Como o Paquistão se tornou mediador na guerra do Irã?

Por Matheus Gonçalves 9 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como o Paquistão se tornou mediador na guerra do Irã?

O Paquistão, país no sul da Ásia que faz fronteira com o nordeste da Índia, nunca foi considerado – especialmente pelos EUA – como uma nação com grande potencial diplomático ou influência regional. De maioria muçulmana, está travado em um estado perene de tensões com seus vizinhos, especialmente com a Índia e o Afeganistão, e é considerado violento por muitos diplomatas veteranos dos EUA.

Mesmo assim, após anos de esforços diplomáticos com o Irã, seu vizinho, e meses de diplomacia intensiva com os EUA, que surpreenderam céticos, a quinta nação mais populosa do mundo foi, ao longo do tempo, capaz de cultivar laços significativos com ambos os lados, especialmente com a segunda administração Trump – um desdobramento surpreendente, considerando a cautela com que o republicano maneja seus laços com países muçulmanos.

Por meio desses laços, o Paquistão foi capaz de se posicionar como mediador-chave no conflito entre uma coalizão israelense-americana e o Irã, arbitrando negociações que culminaram em um cessar-fogo imediato, trazendo uma pausa nas hostilidades e um alívio à economia global.

“Tenho o prazer de anunciar que a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos da América, juntamente com seus aliados, concordaram com um cessar-fogo imediato”, disse o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, nas redes sociais. “COM EFEITO IMEDIATO”, acrescentou em letras maiúsculas, ecoando o estilo tipográfico do presidente Trump.

Seu papel como mediador nesse conflito trouxe ao Paquistão suas maiores vitórias diplomáticas em décadas. Foi uma grande reviravolta no status de uma nação que Trump já chegou a descrever como um país que não oferece “nada além de mentiras e enganações”, amplamente ignorado inclusive pela administração Biden.

“Para o Paquistão, é realmente uma grande conquista”, disse ao New York Times Michael Kugelman, pesquisador sênior para o Sul da Ásia no Atlantic Council, um instituto de pesquisa. “O Paquistão há muito tempo luta com uma imagem global muito ruim, em que os países não o viam como capaz de ser influente regionalmente ou mesmo globalmente.”

A ascensão diplomática do Paquistão

Seu papel como mediador rendeu ao Paquistão sua mais importante vitória diplomática em décadas, ajudando a mudar a percepção global do país (AAMIR QURESHI / AFP)

O Paquistão era considerado um parceiro pouco confiável dos EUA, que teria agido duplamente no conflito entre os americanos e o Afeganistão, simultaneamente ajudando Washington a depor o então governo afegão e apoiando a insurgência do Talibã, que visava tomar o controle do país para si.

De fato, após a retirada de tropas americanas do Afeganistão em 2021, o Paquistão patrocinou a ascensão do Talibã ao poder, medida que resultaria em um sangrento conflito entre os vizinhos anos depois.

Desde sua reeleição, o Paquistão buscou cultivar laços próximos com a segunda administração de Trump, conseguindo acordos favoráveis que abrangem desde criptomoedas até terras raras. O país se juntou ao Conselho de Paz de Trump, o recomendou ao Prêmio Nobel da Paz no ano passado e até o creditou – mesmo que de maneira superficial – por sua ajuda a pôr fim a um breve conflito com a Índia em maio de 2025, por mais que a Índia tenha negado a participação do republicano em conversas de paz.

Décadas de relações com o Irã, cultivadas ao longo de uma fronteira de mais de 900 quilômetros e por uma religião em comum, colocaram o Paquistão em uma posição única para mediar conversas de paz no novo conflito no país. Por anos, o Paquistão ajudou o Irã a representar seus interesses em Washington, já que os EUA não têm laços formais com Teerã desde o fim da revolução islâmica de 1979 que levou o país a adotar uma postura fortemente antiocidental.

Durante semanas de conflito no Irã, diplomatas e oficiais militares paquistaneses intermediaram mensagens entre Trump e a administração iraniana, com o premiê paquistanês Shehbaz Sharif e seu ministro de relações exteriores, Ishaq Dar, conversando com dúzias de líderes, direta e indiretamente envolvidos no conflito, enquanto o marechal de campo Asim Munir, líder do Exército do Paquistão, se concentrou em negociações específicas com os EUA.

Munir, em particular, formou amizade com Trump, com quem discutiu o Irã por quase um ano, antes do conflito, em encontros na Casa Branca. Em um desses encontros, que aconteceu em junho do ano passado, Trump chegou a dizer que autoridades paquistanesas “conhecem o Irã muito bem, melhor do que a maioria.” O republicano, ainda por cima, chamou o marechal paquistanês de “seu marechal de campo favorito”.

Além da diplomacia com ambos os lados, foi com o importante apoio direto da China que o Paquistão conseguiu se tornar mediador, após uma visita de Dar ao país, durante a qual conduziu conversas diplomáticas sobre o assunto com seu homólogo, Wang Yi, em um encontro que precede o muito aguardado encontro entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, adiado devido ao conflito no Irã. As conversas do cessar-fogo foram conduzidas na capital paquistanesa, Islamabad.

Todavia, o cessar-fogo, anunciado na noite dessa terça, 7, segue permeado por incertezas, o que levanta dúvidas sobre sua duração. Entre os problemas, está a continuação da campanha israelense contra o Líbano – e contra os proxies iranianos que atuam por lá – já que o país não estava explicitamente mencionado nos termos do acordo, argumenta o líder israelense, Benjamin Netanyahu.  Mais de 1.400 pessoas foram mortas durante a campanha no Líbano, apontam dados do governo libanês.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: