Conferência de Bonn termina com ataques à ciência, adaptação sem acordo e vazio da COP31
Ataques à ciência, impasse em adaptação climática e uma presidência da COP31 que parecia sem rumo: foi assim que a Conferência de Bonn terminou, deixando o caminho até a Turquia mais nebuloso e difícil do que o esperado.
A plenária final da 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC (SB64), conferência preparatória para a 31º Conferência do Clima da ONU em novembro, não tinha hora para acabar nesta quinta-feira, 18, e mostrou, mais uma vez, o custo do consenso num processo com mais de 180 países à mesa.
À EXAME, especialistas relataram um sentimento geral dentro da sala de negociação: frustração.
"Se ouvia que todos estavam desapontados e insatisfeitos que não chegamos a um acordo. O trabalho acumula para a COP31", destacou Claudio Angelo, coordenador de políticas internacionais do Observatório do Clima, que acompanhava o desfecho em Bonn.
O elemento mais inesperado não foi a falta de consenso na agenda espinhosa de adaptação climática, mas sim a batalha geopolítica que se travou contra a ciência.
"Ninguém esperava que a relação a narrativa climática virasse um objeto contencioso e de disputa", disse Ângelo.
Um item de agenda sobre o papel do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) expôs a resistência de alguns países ao limite de 1,5°C do Acordo de Paris, justamente o limiar que os relatórios do principal órgão científico da ONU sustentam ao documentar os impactos irreversíveis do aquecimento global.
O movimento foi protagonizado por China, Índia e Arábia Saudita. A tática: usar o processo do IPCC como veículo para questionar evidências científicas estabelecidas, como o limite do aumento de temperatura.
A Arábia Saudita, cuja economia depende das exportações de petróleo e gás, opôs-se à linguagem que expressava preocupação com o El Niño e resistiu a que o órgão da ONU fornecesse atualizações regulares sobre a ciência climática. A Índia, que ainda depende fortemente do carvão, foi além: sugeriu eliminar qualquer referência a "mudanças irreversíveis" dos textos de negociação.
Segundo o especialista do Observatório do Clima, o argumento apresentado pelos resistentes foi o de "aparência de equidade": os relatórios do IPCC não sairiam a tempo de representar a ciência dos países em desenvolvimento. Na prática, o efeito é outro.
"É uma briga para reinterpretar a ciência", diz Angelo.
A reação veio numa coalizão improvisada chamada de "Amigos da Ciência", encabeçada por diplomatas de Fiji, Nepal, União Europeia, Suíça, Serra Leoa e Panamá. Em uma sala lotada de negociadores, prometeram garantir que a tomada de decisões no processo climático continue baseada na "melhor ciência disponível".
Na plenária final, o confronto ficou bastante exposto. De um lado, ilhas vulneráveis, nações menos desenvolvidas e a União Europeia defendendo que a ciência deve guiar as decisões. Do outro, China e Índia, que também afirmam "defender as evidências científicas", mas com uma condição implícita: desde que ela considere suas realidades econômicas e seus modelos de desenvolvimento.
O resultado foi um encerramento de Bonn em que cada grupo reinterpretou o mesmo conceito a seu favor e nenhum consenso emergiu. Para o Cláudio, o episódio tem dimensão histórica: "Recuamos 30 anos."
O movimento chama ainda mais atenção depois do protagonismo inédito do Pavilhão da Ciência na COP30, em Belém, quando pela primeira vez a produção científica foi formalmente integrada às negociações climáticas da ONU. Na Conferência de Santa Marta, a ciência foi novamente para o centro das discussões de transição energética.
Adaptação travada
Se a ciência foi a surpresa amarga de Bonn, a adaptação foi o fracasso mais concreto. As negociações em torno da Meta Global de Adaptação (GGA), que define como os países vão se preparar para os impactos severos da crise climática, terminaram sem acordo. A Regra 16 foi invocada, transferindo o tema para a COP31.
O que isso significa na prática é duro: todo o trabalho técnico produzido durante a sessão é descartado e o tema "recomeça do zero" na próxima reunião. No caso, a bola segue para a COP31. "É o equivalente a apertar o botão de autodestruição do processo", frisou Cláudio.
Divergências sobre financiamento e sobre os indicadores da chamada Visão Belém-Addis impediram acordos nos pontos centrais. O resultado adia decisões que os países mais vulneráveis ao clima e os mesmos na linha de frente dos "Amigos da Ciência", mais precisam.
Impulso dos combustíveis fósseis, mas decisão adiada
A transição para longe dos combustíveis fósseis também saiu de Bonn com avanços parciais. A presidência brasileira da COP30 conduziu discussões sobre os "roadmaps" ou "mapas do caminho" de transição lançados como grandes legados da COP em Belém e o impulso construído pela Conferência de Santa Marta, realizado em abril, ajudou a manter o tema na mesa.
