Conheça a surfista brasileira que pode ter surfado a maior onda já registrada por uma mulher
Em Nazaré, região litorânea de Portugal, as ondas ultrapassam 30 metros de altura e se tornaram um dos maiores desafios do surf mundial. Foi ali, na Praia do Norte, em 13 de dezembro de 2025, durante o WSL Big Wave Challenge, que a brasileira Michelle des Bouillons encarou uma parede de água que pode ter entrado para a história: a maior onda já surfada por uma mulher.
Segundo um estudo técnico preliminar, a onda teria cerca de 24,99 metros de altura, superando ao recorde da brasileira Maya Gabeira, em 2020, quando surfou uma onda de 22,4 metros.
Se o recorde for confirmado em setembro, o feito marcará não apenas a carreira da atleta, mas também um novo capítulo para o surf feminino de ondas gigantes.
“Essa onda em Nazaré está sendo a mais marcante da minha vida. Meu objetivo é trazer esse recorde para o Brasil, e principalmente para nós mulheres,” diz Michelle des Bouillons à EXAME, durante evento realizado pela Sea-Doo em Ilhabela, São Paulo.
Veja a onda que 24,99 metros de altura que a brasileira Michelle des Bouillons encarou em Nazaré, Portugal:
Tudo começou com a primeira onda
A história de Michelle com o surf começou muito antes, praticamente antes mesmo de nascer.
“Eu adoro falar que já surfo desde quando estava dentro da barriga da minha mãe”, diz. “Minha mãe é surfista, meu pai é surfista e também fabrica pranchas. A fábrica ficava no quintal da nossa casa. Eu nasci nesse universo,” afirma.
Carioca, criada no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, Michelle começou a surfar ainda criança nas praias da região, como a Prainha. O esporte rapidamente deixou de ser apenas uma atividade familiar e virou projeto de vida.
“Eu sempre tive certeza de que ia viver por meio do surf”, afirma.
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Quando o Brasil ficou pequeno
Ainda jovem, Michelle começou a competir representando o Rio de Janeiro em campeonatos nacionais. Mas, quando chegou o momento de disputar competições internacionais, percebeu que o caminho não seria simples.
“Quando comecei a olhar para o circuito mundial, já não tive mais apoio dos patrocinadores. Eles queriam me bancar apenas nas competições do Brasil”, conta. “Aquilo não fazia sentido para mim. Eu queria evoluir.”
Sem apoio suficiente para continuar competindo internacionalmente e diante de um período com poucas competições no país, ela decidiu ampliar seus horizontes.
Estudou produção audiovisual e encontrou uma forma de unir duas paixões: o surf e a comunicação. A oportunidade surgiu como apresentadora no canal OFF, onde passou a trabalhar com conteúdo ligado ao universo do esporte e do mar.
“Eu também sempre tive uma queda por televisão, fotografia e câmera. Então consegui unir esses universos, sempre tendo o surf como âncora”, diz.
O encontro com as ondas gigantes
A virada na carreira aconteceu quando decidiu deixar o Brasil. Com dupla nacionalidade (brasileira e francesa), Michelle se mudou para Hossegor, na França, um dos centros do surf europeu.
Foi lá que teve contato mais próximo com o universo do big wave surfing, modalidade dedicada a ondas gigantes.
“Eu via a galera fazendo tow-in, usando moto aquática para entrar em ondas enormes, e eu ficava fora da água assistindo. Até que pensei: eu não quero ficar aqui vendo, eu quero estar ali”, afirma.
O momento decisivo veio durante um período de reflexão sobre sua carreira.
“Teve um dia em que parei para olhar minha trajetória de fora e pensei: está pouco, eu quero mais. Eu estava me sentindo vazia e precisava preencher esse espaço.”
A decisão foi clara: tentar o surf de ondas gigantes.
“Eu pensei: vou tentar. Se der certo, ótimo. Se não der, tudo bem, mas eu preciso tentar.”
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O trio das ondas gigantes
A surfista, que começou nas ondas cariocas, começou a treinar com especialistas da modalidade e formou uma equipe que se tornaria fundamental para sua evolução no esporte.
Ao lado dos brasileiros Ian Cosenza (que é marido de Michelle) e Lucas Chumbo, um dos maiores nomes do big surf mundial, ela encontrou apoio e confiança para enfrentar ondas cada vez maiores.
