Compra de material de construção dispara e indica mais obras em andamento

Por Letícia Furlan 26 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Compra de material de construção dispara e indica mais obras em andamento

O consumo de materiais de construção por construtoras e incorporadoras começou 2026 acima do nível observado nos últimos anos, sinalizando um início de ciclo mais aquecido para o setor. Nos dois primeiros meses do ano, tanto os insumos básicos quanto os de acabamento registraram alta relevante na comparação com 2024 e 2025.

O movimento reforça a leitura de um mercado imobiliário ainda resiliente, mesmo em um ambiente de juros elevados e crédito mais restrito.

Segundo levantamento do Ecossistema Sienge em parceria com a Abramat, o consumo de materiais de base — como cimento, areia, blocos e aço — atingiu média de 126 pontos no bimestre, acima dos 102 pontos de 2025 e dos 116,5 de 2024.

Já os materiais de acabamento, como tintas e revestimentos, chegaram a 176 pontos, bem acima dos 114,5 do ano passado.

O indicador considera janeiro de 2023 como base (100 pontos) e acompanha a evolução das compras a partir de milhões de notas fiscais emitidas pelo setor.

Acabamento puxa a alta

O desempenho mais forte veio dos materiais de acabamento, que seguem em patamar elevado mesmo após o pico observado em 2025. Para Gabriela Torres, gerente de inteligência estratégica do Sienge, o resultado combina fatores sazonais com decisões estratégicas das empresas.

“Mesmo com a desaceleração típica de início de ano, o consumo de 2026 ficou acima do registrado nos mesmos meses de 2025, 2024 e 2023”, afirma.

Em janeiro, o indicador marcou 130 pontos para materiais de base e 174 para acabamento. Já em fevereiro, os números foram de 122 e 178 pontos, respectivamente — consolidando um início de ano acima da média histórica.

O nível elevado de materiais de acabamento indica que obras iniciadas em ciclos anteriores estão chegando à fase final. “É mais um sinal de maturação do ciclo do que de novos começos”, diz Torres.

O avanço no consumo acompanha o desempenho recente do mercado imobiliário. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) mostram que 2025 terminou com 453 mil unidades lançadas, alta de 10,6% em relação ao ano anterior.

As vendas também se mantiveram em patamar elevado, acima de 100 mil unidades, mesmo com a taxa básica de juros em níveis altos.

Na prática, o aumento no consumo de materiais indica que obras seguem em ritmo ativo — e que novos projetos continuam saindo do papel. No caso dos insumos básicos, o movimento sugere início ou retomada de construções. “Materiais de base estão ligados às primeiras etapas da obra. Quando esse consumo cresce, indica novas construções começando ou retomadas relevantes”, afirma.

O que vem pela frente

Com o início do ciclo de queda de juros, a tendência é de reforço gradual desse movimento.

A redução do custo de capital tende a destravar novos projetos — ainda que com defasagem até o impacto nas obras. “A queda de juros melhora as condições de investimento e, ao longo do tempo, se traduz em aumento do consumo de materiais. Esse movimento não é imediato”, diz Torres.

Segundo ela, isso não significa necessariamente aumento de custos. Os preços seguem dinâmicas próprias, influenciados por fatores como câmbio e mercado internacional de commodities.

“Ou seja, a queda de juros tende a impulsionar o volume consumido, enquanto os preços seguem dinâmicas próprias de mercado”, afirma.

Para 2026, a expectativa é de mudança na composição do consumo. Segundo Paulo Engler, presidente da Abramat, a industrialização e a adoção de soluções sustentáveis devem ganhar espaço ao longo do ano.

A projeção é que os materiais de acabamento ultrapassem 30% de participação nas compras totais, refletindo um setor mais orientado à eficiência e à padronização.

O pano de fundo é claro: com juros ainda altos e pressão sobre o fluxo de caixa, eficiência deixou de ser diferencial — e passou a ser condição para operar.

“O consumo de materiais é um bom termômetro da atividade da construção, desde que analisado como tendência”, afirma Torres. Quando cresce de forma consistente, diz, indica aumento no volume de obras — seja em quantidade de projetos ou no porte das construções.

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