Como o tempo virou o ingrediente secreto da perfumaria de nicho

Por Marina Semensato 14 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como o tempo virou o ingrediente secreto da perfumaria de nicho

A perfumaria de nicho, como o próprio nome sugere, sempre foi um território mais restrito. Em vez de tentar agradar a todos, ela fala com um público menor — e realmente interessado em fragrâncias feitas com ingredientes raros e propostas mais autênticas.

Nos últimos anos, porém, esse universo deixou de ser tão pequeno. Em 2024, o mercado de perfumes de nicho foi avaliado em cerca de US$ 12,5 bilhões, com chances de atingir US$ 24 bilhões até 2032, segundo o Future Market Report. Ou seja, ele deve dobrar em menos de uma década,como resultado de uma busca cada vez maior por experiências olfativas exclusivas e de um comércio eletrônico que cria essa ponte entre as marcas e o público.

Com o crescimento, vieram também novos concorrentes, novos ingredientes, novas combinações e novas fragrâncias. Em algum momento, a pergunta passou a ser inevitável: como se destacar em um mercado que vive justamente por ser diferente?

Por muitos anos, a resposta esteve nos ingredientes. Madeiras e flores raras, resinas vindas de regiões muito específicas do planeta, especiarias, até água da chuva. Quanto mais incomum a matéria-prima e mais sofisticada a técnica para obtê-la, melhor.

Mas, em meio à busca pelo destaque num mercado cada vez mais cheio de opções, algumas marcas começaram a apostar em algo bem menos tangível: o tempo. Agora, ele entra tanto como ingrediente quanto como parte da estratégia de marketing dessas empresas, segundo informações da Business of Fashion.

O "ingrediente secreto" das perfumarias de luxo

O tempo virou parte da fórmula em algumas marcas, o que não é exatamente uma novidade. A maturação — como o que acontece com vinhos ou destilados — existe há séculos na perfumaria.

Há um motivo para isso. Depois que o perfume é criado, o óleo concentrado da fragrância fica descansando um período antes de ser misturado ao álcool para virar o produto final, num intervalo que pode durar semanas, meses ou até anos, dependendo da fórmula.

Esse tempo faz diferença no resultado, porque a partir dele os ingredientes se integram melhor e o aroma tende a ficar mais encorpado e durar mais na pele.

A marca alemã Krigler, fundada no início do século XX, ainda segue cronogramas de maturação definidos cinco gerações atrás por seu fundador, Albert Krigler. Para a empresa, esse tempo extra sempre foi um dos grandes diferenciais da fragrância. "Os consumidores querem qualidade. E isso prova que tempo é luxo", afirmou o atual proprietário, Ben Krigler, à BoF.

Um exemplo recente é a casa omanense Amouage, que decidiu experimentar com um dos materiais mais raros da perfumaria, o oud. Para criar a fragrância de edição limitada Oud Zuhal, o diretor criativo da marca, Renaud Salmon, mergulhou lascas da madeira em um tanque com cerca de 250 quilos de óleo concentrado de perfume.

No começo, não deu certo. As lascas absorveram o óleo em vez de liberar o aroma. Após ajustar o processo e aumentar a quantidade de concentrado, a madeira finalmente liberou o cheiro esperado. O resultado foi lançado em fevereiro como parte da coleção premium Essences, vendida por cerca de US$ 610 por frasco na região do Golfo.

Tempo é dinheiro — e personagem

A aposta no tempo, porém, tem consequências para o negócio e nem sempre é uma equação fácil de sustentar. Deixar uma fragrância maturando significa manter ingredientes parados por longos períodos, o que aumenta custos e alonga o prazo de produção.

Ainda assim, essa estratégia segue viva em algumas marcas. A própria Amouage registrou crescimento de 66% nas vendas em 2025, superando US$ 430 milhões em faturamento global no varejo. Segundo executivos da marca, as fragrâncias mais premium — justamente as que passam por processos mais longos — tiveram papel importante nesse resultado.

Além da produção, o tempo também vira parte da narrativa das marcas. Casas tradicionais como Guerlain, Santa Maria Novella e Penhaligon’s exploram décadas — ou até séculos — de história para reforçar sua autoridade no mercado, como uma forma de comunicar valor.

Segundo o consultor de fragrâncias Giulio Lorenzini, fundador da Levitum Paris, muitas marcas usam essa ligação com o passado para criar uma sensação de nostalgia entre os consumidores, o que tem funcionado, inclusive, com os mais jovens. "Nostalgia é o novo cool", afirmou Bertrand Pochet, gerente geral da Guerlain nos Estados Unidos.

Nem todas essas histórias são totalmente literais, já que algumas marcas usam referências históricas como inspiração. A Officine Universelle Buly, por exemplo, utiliza "1803" em seu nome, mas a empresa atual foi criada apenas em 2014. Já o número 1743 presente no brasão da Parfums de Marly faz referência ao período que inspirou a marca, não à sua fundação.

No fim, o tempo deixou de ser só uma etapa da produção. Em muitas marcas, ele virou também uma forma de mostrar valor: em um mercado com lançamentos cada vez mais rápidos, dizer que um perfume levou meses — ou até anos — para ficar pronto ajuda a passar a ideia de cuidado e dedicação ao produto. O tempo, nesse caso, quase funciona como um selo de qualidade.

"Luxo é comprar e investir em tempo", resume Pochet. "E isso define o que a perfumaria premium significa hoje".

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