Mas as conversas terminaram sem uma decisão clara sobre como a eliminação gradual dos fósseis poluentes será incorporada às discussões oficiais da COP31. Para especialistas, a lacuna precisará ser resolvida pelas presidências de Turquia e Austrália antes de novembro.
Para agravar o desafio, os dois países presidentes da COP31 chegaram a Bonn sem prioridades políticas claras. A principal iniciativa apresentada foi uma meta de 35% de eletrificação global até 2035, no qual o formato ainda não está definido e cuja adesão segue incerta.
Enquanto isso, foi a presidência brasileira da COP30 liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago que continuou dominando as discussões em torno da Decisão Mutirão lançada em Belém.
"Ninguém acha que a COP de Antália vai mudar o mundo", afirmou Angelo. "Não há nada de vida e morte para ser debatido".
Entre os impasses, o que avançou
Apesar da frustração, nem tudo travou. Os países avançaram na operacionalização do Mecanismo de Transição Justa, instrumento central para garantir que a saída dos combustíveis fósseis não abandone trabalhadores e comunidades. O mecanismo deve se tornar operacional ainda este ano.
Nos bastidores, André Corrêa do Lago protagonizou uma jogada regimental: usou as regras da UNFCCC para pressionar pela criação de um item formal de financiamento na pauta da COP31, uma agenda que, sem a manobra, ficaria sem espaço de debate.
"Enquanto a dupla presidência turco-australiana ainda tenta se entender e se posicionar no tabuleiro, o que testemunhamos foi a continuidade da liderança brasileira", complementou Stela Herschmann, Especialista em Política Climática do Observatório do Clima.
Segundo especialistas, as lacunas de Bonn ainda precisarão ser enfrentadas pelas presidências de Turquia e Austrália antes da conferência climática em novembro. A Semana de Clima de Londres, na próxima semana, será o próximo teste.
No processo climático da ONU de difícil consenso, porém, nada é garantido. "Aqui, até o passado é difícil de prever", resumiu o coordenador do Observatório do Clima.
1/10 Museu das Amazônias: espaço de cultura pensado para ser um dos principais legados da COP30. Foca temas como meio ambiente, preservação e mudanças climáticas (Museu das Amazônias: espaço de cultura pensado para ser um dos principais legados da COP30. Foca temas como meio ambiente, preservação e mudanças climáticas)
2/10 Estação das Docas: inaugurada em 2000, é um dos principais pontos turísticos da cidade e esteve lotada durante todos os dias da COP30. Reúne restaurantes e terminal de passageiros (Estação das Docas: inaugurada em 2000, é um dos principais pontos turísticos da cidade e esteve lotada durante todos os dias da COP30. Reúne restaurantes e terminal de passageiros)
3/10 Porto Futuro: área portuária transformada em polo cultural como um dos legados da COP30 (Porto Futuro: área portuária transformada em polo cultural como um dos legados da COP30)
4/10 (Nova Doca: parque linear inaugurado após a revitalização de um trecho de 1,2 quilômetro da Avenida Visconde de Souza Franco. O projeto inclui o tratamento de um dos tantos canais que cortam a cidade)
5/10 Mercado de São Brás: o prédio foi inaugurado em 1911, no auge do ciclo da borracha, e reformado para a COP30 (Mercado de São Brás: o prédio foi inaugurado em 1911, no auge do ciclo da borracha, e reformado para a COP30.)
6/10 Ver-o-Peso: seu açaí com peixe frito continua sendo um ícone amazônico (Ver-o-Peso: seu açaí com peixe frito continua sendo um ícone amazônico)
7/10 Ver-o-Peso: mercado símbolo de Belém, foi parcialmente reformado para a COP30 e foi um dos destinos preferidos dos visitantes durante a conferência (Ver-o-Peso: mercado símbolo de Belém, foi parcialmente reformado para a COP30 e foi um dos destinos preferidos dos visitantes durante a conferência)
8/10 Mercado de São Brás: reúne 80 espaços gastronômicos e é um novo point de paraenses e turistas (Mercado de São Brás: reúne 80 espaços gastronômicos e é um novo point de paraenses e turistas)
9/10 Avenida Duque de Caxias: uma das vias reformadas para dar acesso ao Parque da Cidade e que fica de legado para Belém (Avenida Duque de Caxias: uma das vias reformadas para dar acesso ao Parque da Cidade e que fica de legado para Belém)
10/10 Porto de Outeiro: localizado a 20 quilômetros do centro de Belém, foi reformado para receber grandes navios durante a COP30 e será um hub de turismo para a Amazônia (Porto de Outeiro: localizado a 20 quilômetros do centro de Belém, foi reformado para receber grandes navios durante a COP30 e será um hub de turismo para a Amazônia)
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