Copa começa sob sombra da imigração: árbitros, atletas e jornalistas enfrentam barreiras nos EUA

Por Estela Marconi 9 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Copa começa sob sombra da imigração: árbitros, atletas e jornalistas enfrentam barreiras nos EUA

A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou, mas já enfrenta um desafio fora das quatro linhas: as políticas migratórias dos Estados Unidos.

Casos envolvendo a negativa de entrada a um árbitro escalado para o torneio, dificuldades para obtenção de vistos e restrições impostas a delegações estrangeiras colocaram o sistema de imigração americano no centro das atenções às vésperas da abertura do Mundial.

O episódio mais simbólico ocorreu com Omar Abdulkadir Artan, que seria o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma Copa do Mundo. Apesar de ter sido incluído na lista oficial da Fifa em abril, Artan teve a entrada nos Estados Unidos negada e foi retirado do torneio.

Segundo o governo somali, o árbitro possuía visto válido. A Fifa afirmou que não interfere em processos migratórios dos países-sede e informou ter sido comunicada pelas autoridades americanas de que a situação não será revertida.

“Negar-lhe a entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de arbitrar partidas agendadas prejudica não apenas a sua pessoa, mas também mina o compromisso do futebol com a justiça, o mérito e o espírito do jogo limpo”, afirmou Clise Aden Abshir, conselheiro do Ministério dos Esportes da Somália.

Casos se acumulam antes do início do torneio

No fim de semana, um fotógrafo que acompanhava a seleção do Iraque teve a entrada negada nos Estados Unidos ao desembarcar em Chicago. Segundo a agência de fronteiras americana, ele foi considerado inadmissível por razões protegidas pela legislação do país.

No mesmo voo, o atacante iraquiano Aymen Hussein passou sete horas retido para inspeções adicionais antes de ser liberado.

A delegação do Haiti também enfrentou dificuldades. O meia Woodensky Pierre conseguiu obter o visto apenas dias antes da competição, enquanto outros integrantes da equipe ainda aguardam definições sobre a autorização para viajar.

Nenhuma seleção enfrenta um cenário tão complexo quanto o Irã.

O país está entre os mais afetados pelas restrições migratórias impostas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e atravessa uma crise diplomática profunda com Washington após os confrontos recentes envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.

Embora os vistos dos jogadores tenham sido emitidos, a delegação iraniana não poderá permanecer em território americano durante a fase de grupos.

A equipe ficará baseada em território mexicano, na cidade de Tijuana, e viajará aos Estados Unidos apenas para disputar as partidas. Após cada jogo, os atletas precisarão retornar imediatamente ao México.

Autoridades iranianas classificaram as medidas como uma forma de interferência política no esporte.

Fifa enfrenta limites diante das decisões dos países-sede

Embora organize o torneio, a entidade não tem controle sobre políticas de imigração adotadas pelos países anfitriões.

O problema também afeta jornalistas e profissionais de mídia. Na semana passada, a Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) enviou uma carta à Fifa relatando dificuldades enfrentadas por jornalistas do Irã e de países africanos para obter vistos.

Em resposta, a entidade afirmou que questões de entrada nos países-sede dependem exclusivamente das autoridades consulares e migratórias.

Copa se torna palco de debate sobre imigração

A realização da Copa nos Estados Unidos ocorre em um momento de endurecimento das políticas migratórias americanas. Além das restrições de vistos para determinados países, agentes do serviço de imigração (ICE) participarão do esquema de segurança do torneio.

O tema ampliou o debate sobre quem conseguirá participar presencialmente da competição, seja como atleta, árbitro, jornalista ou torcedor.

Para especialistas, a Copa de 2026 passou a representar o encontro entre dois temas centrais do momento: a globalização do esporte e o fortalecimento das barreiras migratórias.

*Com O Globo

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