Como o goleiro Vozinha, quase desconhecido, virou um fenômeno de engajamento
Vivemos a era dos superlativos. Em apenas uma semana, vimos Elon Musk tornar-se o primeiro trilionário da História, o youtuber MrBeast chegar a 500 milhões de inscritos na plataforma e a CazéTV, uma mídia 100% brasileira nascida na internet em novembro de 2022, registrar ontem, no mesmo YouTube, espantosos 8,1 milhões de pessoas assistindo, ao mesmo tempo, a Espanha e a Cabo Verde pela Copa do Mundo – em plena tarde de segunda-feira.
Os números mostram que o mundo não só cresceu, como se tornou maior do que qualquer régua que tínhamos para medi-lo.
E foi nesse contexto de grandezas sem precedentes que surgiu... Vozinha.
Goleiro da estreante em Copas Cabo Verde, sem clube atualmente (ou seja, desempregado para os padrões do futebol), com passe avaliado em modestos R$ 300 mil, Vozinha, 40 anos, fechou o gol contra uma das favoritas ao título. Por isso, e só por isso, merecia a visibilidade que vem tendo desde ontem.
Acontece que, para além da atuação magistral, Vozinha cruzou com outro fenômeno, esse bem conhecido por aqui: Casimiro Miguel, o Cazé, potência da mídia esportiva com 31 milhões de inscritos no YouTube e retransmitido na Prime Video, Disney+, Samsung TV Plus e Sky+.
E foi o próprio Cazé que decidiu fazer do modesto Instagram de Vozinha, com 45 mil seguidores, uma missão coletiva. Durante a transmissão do jogo, pediu à sua comunidade que seguisse o jogador, dando a ele 1 milhão de seguidores ao final dos 90 minutos.
Assim o fizeram. O case, porém, não pararia aí. Como um foguete da SpaceX, de Elon Musk, o Instagram de Vozinha partiu rumo à estratosfera e, de noite, já tinha chocantes 3 milhões de seguidores na rede – seis vezes mais gente do que a população cabo-verdiana, arquipélago que hoje tem 530 mil habitantes.
Vozinha foi dormir com 5 milhões de seguidores e, na manhã dessa terça, se encaminhava para os 8 milhões (a CazéTV tem 16 milhões no Instagram).
Quem é Vozinha?
Josimar Évora Dias tem seu nome de batismo em homenagem ao lateral-direito brasileiro Josimar, do qual seu pai era fã, e que jogou no Botafogo e brilhou na Copa de 1986.
Ontem, depois de pelo menos dez defesas, algumas delas espetaculares, terminou o jogo com o troféu de melhor jogador da partida na mão, concedido pela própria Fifa. Quando saiu do gramado, abraçado à bandeira de Cabo Verde, ainda chorava – um choro adulto, de alegria e de vitória, e que vai além do futebol: Vozinha cresceu sem os pais. Foi criado pelos avós, Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes, na Ilha de São Vicente.
O apelido surgiu justamente aí: menino competitivo, odiava perder; quando levava gol, fechava a cara e saía de campo furioso. Os colegas caçoavam que ele ia correr para reclamar com os “vós”. Daí veio Vozinha.
Com o tempo, o apelido deixou de ser provocação e virou identidade. Toda a ilha o conhecia assim. E quando chegou a Angola para jogar profissionalmente, havia outro goleiro chamado Josimar na equipe, e ele alegou: “Não vou meter Josimar II na camisa”.
Os avós já não estão mais aqui e a mãe não conseguiu estar no estádio em Atlanta, pois o visto não saiu a tempo e os recursos financeiros não foram suficientes para resolver a burocracia.
“Sonhei toda a minha vida por esse momento. Trabalhei toda a minha vida por esses palcos”, disse ele à CazéTV.
Vozinha não estava jogando para ser famoso nem para viralizar. Jogava para defender uma nação e porque sonhou com aquele momento a vida toda e trabalhou em silêncio por si e pelos avós.
Foi exatamente essa autenticidade que o Brasil sentiu, mesmo sem saber que ele via novelas brasileiras, ouvia Ivete Sangalo, tinha irmão morando no Recife e carregava um nome em homenagem a um jogador brasileiro.
Sem meme, com mérito
Temos de ter cuidado para não ler o fenômeno Vozinha de maneira errada.
O arqueiro cabo-verdiano não viralizou porque disse algo engraçado, nem porque fez algum gesto icônico, nem porque o algoritmo o encontrou por acidente.
Vozinha viralizou porque jogou, jogou muito, e o mundo inteiro viu.
A Fifa lhe deu o troféu de melhor jogador da partida e o jornalismo esportivo internacional se rendeu à atuação dele com a seriedade que merecia.
O que a CazéTV fez foi ampliar um sinal que já existia, que tinha qualidade e estava pronto para ser recebido.
Por isso, o case é tão emblemático para quem trabalha com comunicação, posicionamento e construção de credibilidade.
Vozinha não nasceu no Instagram. Não começou a defender nessa Copa. O atleta tem 40 anos, começou a carreira em Cabo Verde, passou por Angola, Moldávia, Portugal e Chipre e tem 90 jogos pela seleção do seu país – o segundo esportista com mais partidas na história do time.
Chegou à Copa do Mundo depois de décadas de trabalho consistente, feito em silêncio, sem holofote e, quando o holofote finalmente apareceu, Vozinha estava preparado.
Memes surgem, explodem e desaparecem. O que Vozinha construiu em 90 minutos de Copa do Mundo tem vida útil e só está no começo.
Avante, Cabo Verde!
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