Conflito no Irã e petróleo volátil tornam solar e baterias ainda mais necessárias
Por Rodrigo Sauaia e Ronaldo Koloszuk, da Absolar
O cenário energético global voltou a ganhar tensão com a escalada do conflito envolvendo o Irã, que reacendeu preocupações sobre a volatilidade do petróleo e gás natural e seus impactos sobre a economia mundial e o processo de descarbonização.
Historicamente, choques geopolíticos costumam provocar aumento nos preços dos combustíveis fósseis e evidenciar a fragilidade na dependência de países e empresas de um modelo energético vulnerável a instabilidades externas.
Segundo os analistas de mercado, desde o início do conflito, o petróleo Brent, referência global, tem sido negociado a níveis nunca vistos em mais de 18 meses, variando entre 100 e 120 dólares o barril. Já o preço do gás natural atingiu uma elevação de mais de 40% no período, com picos diários de até 60%.
Nesse contexto, cresce a relevância de soluções capazes de reduzir riscos, ampliar a segurança energética e oferecer maior previsibilidade de custos.
É justamente neste ponto que a combinação entre energia solar e sistemas de armazenamento em baterias começa a se consolidar como uma das transformações mais importantes do setor elétrico global.
A rápida expansão dessas tecnologias tem redesenhado a forma como a eletricidade é produzida e consumida.
Não é a agenda ambiental que impulsiona as renováveis, mas sim o preço. A fonte solar fotovoltaica tornou-se a forma mais barata de geração de energia elétrica em grande parte do planeta, superando com ampla vantagem tecnologias fósseis, como carvão, gás e nuclear.
É exatamente essa competitividade que explica por que a solar é hoje a que mais cresce globalmente.
Nos EUA, apesar dos discursos contrários à transição energética, a energia solar foi a fonte que mais cresceu em 2025. Segundo estudo do instituto de pesquisa Ember, a geração fotovoltaica foi responsável por cerca de 61% da expansão da capacidade de geração de eletricidade naquele país em 2025.
O avanço da fonte solar foi suficiente para atender quase integralmente o crescimento do consumo de energia elétrica ao longo do período diurno e ainda contribuir durante a noite.
No ano, a geração solar cobriu todo o aumento da demanda entre 10h e 18h e, com a ampliação do uso de sistemas de armazenamento em baterias, também passou a suprir parte da elevação do consumo no horário noturno, entre 18h e 2h.
Fato é que a transformação renovável avança com força, no Brasil e no mundo, apesar da retórica. O motivo é pragmático e econômico: consumidores, empreendedores, produtores rurais e investidores buscam redução de custos e riscos, e a fonte solar está entregando exatamente estes atributos a eles.
O volume de recursos direcionados globalmente à transição energética alcançou um novo patamar em 2025. De acordo com dados da BloombergNEF, os investimentos somaram US$ 2,3 trilhões, um crescimento de 8% na comparação anual.
A maior parcela desse montante foi canalizada para fontes renováveis e para a modernização das redes elétricas, que juntas concentraram aproximadamente US$ 1,2 trilhão.
Esses segmentos são considerados estratégicos para sustentar a expansão do consumo de eletricidade, impulsionada, sobretudo, pela multiplicação de data centers e pelo avanço das aplicações de inteligência artificial.
Já as soluções de mobilidade elétrica — que englobam veículos elétricos e a infraestrutura de recarga — responderam por US$ 893 bilhões, com maior dinamismo nos mercados asiáticos e europeus.
Esse movimento está alinhado com avaliações recorrentes de organismos internacionais, que apontam a eletrificação de diferentes setores da economia como o principal motor da redução de emissões nesta década.
Pelo relatório da BloombergNEF, em termos regionais, a Ásia-Pacífico liderou os aportes, sendo responsável por quase metade dos investimentos globais em tecnologias de transição energética em 2025, com destaque para China, Índia e Japão.
Na União Europeia, os investimentos atingiram US$ 455 bilhões, avanço de 18% frente a 2024, refletindo tanto o cumprimento de metas climáticas quanto a estratégia de diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados após o conflito na Ucrânia.
Nos Estados Unidos, há uma exposição de tensões entre política e mercado. Mesmo com entraves regulatórios às renováveis, o país ainda registrou US$ 378 bilhões em investimentos verdes, um crescimento de 3,5% em relação a 2025. Apesar das incertezas políticas no país, a transição energética já se tornou uma dinâmica econômica difícil de ser revertida.
Além de mais baratas, as renováveis são mais rápidas de implementar, mais versáteis e muito mais democráticas. Permitem desde pequenos sistemas residenciais abastecendo uma casa na zona rural, no subúrbio ou em uma ilha remota, até grandes projetos suprindo a demanda de centros urbanos, complexos industriais e grandes produtores irrigantes.
O recurso solar está disponível em todo o mundo, reduzindo a concentração de poder, blindando pessoas e países contra a dependência de importação de combustíveis e ampliando sua autonomia e segurança energética.
O oposto do modelo fóssil, que é muito mais caro, centralizado, instável, sujeito a choques geopolíticos.
A antiga crítica contra a energia solar de que “o sol não brilha sempre para gerar energia 24 horas por dia” ficou ultrapassada.
O armazenamento de energia em baterias é a resposta técnica e econômica a esse desafio, uma realidade que cresce a passos largos em todo o mundo.
Combinado a investimentos em infraestrutura de redes e à complementaridade entre as diferentes fontes renováveis (água, sol, vento, biomassa, biogás), o sistema resultante torna-se mais seguro, mais resiliente e mais barato do que a dependência de termelétricas fósseis.
Neste contexto, o Brasil entra em campo com enorme vantagem competitiva. O País já possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com forte presença hidrelétrica, expansão robusta da energia solar e eólica e enorme potencial de biomassa e de biogás.
Em vez de enxergar a variabilidade das renováveis como problema, o Brasil tem a oportunidade de tratá-la como diferencial competitivo, como verdadeira solução sistêmica: renováveis crescendo de forma consistente e complementar, infraestrutura elétrica robusta e segura e baterias agregando flexibilidade, potência e confiabilidade ao sistema.
Tudo isso orquestrado por uma operação do sistema elétrico integrada, dinâmica, moderna e digitalizada.
Renováveis com baterias reduzem a volatilidade de preços, diminuem a dependência de despacho termoelétrico mais caro e poluente e aliviam o risco de crises hídricas se transformarem em crises tarifárias, com bandeira vermelha e mais inflação na economia.
No Brasil, isso não é detalhe, é estratégia. A transição energética é uma decisão econômica. A energia solar já mostrou a que veio. As baterias estão consolidando esse protagonismo.
E o Brasil tem tudo a ganhar neste cenário, se posicionando entre os líderes globais, desde que se mantenha nesta lógica de mercado, com o consumidor no centro das decisões.
*Rodrigo Sauaia é CEO da ABSOLAR e Ronaldo Koloszuk é Presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR.
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