Como o conflito no Irã chega ao Ibovespa e mexe com o dólar no Brasil
A escalada de conflitos deste fim de semana no Oriente Médio direciona o olhar do mercado financeiro para impactos nos fluxos comerciais da região, sobretudo o do petróleo. De acordo com o The New York Times, o tráfego de embarcações pelo estreito de Ormuz reduziu em 70% neste domingo, 1, disse um especialista da Kpler, empresa que monitora navios e fluxos de mercadorias em tempo real. No sábado, a agência iraniana de notícias Tasnim informou que a rota, ligação do Golfo Pérsico com o Golfo de Omã e o mar da Arábia, havia sido fechada e nenhuma embarcação estaria autorizada a atravessá-la.
O risco de um ataque ao Irã já vinha fazendo preço no mercado há algumas semanas, de acordo com cada sinalização vinda dos Estados Unidos e, principalmente, depois que a presença militar americana no Oriente Médio se intensificou. Agora, com o conflito materializado e escalando, após a morte do aiatolá Ali Khamenei, analistas acreditam que os impactos vão depender da extensão dos bombardeios, que já atingem outros países da região, como Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes. A duração desse embate é outro ponto-chave.
"O maior risco decorre de uma interrupção prolongada do tráfego de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz, que movimenta cerca de 20% do abastecimento mundial [de petróleo]", escreveu o analista John Kemp, da Base Research, em artigo publicado no Financial Times. Segundo ele, a Arábia Saudita poderia redirecionar parte das exportações do Golfo Pérsico para o Mar Vermelho, utilizando o oleoduto Leste-Oeste, que atravessa a Península Arábica.
Risco sistêmico
Dan Kawa, sócio da gestora de fortunas We Capital, afirma que um conflito de longa duração gera risco sistêmico para o mercado energético global, "com rápida reprecificação do prêmio geopolítico e aumento significativo da volatilidade em petróleo, câmbio e juros", escreveu em seus perfis nas redes sociais.
"O choque tenderia a gerar contágio inflacionário via energia e fretes, podendo pressionar expectativas e a atuação de bancos centrais, especialmente se a disrupção se prolongar", afirma Kawa. O economista nota, porém, que os impactos seriam assimétricos entre os países, beneficiando exportadores líquidos de energia e penalizando importadores. Segundo ele, a expectativa é de "efeitos relevantes sobre ativos de risco, sobretudo em mercados emergentes dependentes de petróleo".
A organização dos países exportadores de petróleo (Opep+), da qual o Irã é membro, anunciou um aumento na produção da matéria-prima da ordem de 206 mil barris por dia a partir do próximo mês de abril, para evitar um choque após a interrupção do fornecimento via estreito de Ormuz. A produção iraniana de petróleo é a quarta maior do mundo, com 3 milhões de barris por dia registrados no último mês de janeiro.
Segundo Kawa, é comum que o mercado precifique, inicialmente, um cenário extremo e, posteriormente, ajuste os preços conforme se tenha uma maior visibilidade sobre a situação.
Saída de emergentes
Um conflito como o que ocorre agora no Oriente Médio, tradicionalmente, provoca uma aversão a investimentos de maior risco por conta da perspectiva de contração econômica, sobretudo nos países diretamente envolvidos no embate. "Normalmente é ruim para o mercado de ações, com investidores tentando migrar para ativos mais seguros, como metais preciosos, treasuries e até setores mais defensivos", destaca William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. Logo, nesse tipo de situação, é comum o investidor sair de moedas e países emergentes.
Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, acredita que o movimento de realocação global que vinha sustentando o Ibovespa e outros mercados emergentes pode ser interrompido pelo conflito no Oriente Médio.
"Grandes chances de uma interrompida agora nesse mês de março com uma realização de lucro um pouco mais alta", afirma. "A resposta do petróleo mais alto na economia americana é muito rápida. Provavelmente a inflação de março dos Estados Unidos vai ser bem alta o que pode diminuir a precificação de um corte de juros por lá. Todos esses movimentos tiram, sim, fluxo".
Segundo o estrategista, o conflito também pode mudar o tom da discussão sobre corte de juros no Brasil. A autoridade monetária sinalizou para uma redução da taxa na reunião de março, mas agora terá mais um evento geopolítico para embutir na sua análise sobre riscos inflacionários.
Marcela Kawauti, economista da Lifetime Asset Management, acredita que os efeitos sobre a inflação no Brasil podem ser bastante relevantes. Um terço do comércio global de fertilizantes passa pelo estreito de Ormuz, o que é uma má notícia para um país produtor de alimentos. "A alta internacional de preços traria efeitos importantes sobre a agropecuária brasileira, fortemente dependente das importações desse produto. O aumento do custo deste insumo encareceria a produção no campo e posteriormente os preços de alimentos in natura e industrializados", afirma.
Um aumento no preço da gasolina no mercado interno também teria efeito sobre serviços, como frete e transportes. "O repasse não é automático e depende de autorização pela Petrobras, mas caso altas de preços de energia se prolonguem, a chance de repasse se exacerba. O impacto final para os preços ao consumidor, por sua vez, depende do quanto desta elevação seja repassada das refinarias ao consumidor final."
Impacto incerto na Petrobras
No mercado de ações, a estatal vem sendo uma das principais beneficiadas pelo fluxo de capital estrangeiro na bolsa, por ser uma das empresas de maior peso do portfólio do Ibovespa. Mas uma alta no preço do petróleo nem sempre jogou a favor da companhia, lembra Castro Alves, da Avenue. "A Petrobras tem uma política de preço que não necessariamente repassa esses preços, ainda mais em um ano eleitoral. Em outros momentos, elevação de preço de petróleo já foi ruim para a empresa".
Já André Perfeito, economista do Garantia Capital, acredita que Brasil tem chance de se "beneficiar fortemente" com o momento, por ser superavitário em petróleo e derivados. O saldo comercial do segmento em 2025 foi de US$ 29,6 bilhões e correspondeu a 43% do saldo total.
"Se o preço do petróleo explode, a gasolina importada sobe, mas o petróleo que exportamos sobe também", explica o economista. "Essa situação singular da nossa história, que finalmente atingiu a autossuficiência, pelo menos comercial, do petróleo, muda tudo. O fluxo do Brasil com o mundo mudou."
Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, tem visão semelhante. "Acredito q o Brasil por ser exportador de petróleo não será especialmente afetado, mesmo q haja alguma aversão ao risco a partir desta segunda-feira".
O conflito no Oriente Médio vai ser um teste para o dólar, que costuma ser moeda de refúgio quando aumenta aversão ao risco global. "Se fosse há uns 2 anos atrás eu diria que haveria uma corrida para ativos em dólar. Mas, como os últimos meses mostraram, isso não tem sido necessariamente verdade", afirma Leal.
"Não me surpreenderia se o Real se apreciar mais ainda nos próximos dias", complementa Perfeito.
Sejam quais forem os efeitos, eles devem ser de curto prazo, segundo Castro Alves. "No médio prazo, de seis meses a um ano, todos esses vetores se dissipam."
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