Como o futebol venceu preconceitos e se tornou popular nos EUA — ultrapassando até o beisebol
Embora os Estados Unidos sejam uma potência esportiva global, o futebol nunca ocupou o mesmo espaço de modalidades como beisebol, basquete ou futebol americano na preferência popular do país.
Por outro lado, a relação dos norte-americanos com o esporte cresceu ao longo das décadas e alcançará um novo marco em 2026, quando o país receberá a Copa do Mundo da FIFA pela segunda vez. A primeira edição disputada em território americano ocorreu em 1994.
A transformação do futebol nos EUA não aconteceu de forma imediata. Para aumentar a relevância da modalidade e atrair atenção internacional, clubes e dirigentes apostaram na contratação de atletas reconhecidos mundialmente.
Esse movimento continua até hoje. Um dos principais exemplos é Lionel Messi, que atua pelo Inter Miami após conquistar a Copa do Mundo do Catar em 2022 pela Argentina. No entanto, décadas antes da chegada do astro argentino, outros jogadores já haviam iniciado esse processo de popularização do esporte em solo norte-americano.
Entre eles, Pelé ocupa posição de destaque. O brasileiro foi um dos primeiros grandes nomes do futebol mundial a atuar nos Estados Unidos, tornando-se peça central na expansão da modalidade no país.
A chegada de Pelé ao New York Cosmos
Pelé deixa o campo após sua última partida. Pelé jogou por seus dois clubes, o New York Cosmos no primeiro tempo e o Santos FC no segundo tempo, durante o jogo disputado em 1º de outubro de 1977 em East Rutherford, Nova Jersey. (Robert Riger/Getty Images)
Em 1975, Pelé desembarcou nos Estados Unidos para defender o New York Cosmos. A contratação chamou atenção porque o ex-jogador já havia anunciado sua aposentadoria anos antes, após construir uma carreira marcada pela conquista de três Copas do Mundo.
Ao convencer Pelé a voltar aos gramados, o Cosmos levou ao país um dos maiores símbolos do futebol em um momento em que o esporte ainda tinha pouca presença na cultura esportiva americana. A presença do brasileiro contribuiu para ampliar o interesse do público pela modalidade.
Durante sua passagem pelo clube, o Cosmos chegou a utilizar o Yankee Stadium como palco de suas partidas. Imagens da época mostram um cenário incomum para o futebol, com áreas de terra aparentes e marcas do formato utilizado pelo beisebol no campo.
Dados da Sociedade de História do Futebol dos Estados Unidos apontam que Pelé participou de 64 partidas pelo New York Cosmos e marcou 37 gols. O impacto, porém, foi além dos números dentro de campo. Em 1977, o clube registrou média de público de 42 mil torcedores.
O jogo de despedida do brasileiro também se transformou em um marco para a modalidade no país. Mais de 70 mil pessoas estiveram presentes nas arquibancadas para acompanhar a última atuação de Pelé.
O caminho aberto para outras estrelas
A influência de Pelé não terminou com sua aposentadoria definitiva. Sua passagem pelos Estados Unidos abriu espaço para que outros nomes relevantes do futebol internacional considerassem atuar no país.
Nos anos seguintes, jogadores como Carlos Alberto Torres, Franz Beckenbauer e Eusébio reforçaram equipes locais. O aumento do interesse dos torcedores levou diversos clubes a transferirem seus jogos para estádios com maior capacidade.
Posteriormente, Johan Cruyff também passou pelo futebol americano e teve participação importante no desenvolvimento da modalidade. Outro destaque foi Hugo Sánchez, que vestiu a camisa do FC Dallas em 1996.
Com a criação e consolidação da Major League Soccer, a chegada de atletas renomados continuou. Em 2000, Lothar Matthäus e Hristo Stoichkov passaram a atuar na liga. Depois vieram nomes como David Beckham e Cuauhtémoc Blanco, ambos em 2007, além de Thierry Henry, em 2010.
Lionel Messi, jogador argentino atua no Inter Miami. (Rich Storry/Getty Images)
Na década seguinte, o campeonato recebeu jogadores como Frank Lampard, em 2014, Kaká, em 2015, Andrea Pirlo, em 2016, e, dois anos depois, Zlatan Ibrahimović e Wayne Rooney.
Mais recentemente, a MLS voltou a atrair grandes referências do futebol mundial. Nesse contexto, a contratação de Lionel Messi pelo Inter Miami passou a ser vista como um dos momentos de maior repercussão da história da modalidade nos Estados Unidos, frequentemente comparado ao impacto causado pela chegada de Pelé ao New York Cosmos décadas antes.
Futebol ultrapassa beisebol
O crescimento do futebol nos Estados Unidos alcançou um novo patamar. De acordo com dados citados pelo The Economist, 10% dos americanos apontam o futebol como seu esporte preferido, índice que coloca a modalidade à frente do beisebol, tradicionalmente associado à identidade esportiva do país.
A mudança reflete uma transformação gradual nos hábitos de consumo esportivo da população norte-americana. Embora o futebol ainda esteja atrás das modalidades mais consolidadas do país, sua presença vem aumentando nas últimas décadas.
A liderança segue com o futebol americano. Segundo a pesquisa, 37% dos entrevistados consideram a modalidade sua favorita. Na sequência aparece o basquete, escolhido por 17% dos participantes.
Com os 10% registrados, o futebol ocupa atualmente a terceira posição entre os esportes mais populares dos Estados Unidos, superando o beisebol por uma margem estreita.
Abaixo dessas modalidades aparecem esportes como hóquei no gelo, MMA e outras competições que reúnem parcelas menores da preferência do público americano.
Os números reforçam o avanço do futebol em um mercado historicamente dominado por ligas e competições nacionais de outras modalidades, em um cenário que ganhou impulso com a expansão da Major League Soccer (MLS), a realização de torneios internacionais em território americano e a chegada de atletas de projeção mundial.
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