“Os dois sempre me deram muita coragem e confiança. Eu adoro dizer que formamos a melhor equipe do mundo”, afirma.
No surf de ondas gigantes, o trabalho é coletivo. O atleta não entra sozinho no mar. O sistema conhecido como tow-in utiliza motos aquáticas para lançar o surfista nas ondas e garantir o resgate em caso de queda.
“Quem vê de fora acha que o surfista está sozinho, mas não está. É um trabalho de equipe”, conta a surfista.
Ela compara o esporte a um ambiente de alta performance semelhante à Fórmula 1.
“A gente costuma comparar o tow-in com a Fórmula 1. Tem as máquinas, manutenção, logística, fisioterapia, psicólogo. Existe toda uma equipe por trás,” diz.
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Preparação para enfrentar monstros do mar
Encarar ondas gigantes exige anos de preparo físico e mental. Para Michelle, a equação para enfrentar um paredão de água de dezenas de metros envolve duas bases principais.
“Para mim são dois pilares: 50% é minha preparação física e 50% é confiar na minha equipe”, diz.
A confiança no time é fundamental em um esporte onde quedas podem representar riscos reais.
“Eu sei que se eu cair ou se acontecer alguma coisa, minha equipe vai estar lá para me salvar. Isso tira um peso enorme.”
Quando não está treinando em Nazaré, Michelle mantém a preparação no próprio Brasil.
“O Rio recebe muita ondulação. Não é gigante como Nazaré, mas tem muita potência. Então eu treino bastante no Rio e em Saquarema.”
A onda que pode entrar para a história
Depois de quase uma década dedicada ao big surf, modalidade que pratica desde 2017, Michelle pode ter alcançado o momento mais marcante de sua carreira.
A onda surfada em Nazaré em dezembro de 2025 pode se tornar a maior já registrada por uma mulher.
“Essa com certeza está sendo a onda mais marcante da minha vida”, afirma.
O recorde ainda passa por processos de medição e validação, comuns nesse tipo de marca histórica no surf.
Caso seja confirmado, o feito não será apenas individual.
“Meu objetivo é trazer esse recorde para o Brasil. E principalmente para nós mulheres.”
Os patrocínios que ajudam a surfista a ir mais longe
Michelle des Bouillons afirma que vive um momento positivo em relação aos patrocínios, que hoje ajudam a sustentar sua carreira no surf de ondas gigantes. A principal parceria é com a Sea-Doo, marca de motos aquáticas usadas na modalidade tow-in, essencial para enfrentar ondas gigantes como as de Nazaré.
“A Sea-Doo é a nossa grande patrocinadora, porque a principal ferramenta no tow-in é a máquina, a moto d’água”, afirma. Segundo ela, a tecnologia e a potência dos equipamentos são fundamentais para a segurança nas ondas extremas. “Com a Sea-Doo eu me sinto 100% confiante. São as máquinas mais potentes que existem.”
Além disso, a surfista conta com outras marcas apoiando sua carreira. “Graças a Deus eu estou numa fase muito boa de patrocínio. Tenho patrocínio da UOL, da LOK, da Yuki Brand, que é uma marca japonesa de wetsuit, além de outros apoios”, diz.
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Os sonhos dentro e fora do mar
Mesmo depois de enfrentar uma das maiores ondas do planeta em Nazaré, Michelle ainda tem o desejo de surfar outras duas ondas mais famosas do mundo do big surf: Jaws, no Havaí, e Teahupo’o, no Taiti.
“Essas três ondas são muito marcantes para qualquer big surfer: Nazaré, Jaws e Teahupo’o”, explica.
Mas seus planos não estão apenas no mar. Casada há oito anos, Michelle também pensa em um novo capítulo na vida pessoal.
“Eu quero muito ser mãe”, diz. “Muita gente fala que quando a mulher vira mãe a carreira acaba. Eu não concordo. Acho que pode até me dar ainda mais força.”
Para ela, mesmo quando esse momento chegar, o surf continuará fazendo parte de sua vida.
“Eu tenho um projeto de formar novos nomes femininos no big surf. Quero ajudar a abrir esse caminho para outras mulheres.”
Uma missão que, assim como as ondas gigantes, também promete deixar marcas profundas no esporte.
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