Como investimentos de Meli, Amazon e Shopee em logística afetam o frete das suas compras

Por Letícia Furlan 27 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como investimentos de Meli, Amazon e Shopee em logística afetam o frete das suas compras

A oferta de frete grátis virou a galinha dos ovos de ouro no e-commerce. Mas, por trás da entrega gratuita, até de produtos de menor valor, há uma conta bilionária sendo disputada pelas grandes plataformas. A corrida por entregas cada vez mais rápidas está redesenhando o custo logístico no Brasil e mudando, na prática, quanto e como o consumidor paga para receber um produto em casa.

Essa transformação passa por uma aposta agressiva em infraestrutura, com bilhões sendo direcionados para galpões e centros de distribuição.

Nesse contexto, o Mercado Livre anunciou um investimento de R$ 57 bilhões em 2026, alta de 50% em relação ao ano anterior. A maior parte desse investimento vai ser direcionada à abertura de 14 novos centros de distribuição só este ano e deve levar a companhia à marca de 4 milhões de metros quadrados em galpões no país.

A expansão não é apenas crescimento, mas também uma estratégia para garantir liderança em um mercado cada vez mais competitivo.

Frete rápido começa no estoque

O principal eixo do plano é a expansão do modelo de fulfillment, em que a empresa controla toda a operação, do armazenamento à entrega. A rede passará de 28 para 42 unidades, ampliando em 50% a capacidade de processamento.

Na prática, isso resolve um dos principais gargalos do e-commerce. Quando o produto está com o vendedor, o prazo depende de ele separar, embalar e despachar. Quando está dentro do centro de distribuição, a plataforma ganha controle total da operação.

“Se depender do seller para postar o produto, é impossível garantir entrega rápida”, afirma Maurício Lima, sócio-fundador do ILOS, consultoria especializada em logística e supply chain.

O modelo de market place, conhecido como 3P, permite uma maior variedade de produtos sem a necessidade de a empresa imobilizar capital em estoque.

Apesar da promessa de entregas mais rápidas, há um ponto pouco visível para o consumidor: o frete raramente custa o que aparece na tela.

Na prática, grande parte das entregas no e-commerce é subsidiada pelas próprias plataformas. O objetivo é ganhar escala e fidelizar o cliente. Ofertas de “frete grátis” funcionam como porta de entrada, enquanto empresas investem bilhões para construir uma malha logística própria.

“Esse subsídio é uma isca. Com o tempo, conforme a base cresce, ele tende a diminuir”, diz o especialista.

Mais galpões, frete mais barato?

A relação entre expansão logística e custo do frete não é direta, mas é estratégica. Ao construir novos centros de distribuição, o Mercado Livre aproxima o produto do consumidor. Isso reduz distâncias, tempo de transporte e custo operacional.

“Colocar o produto mais perto do cliente diminui o custo real do frete, não só o preço final”, afirma Lima. Ou seja, parte do ganho para o consumidor pode vir menos de subsídios e mais de eficiência.

Se nas capitais a entrega rápida já virou padrão, o cenário muda fora dos grandes centros. No interior e em regiões como Norte e Nordeste, a variedade de produtos disponíveis para entrega rápida ainda é menor. Isso acontece porque os vendedores não conseguem distribuir estoque em todos os centros de distribuição.

O resultado é a necessidade de transferências longas — e prazos maiores. Em algumas regiões, a solução é concentrar entregas em dias específicos da semana, o que alonga ainda mais o prazo.

Expansão acompanha crescimento de vendas

O avanço da logística no Brasil é recente, mas acelerado. Desde 2019, a área de galpões de alto padrão saltou de cerca de 19 milhões para mais de 30 milhões de metros quadrados.

Esse crescimento acompanha a lógica do e-commerce: quanto maior o volume, menor o custo por entrega. Sem escala, o frete fica caro. Com escala, ele pode cair — ou ser absorvido pelas plataformas.

A expansão do Mercado Livre ocorre em meio ao avanço da Shopee, que já soma cerca de 1,8 milhão de metros quadrados no Brasil.

A disputa deixou de ser apenas por preço ou sortimento — e passou a ser pela capacidade de entregar mais rápido e mais barato.

No curto prazo, o consumidor ganha com fretes baixos e entregas rápidas. No longo, o custo tende a aparecer — seja no preço do produto ou na redução dos subsídios.

No fim, o frete virou o novo campo de batalha do e-commerce — e os bilhões investidos em logística mostram que essa disputa está só começando.

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