Consciência pode existir sem cérebro? Estudo desafia o que sabemos sobre a mente
A consciência pode não ser uma característica exclusiva da vida baseada na biologia terrestre. Um novo estudo sugere que experiências conscientes poderiam surgir em formas de vida alienígenas, organismos construídos a partir de químicas diferentes das encontradas na Terra e até em sistemas não biológicos suficientemente complexos.
A hipótese foi apresentada por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside (UC Riverside), nos Estados Unidos, e divulgada pela instituição em junho. No trabalho, os filósofos Eric Schwitzgebel e Jeremy Pober defendem que a consciência pode não depender necessariamente de cérebros ou tecidos biológicos semelhantes aos humanos.
Segundo os autores, a questão não é provar a existência de vida extraterrestre, mas investigar se a consciência depende necessariamente da mesma biologia encontrada em seres humanos e outros animais terrestres.
Consciência pode não depender da biologia terrestre
O estudo se baseia em uma ideia conhecida como "flexibilidade do substrato". O conceito propõe que determinadas propriedades podem existir em diferentes materiais físicos.
Uma xícara, por exemplo, pode ser feita de vidro, plástico ou metal e continuar desempenhando a mesma função. Da mesma forma, os pesquisadores sugerem que a consciência talvez não esteja ligada exclusivamente a neurônios, células nervosas e tecidos biológicos.
Na visão dos autores, a experiência consciente poderia emergir em diferentes tipos de sistemas, desde que eles apresentem a organização e a complexidade necessárias. "O universo pode conter mentes mais estranhas do que podemos imaginar", afirmou Schwitzgebel em material divulgado pela UC Riverside.
Vida alienígena pode assumir formas muito diferentes
A proposta também leva em consideração a enorme diversidade potencial do Universo. Astrônomos estimam que o Universo observável contenha aproximadamente um trilhão de galáxias, cada uma delas com bilhões de estrelas e planetas.
Diante dessa escala, os pesquisadores consideram plausível que inúmeras civilizações tenham surgido ao longo da história cósmica.
Além disso, cientistas que estudam astrobiologia já discutem há décadas a possibilidade de formas de vida baseadas em composições químicas diferentes das encontradas na Terra.
Segundo os autores, seria surpreendente imaginar que toda vida inteligente do Universo utilizasse exatamente os mesmos ingredientes biológicos que deram origem aos seres humanos.
O princípio copernicano da consciência
Os pesquisadores chamam sua proposta de "princípio copernicano da consciência". A ideia é inspirada pela história da astronomia.
Ao longo dos séculos, a ciência mostrou que a Terra não ocupa uma posição privilegiada no cosmos. O planeta não está no centro do Sistema Solar, o sistema planetário da Terra não está no centro da Via Láctea e nossa galáxia também não é o centro do Universo. Para os autores, a consciência pode seguir a mesma lógica.
Segundo eles, assumir que apenas organismos semelhantes aos humanos podem ser conscientes seria uma forma de "terrocentrismo", isto é, a tendência de considerar a vida terrestre como algo excepcional sem evidências suficientes para isso.
O que isso significa para a inteligência artificial?
O estudo também tem implicações para o debate sobre inteligência artificial. Os autores não afirmam que os sistemas atuais de IA sejam conscientes. No entanto, argumentam que, se a consciência não depende necessariamente da biologia humana, torna-se mais difícil descartar completamente a possibilidade de sistemas artificiais conscientes no futuro.
Para Schwitzgebel, o debate não deveria se limitar à pergunta sobre se computadores podem reproduzir exatamente a consciência humana. A questão mais ampla seria entender quais tipos de sistemas podem desenvolver experiências conscientes.
Embora a pesquisa não apresente evidências diretas de vida alienígena ou de inteligência artificial consciente, ela propõe uma mudança importante de perspectiva: a consciência pode ser um fenômeno mais amplo e menos dependente da biologia terrestre do que tradicionalmente se imaginava.
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