. O time está bem entrosado, futebol é uma caixinha de surpresas. E por aí vai.
No fim do ano anterior estive em Madri fazendo uma entrevista com Ronaldo Fenômeno. Isso fez com que ele às vezes me reconhecesse no meio do cercadinho e, vez ou outra, me presenteasse com algumas palavras.
Tratamento diferente tinha a TV Globo, então com os direitos de transmissão dos jogos. Muitas vezes víamos os jornalistas da emissora, como Sandra Annenberg, entrando sozinhos no ônibus da delegação. Generosos, eles muitas vezes nos passavam frases e informações colhidas nesses encontros privados.
Os treinos eram abertos, ficávamos o tempo todo acompanhando das arquibancadas as simulações das jogadas. A bem da verdade, aquele time de Carlos Alberto Parreira não pegava muito pesado. Muitas vezes os jogadores passavam o tempo brincando de bobinho ou assistindo Ronaldinho Gaúcho fazendo malabarismos com a bola. Uma exceção era Ronaldo Fenômeno, que estava um pouco acima do peso e costumava correr de agasalho em volta do campo, naquele verão alemão atipicamente quente.
Quem também ficava nas arquibancadas, nos dando a honra de sua companhia, era Tostão, então colunista de um jornal. Numa tarde, um grupo de jornalistas ingleses me abordou, perguntando se era verdade que o histórico atacante da seleção brasileira de 1970 estava por lá.
Confirmei e fiz as apresentações. Muito tímido, muito gentil, Tostão atendeu ao grupo, conversando e dando autógrafos. No Mundial de 1970, ele havia sido decisivo no jogo contra a Inglaterra na fase de grupos, criando a jogada para o gol de Jairzinho. Por isso a curiosidade dos jornalistas ingleses com aquela mítica figura, então misturado entre os jornalistas, tentando sem sucesso se esconder no anonimato.
Nosso trabalho era basicamente acompanhar os treinos e partidas da seleção brasileira. Até que chegou o jogo nas quartas-de-final contra a França. O Brasil era favorito. O time francês havia começado mal, mas foi melhorando no decorrer das partidas. Ainda assim, poucos acreditavam na vitória da equipe de Zidane. Lembro que alguns jornalistas franceses chegaram ao estádio de Frankfurt já com as malas, prontos para voltar para casa.
Como se sabe, a França venceu. Aqueles jornalistas permaneceram na Alemanha até o fim da Copa. Quem voltou foram os craques brasileiros, para decepção geral. Eu e meu parceiro de cobertura ficamos na Alemanha até a final da França contra a Itália.
Estávamos no Estádio Olímpico de Berlim, onde Adolf Hitler fez a histórica abertura dos Jogos Olímpicos de 1936, quando aconteceu a fatídica cabeçada de Zidane no peito do zagueiro Materazzi. A agressão ocorreu fora da jogada, ninguém na tribuna de imprensa percebeu.
Cada cadeira de jornalista tinha uma mesa com um monitor de TV, que passava a partida e reprisava as principais jogadas. Naquela hora, porém, a transmissão foi interrompida. Não estávamos entendendo por que o jogo estava parado. Até que um simpático jornalista alemão, com um radinho de pilha na orelha, nos contou.
Só pudemos ver a cena de Materazzi caindo ao chão quando chegamos no hotel, já tarde da noite, nas imagens de um aparelho de tubo de TV. Como eram ainda a maior parte dos televisores naquele distante ano de 2006.
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