Como o aquecimento global está aumentando a violência na Nigéria
A Nigéria, o país mais populoso da África, vive há anos uma intensa onda de violência, perpetuada pela disputa por recursos entre diferentes etnias e frequentemente justificada por diferenças culturais e religiosas. Em 2021, um relatório das Nações Unidas já mencionava a questão da violência como "o maior obstáculo para o país."
As raízes dessa violência são humanas e, em seu cerne, estão os choques entre os pastores da etnia muçulmana Fulani, tradicionalmente nômade, e concentrados no norte do país, e fazendeiros cristãos assentados no sul, que competem por recursos, como pasto e água, à medida que se tornam escassos ao longo do ano. Esses conflitos resultam em estupros, a queima de vilarejos, tiroteios e sequestros.
A plataforma acadêmica voltada para o direito Opinio Juris realça outros fatores sociopolíticos que perpetuam a violência, como a presença de grupos armados cada vez mais extremistas, baixos níveis de governança, pouca resposta das forças armadas, intensos ciclos de retaliação entre os Fulani e os fazendeiros e altos níveis de corrupção no governo.
Crime e clima: existe uma correlação?
A literatura acadêmica passa a considerar a questão climática cada vez mais como um agravante da violência na Nigéria, e as conclusões apontam para uma correlação positiva.
Um artigo de opinião publicado pela acadêmica e ativista de direitos humanos Dra. Ewelina Ochab, na plataforma acadêmica Religion Unplugged, dedicada ao estudo de religiões em todo o mundo, atribui grande parte das ondas de violência perpetradas por fazendeiros Fulani, especialmente por atores que não se alinham a nenhuma milícia, tanto às diferenças religiosas quanto à mudança climática e aos novos desafios que ela acarreta.
Recomendações da ONU para a Nigéria também apontam repetidamente a mudança climática como um fator-chave por trás da intensificação do crime no país.
Outro estudo sobre a situação na Nigéria, publicado no South Asian Research Journal of Humanities and Social Sciences, conclui após analisar uma miríade de casos de crimes violentos no país:
"As mudanças na composição ambiental global – secas, desertificação, redução das chuvas, inundações, erosão, diminuição das terras disponíveis para a agricultura e a pastagem – são responsáveis pela escassez de recursos ambientais, o que resulta em conflitos entre pastores e agricultores", e recomenda como solução vastas plantações subsidiadas de pasto, a fim de mitigar artificialmente os danos do aquecimento global no norte da Nigéria.
Piorando a situação, a perda de áreas florestadas e de seus recursos naturais, seja devido ao desmatamento irregular ou às mudanças climáticas, e a ausência de moderação por parte do Estado fizeram com que muitos desses fazendeiros e nômades, mesmo que não estivessem alinhados com grupos terroristas estabelecidos, formassem milícias armadas para competir por recursos e se defenderem de outros grupos armados.
Fugindo tanto da violência quanto da escassez de recursos, os conflitos geraram, ao longo dos anos, uma grande crise de refugiados no país e, no fim de 2024, a Opinio Juris estimava que cerca de 3,4 milhões de nigerianos estariam internamente deslocados pela violência, cujo teor se torna menos religioso e mais centrado no controle de território e de recursos à medida que a mudança climática avança.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Haruna, um membro de uma dessas milícias diz sobre a situação:
“O que está acontecendo é uma calamidade… Nós, muçulmanos, lutando uns contra os outros, é uma perda, não um ganho. Queremos que o governo nos ajude para que, quando formos pastorear o gado, ninguém nos oprima e nós não oprimamos ninguém.”
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