Construtoras resistem aos juros altos e surpreendem no 1º trimestre
O setor de incorporação imobiliária brasileiro encerrou o primeiro trimestre de 2026 com resultados operacionais resilientes, avaliam os analistas do Safra. Eles apontam que, apesar do cenário macroeconômico adverso — agravado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio e pela manutenção de juros restritivos —, a maioria das construtoras apresentou números acima ou em linha com as expectativas dos analistas.
O desempenho foi sustentado, em grande parte, pelo programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). No segmento de "baixa renda", as vendas líquidas das construtoras analisadas pelo Safra cresceram 14% na comparação anual, com velocidade de vendas (indicador conhecido como VSO, ou vendas sobre oferta) de 24,6%. A maior surpresa positiva ficou com a Tenda, cujas vendas superaram em 11% a estimativa do Safra e registraram expansão de 41% frente ao mesmo período do ano anterior. A Direcional também entregou resultado levemente acima do esperado, com geração de caixa recorrente crescendo de forma consistente.
Nem todas performaram tão bem
Nem todas as empresas do segmento, porém, trouxeram boas notícias. Na avaliação do Safra, a Plano & Plano decepcionou: registrou queda de 3 pontos percentuais na velocidade de vendas e deterioração no fluxo de caixa livre. Já a Cury, apesar de crescimento de 10% nas vendas líquidas, teve sua fatia de vendas reduzida em 1% por conta de uma maior participação de projetos com sócios minoritários no mix, o que puxou levemente o indicador consolidado para baixo.
O cenário deve melhorar nos próximos meses. O Safra destaca que novos incentivos do MCMV estão previstos para entrar em vigor até o fim de abril, com elevação dos tetos de renda e dos preços máximos para as faixas 3 e 4 do programa. A medida deve levar a acessibilidade dos compradores a níveis recordes — e também ajudar as construtoras a absorver eventuais pressões de custos ligadas ao aumento do preço do petróleo e do frete.
Destaques no médio e alto padrão
No segmento de médio e alto padrão, o quadro é mais misto. Os lançamentos recuaram 12% na comparação anual, mas as vendas líquidas surpreenderam para cima, com expansão de 23% — três pontos percentuais acima do que o Safra projetava. A absorção média dos lançamentos foi forte, em torno de 41%, e as vendas de estoque se mantiveram resilientes, derrubando o nível total de estoques em 2% na comparação com o trimestre anterior, para R$ 23,8 bilhões.
Mesmo assim, o acúmulo de estoques ao longo dos últimos trimestres — que cresceu 28% na comparação anual — segue pressionando as velocidades de venda das construtoras. O VSO consolidado do segmento ficou em 15,6%, queda de 1,3 ponto percentual frente ao primeiro trimestre de 2025, ainda que dois pontos acima da estimativa do banco.
Os destaques positivos do segmento foram Moura Dubeux e Eztec, com crescimento de vendas de 86% e 81%, respectivamente. A Cyrela entregou números razoáveis, embora o bom desempenho no MCMV tenha sido parcialmente ofuscado por velocidades de vendas mais fracas nas linhas de maior renda. Even e Lavvi, que não realizaram lançamentos no trimestre, viram suas vendas e velocidades recuarem de forma mais acentuada como consequência direta dessa ausência.
No geral, o Safra mantém visão construtiva sobre o setor. A casa recomenda compra para oito das dez empresas cobertas, com destaque para Cury, com preço-alvo de R$ 50, e Tenda e Cyrela, ambas com alvo de R$ 41. MRV e Even são as únicas classificadas como neutras, com preços-alvo de R$ 11 e R$ 9, respectivamente.
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