Como uma empresa familiar do Paraná construiu um negócio de R$ 2 bilhões com MDF
Com as taxações para exportar para os Estados Unidos em 2025, o setor de madeira registrou queda de 55% nos três primeiros meses, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente.
Apesar do desafio, uma empresa do sul do Brasil registrou um crescimento de 12,9% em 2025 — com uma receita total de mais de R$ 2 bilhões. Trata-se da Guararapes, fundada em 1984, que focou na diversificação da linha de produtos em MDF, voltados principalmente para o mercado brasileiro.
“Atuar simultaneamente nos mercados interno e externo exige decisões rápidas, disciplina operacional e capacidade constante de adaptação”, diz Ricardo Pedroso, CEO da Guararapes.
Para 2026, o objetivo é manter a diversificação e a venda de produtos com valor agregado, o que deve contribuir para um crescimento na casa de dois dígitos.
Como a empresa começou
João Carlos Ribeiro Pedroso começou a vida empreendedora vendendo picolé. Um tempo depois, conseguiu uma vaga no mercado de madeira, em que era responsável por cortar árvores com motosserra nas florestas da região sul.
Seu chefe era Walderez Bertolin, que decidiu deixar o cargo para abrir uma empresa própria e propôs uma sociedade a João. Foi quando fundaram a Guararapes, em 1984, com apenas 15 colaboradores.
A produção inicial era de lâminas de madeira vendidas para fábricas que produziam compensado. “Começamos muito pequenos, produzindo cerca de uma carga por semana”, afirma Ricardo Pedroso, filho de João.
O primeiro ponto de virada veio em 1986, quando a empresa passou a produzir a própria madeira compensada — material feito de lâminas finas sobrepostas e coladas, usado principalmente na construção civil. A produção era realizada na cidade de Palmas, no Paraná.
Quatro anos depois, a empresa iniciou as exportações do compensado, que por décadas foi o principal produto da companhia.
Foi com a crise imobiliária dos Estados Unidos em 2009 que a empresa decidiu diversificar o negócio e investir na produção de MDF. A retração do mercado americano reduziu a demanda por compensado e levou a empresa a buscar novas frentes de atuação.
Ricardo Pedroso, atual CEO da companhia, cresceu acompanhando a evolução do negócio. Começou a trabalhar na empresa aos 16 anos, quando a operação ainda era pequena, e passou por diferentes áreas antes de assumir o comando.
Ele transitou pelas áreas industrial, administrativa e comercial, período em que acompanhou de perto a expansão e a profissionalização da companhia até chegar ao cargo de CEO em 2015.
“A empresa cresceu muito ao longo desses anos, e eu tive a oportunidade de acompanhar essa evolução de dentro”, diz.
Como a Guararapes está diversificando o portfólio
A primeira linha de MDF foi inaugurada em 2009, aproveitando a sinergia com a própria operação florestal da empresa. Parte da matéria-prima usada no processo já era gerada internamente. “Quando cortamos uma árvore de pinus, uma parte vai para o compensado e a parte mais fina, além de subprodutos do processo, pode ser aproveitada na produção de MDF”, diz o executivo.
A sustentabilidade também faz parte da estratégia da companhia. A empresa mantém programas de reflorestamento com pinus para garantir o abastecimento de matéria-prima renovável e possui certificações ambientais e florestais.
Na unidade mais recente de MDF, inaugurada em 2023, o processo produtivo funciona em circuito fechado de água, reutilizando a umidade retirada da madeira durante a produção.
Fábrica de MDF em Caçador (SC), com 500 mil m²
Desde então, a operação passou por sucessivas expansões. A capacidade inicial de 200 mil metros cúbicos por ano foi ampliada em 2016, quando a empresa inaugurou uma segunda linha e triplicou a produção para 600 mil metros cúbicos. Em 2023, uma nova ampliação elevou a capacidade para cerca de 1,14 milhão de metros cúbicos.
Hoje, o MDF responde por cerca de 75% da receita da Guararapes. O material é usado principalmente na indústria moveleira e em aplicações de decoração, enquanto o compensado segue mais ligado à construção civil e ao mercado externo.
A empresa também ampliou seu portfólio de produtos. Atualmente, conta com mais de 80 padrões e cerca de dez texturas de acabamento voltadas para arquitetura e design de interiores. Segundo Ricardo, a variedade ajuda a atender diferentes segmentos do mercado, desde arquitetos a empresas de mobiliário.
Além da diversificação de produtos, a Guararapes expandiu sua presença industrial. Hoje, opera duas fábricas de compensado — em Palmas (PR) e Santa Cecília (SC) — e uma planta de MDF em Caçador (SC).
Em quatro décadas, a companhia saiu de uma produção inicial de uma carga por semana para mais de 2,5 mil cargas expedidas por mês e ampliou o quadro de funcionários de 15 para mais de 2 mil colaboradores.
Os planos e desafios do setor
Segundo o CEO, parte desse avanço se deve à capacidade da empresa de reagir a períodos de instabilidade econômica. “Os momentos difíceis acabam nos tornando mais rápidos na estratégia e na execução. As dificuldades nos obrigam a agir com mais agilidade e a buscar novos caminhos”, afirma.
O desempenho de 2025 foi impulsionado principalmente pelo mercado interno, que compensou parte da retração das exportações após as tarifas impostas pelos Estados Unidos naquele período.
A diversificação entre mercados e produtos ajudou a equilibrar os resultados. Hoje, cerca de 60% das vendas da empresa são destinadas ao mercado brasileiro, enquanto o restante vai para exportação.
Para os próximos anos, a estratégia segue focada na ampliação do mix de produtos e na venda de itens com maior valor agregado. “Nosso desafio agora é melhorar o mix, recuperar margens e continuar crescendo”, diz Ricardo. A expectativa é manter um avanço de receita acima de dois dígitos.
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