Consignado privado cresce, mas valor médio dos empréstimos cai 73%

Por Estela Marconi 22 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Consignado privado cresce, mas valor médio dos empréstimos cai 73%

Um ano após a entrada em vigor do novo modelo de crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada, o valor médio dos empréstimos caiu 73%, enquanto o número de contratos e de instituições financeiras participantes aumentou. Levantamento da Serasa Experian mostra que o tíquete médio passou de R$ 8,6 mil para R$ 2,3 mil no período.

Dados do Banco Central indicam que o volume mensal liberado na modalidade saltou de R$ 1,5 bilhão para quase R$ 11 bilhões após a implementação do programa. O estoque total de consignado privado passou de pouco mais de R$ 41 bilhões para R$ 110 bilhões entre 2025 e março deste ano.

O chamado crédito do trabalhador ampliou o acesso ao consignado para empregados com carteira assinada, trabalhadores domésticos, rurais e microempreendedores individuais (MEIs). A contratação passou a ser feita digitalmente pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital, sem necessidade de convênio entre empresa e banco. O limite de comprometimento da renda é de até 35% do salário.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), os juros médios da modalidade estão em 3,2% ao mês, abaixo de outras linhas de crédito, mas ainda superiores a 110% ao ano.

Concorrência cresceu e contratos ficaram menores

O estudo da Serasa Experian aponta que o prazo médio dos contratos recuou 48% desde a criação do programa. Ao mesmo tempo, o número médio de instituições financeiras ofertando crédito por empresa passou de quatro para 21.

Com a maior concorrência entre bancos, o número de novos contratos mais que dobrou, saindo de cerca de 11 mil para mais de 25 mil operações no período analisado.

“O primeiro ano do programa mostrou que existia uma demanda reprimida entre trabalhadores CLT, ao mesmo tempo em que exigiu das instituições financeiras uma adaptação para ofertar crédito em um ambiente mais amplo e competitivo”, afirmou Délber Lage, CEO da SalaryFits, empresa da Serasa Experian especializada em gestão de benefícios com desconto em folha.

Inadimplência avança e preocupa

Apesar da expansão do crédito, os indicadores de endividamento acenderam um alerta. Segundo a pesquisa, 78% dos trabalhadores que contrataram o novo consignado já comprometem mais de 81% da renda com empréstimos e outras obrigações financeiras.

Dados do Banco Central mostram que a inadimplência na modalidade aumentou de 4,9% para 6,6% entre novembro de 2025 e março de 2026.

“À medida que o consignado passa a fazer parte da rotina financeira de mais trabalhadores, cresce também a importância de planejamento e educação financeira para garantir decisões mais conscientes na contratação do crédito”, disse Lage.

O avanço ocorre em um cenário de endividamento recorde no país. Em março, o Brasil registrou 82,8 milhões de inadimplentes, o equivalente a cerca de 49% da população adulta. Entre as principais causas das dívidas estão o cartão de crédito e o atraso no pagamento de contas básicas, como água, luz, gás e telefone.

Outro dado do levantamento mostra que a maior parte das contratações ocorreu entre trabalhadores com menor acesso histórico ao crédito. Segundo a Serasa, 86% dos empréstimos foram concedidos a pessoas nas faixas mais baixas de score de crédito, enquanto apenas 21% dos tomadores tinham pontuação superior a 600.

O estudo analisou 191.798 contratos de consignado privado realizados por trabalhadores de 88 empresas, envolvendo 61 instituições financeiras e operações contratadas até abril de 2026.

*Com O Globo

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