Conflito no Irã: 3 pontos que preocupam o agro
O conflito entre Estados Unidos e Irã acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. Fertilizantes, fretes marítimos e exportações de milho estão no centro das preocupações — ainda que o cenário, por ora, seja marcado por incerteza, disseram analistas ouvidos pela EXAME.
Na manhã de sábado, 28, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Os bombardeios coordenados mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, mergulhando o Irã em instabilidade e desencadeando um conflito que pode envolver grande parte do Oriente Médio.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 2, que a ofensiva pode durar até cinco semanas.
“Já estamos bem à frente das nossas projeções de tempo, mas seja qual for o tempo, está tudo bem. Custe o que custar, nós sempre faremos e temos feito isso desde o início. Projetamos de quatro a cinco semanas, mas temos capacidade para ir muito além disso”, declarou em coletiva.
O Oriente Médio concentra 40% das exportações globais de ureia, 28% das de amônia e 29% das de Fosfato Diamônico (DAP), segundo Tomas Pernias, analista de fertilizantes da StoneX. O Irã, no centro do conflito, responde sozinho por 11% das exportações globais de ureia e 5% das de amônia.
Com a escalada da tensão, fornecedores retiraram ofertas do mercado, e já há relatos de alta entre US$ 30 e US$ 50 por tonelada no mercado físico, além de avanço de cerca de US$ 50 no mercado futuro da ureia.
Outro ponto crítico é o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o escoamento de fertilizantes. Navios passaram a evitar a região, o que pode gerar atrasos e pressionar custos logísticos. Segundo relatório da CZ app, da CZarnikow, trading de commodities, cerca de 33% da ureia global passa por Ormuz.
“O Brasil vai ter impacto limitado porque não está comprando ativamente nitrogênio neste momento, mas os preços possivelmente vão aumentar”, afirma Pernias. Ele ressalta que a relação de troca entre milho e ureia já está nos piores níveis dos últimos anos.
A relação de troca é um indicador que mede o poder de compra do produtor rural, comparando o preço do insumo com o valor recebido pelo grão.
Segundo a consultoria DATAGRO, os principais fornecedores de fertilizantes utilizados pelo Brasil estão localizados no Oriente Médio. O país importa cerca de 85% dos fertilizantes nitrogenados que consome, o que o torna altamente dependente do mercado externo.
Fretes marítimos e agro
Além dos fertilizantes, o conflito também atinge a logística global. O fechamento simultâneo do Estreito de Ormuz e da rota do Mar Vermelho/Suez levou armadores a suspender reservas, redirecionar navios e aplicar sobretaxas de risco entre US$ 3 mil e US$ 4 mil por contêiner, segundo levantamento da Czarnikow.
A situação é considerada mais grave do que crises anteriores no Oriente Médio devido ao bloqueio simultâneo de dois dos principais gargalos logísticos do mundo.
Ormuz — por onde passa cerca de um terço da ureia global, além de volumes expressivos de energia — está “efetivamente fechado”. Ao mesmo tempo, o tráfego pelo corredor do Mar Vermelho, Bab el-Mandeb e Canal de Suez foi interrompido por diversas companhias.
Empresas como Maersk, MSC, CMA CGM e Hapag-Lloyd suspenderam bookings para o Oriente Médio, desviando embarcações pelo Cabo da Boa Esperança. A mudança amplia o tempo de trânsito entre 10 e 20 dias e pressiona a disponibilidade de navios e contêineres.
Segundo a Czarnikow, a escassez já atinge especialmente os contêineres refrigerados (reefers), essenciais para o transporte de alimentos perecíveis e produtos farmacêuticos, aumentando o risco de gargalos nas cadeias globais.
Com rotas alteradas e cronogramas comprometidos, a confiabilidade das entregas diminui. A tendência, segundo o relatório, é de nova alta nas tarifas de frete, revertendo o cenário anterior de mercado mais acomodado para contêineres.
Milho no Brasil
Do lado das exportações, o Irã é atualmente o principal destino do milho brasileiro. Em 2025, o país importou cerca de 9 milhões de toneladas, o equivalente a 23% do total exportado pelo Brasil, consolidando-se como o maior comprador do grão nacional.
“É relevante para o mercado, mas hoje não temos como montar um cenário”, afirma Paulo Bertolini, presidente da Abramilho.
Ele lembra que, em conflitos anteriores, não houve interrupção no fornecimento por se tratar de alimento. “A população vai continuar consumindo”, diz.
O dirigente ressalta que o Brasil exporta milho para mais de 100 países e que a principal janela de embarques ocorre no segundo semestre. Neste momento, o mercado interno absorve boa parte da produção.
Caso o conflito se prolongue ou atinja portos e rotas de escoamento, os impactos podem se intensificar. Por ora, a palavra que resume o sentimento do setor, segundo Bertolini, é “incerteza”.
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