Como mudar o negócio está poupando essa empresa brasileira de impactos da Guerra
A escalada do conflito no Irã já começa a aparecer no balanço das empresas de logística. No caso da Sequoia (SEQL3), a reestruturação concluída no início de 2026 pode ter vindo no momento mais oportuno. A disparada do petróleo após os ataques no fim de fevereiro elevou o diesel, pressionando diretamente os custos do setor.
Para empresas de logística, o impacto é imediato: o diesel é um dos principais componentes de custo da operação e a alta força uma reação em cadeia nos contratos. Dados do Radar de Preços do Mercado de Combustíveis, desenvolvido pela Gestran, plataforma de Gestão de Frotas, indicam que o valor médio passou de R$ 5,7467 por litro em fevereiro para R$ 6,5940 em março — aumento de R$ 0,85.
“O que está acontecendo é que a gente está sendo muito pressionado por essa alta”, afirma Leopoldo Bruggen, CEO da Sequoia. “Isso força uma renegociação com o cliente final. Em alguns casos, conseguimos reajustes entre 6% e 7% nos últimos meses.”
A pressão não é isolada e já virou padrão no setor. Segundo Bruno Marino Gomes, diretor da JiveMauá, empresa controladora da Sequoia, o movimento é generalizado. “Todos os contratos vão passar por esse tipo de discussão. Não é uma negociação bilateral.”
O efeito da guerra vai além do custo operacional. A alta do petróleo também ajuda a manter a inflação pressionada — o que, por consequência, reduz o espaço para cortes mais agressivos na taxa de juros. “A guerra impediu uma redução mais rápida da Selic”, diz Gomes. “O ciclo deve acontecer, mas em outra velocidade.”
Esse ponto é particularmente sensível para empresas que operam alavancadas. Em ciclos anteriores, o custo financeiro foi um dos principais fatores de pressão sobre companhias de logística, que combinam margens apertadas com alta necessidade de capital.
É justamente nesse ponto que a Sequoia mudou de posição.
O 'timing' da reestruturação
A companhia passou por uma reestruturação profunda entre 2023 e o início de 2026, liderada pela JiveMauá. Cerca de R$ 750 milhões em passivos foram equacionados, com aproximadamente 80% convertidos em instrumentos de capital, reduzindo de forma relevante a alavancagem.
Ao mesmo tempo, a empresa alongou o perfil da dívida e reorganizou o fluxo de caixa, diminuindo a pressão de curto prazo. Na prática, a desalavancagem veio antes do choque externo — o que reduz a exposição da companhia ao novo cenário de juros altos.
“Se ainda estivéssemos com a estrutura de dívida antiga, o impacto seria muito maior”, afirmam os executivos da companhia.
Esse timing cria um efeito positivo. Com menos pressão financeira, a empresa consegue absorver melhor a alta de custos operacionais e negociar reajustes com clientes sem comprometer o caixa.
A mudança operacional também ajuda. Ao sair do e-commerce — um modelo intensivo em capital e com cerca de 70% de custos fixos — a Sequoia migrou para uma estrutura majoritariamente variável, mais ajustada à demanda.
Hoje, cerca de 90% dos custos são variáveis, o que permite adaptar rapidamente a operação em momentos de volatilidade. Em um cenário de diesel volátil e crédito restrito, essa flexibilidade deixa de ser diferencial e passa a ser condição de sobrevivência.
Além disso, o foco em nichos como logística de objetos bancários — com margens superiores a 20% — melhora a capacidade de absorver choques de custo sem destruir rentabilidade.
Um setor mais pressionado
O impacto do diesel não é exclusivo da logística. No setor sucroenergético, por exemplo, o combustível tem correlação de mais de 97% com os custos totais de produção. Na prática, cada aumento de R$ 1 por litro pode elevar significativamente o custo por tonelada produzida.
Esse mesmo racional se aplica ao transporte. Quando o diesel sobe, toda a cadeia logística sente — e repassa.
No curto prazo, o movimento deve levar a novas rodadas de renegociação de contratos em todo o setor. No médio, tende a acelerar a consolidação, favorecendo empresas com balanços mais sólidos e estrutura de custos mais flexível.
Para a Sequoia, o cenário ainda é desafiador. Mas, desta vez, a companhia entra na turbulência com uma posição diferente — menos alavancada, mais enxuta e com maior capacidade de adaptação.
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