Copa do Mundo 2026: por que o estádio mais caro do mundo ainda não tem grama
LOS ANGELES — O estádio mais caro do mundo custou US$ 5,5 bilhões, tem 69 mil assentos, cobertura futurista, sistema de som que faz tremer o chão e luminárias de LED que imitam o sol. Mas o que ele não tem, a 56 dias de receber o primeiro jogo dos Estados Unidos na Copa do Mundo, é grama. Nenhuma. Zero.
Nesta quinta-feira, 16, a EXAME visitou o estádio. Por aqui, um campo de concreto marca o lugar onde daqui a pouco vai jogar a seleção americana contra o Paraguai. E o mais impressionante é que, apesar do susto inicial, tudo está dentro dos planos dos organizadores.
Bem-vindo à Copa do Mundo 2026, onde construir o campo de jogo é o maior quebra-cabeça esportivo do planeta — e onde sete dos onze estádios americanos têm o mesmo problema: precisam arrancar o chão de plástico que serve ao futebol americano e instalar grama de verdade antes que Messi, Mbappé, Vini Jr. e companhia pisem nele.
O problema de ser rico — e sem grama
O SoFi Stadium é, oficialmente, o estádio mais caro já construído no mundo. O MetLife Stadium, em Nova Jersey — onde será a final da Copa —, por exemplo, custou US$ 1,6 bilhão.
O Mercedes-Benz, em Atlanta, outros US$ 1,6 bilhão. O SoFi, por sua vez, é 3,4 vezes mais caro do que o segundo lugar. Em reais, na cotação atual, o preço chega a R$ 27,5 bilhões.
E mesmo assim, na quarta-feira, 15, trabalhadores ainda estavam removendo a última seção de assentos desmontáveis para abrir espaço para a construção do campo. A grama, cultivada em fazendas no estado de Washington, vai chegar de caminhão refrigerado rastreado minuto a minuto só em junho.
O motivo de tudo isso é o futebol americano, já que o SoFi foi construído especificamente para o esporte. O campo da NFL tem 54 jardas de largura, enquanto a Fifa exige 74. São 20 jardas a mais de cada lado — espaço que só aparece quando centenas de cadeiras são temporariamente retiradas.
SoFi Stadium: estádio do primeiro jogo dos EUA se prepara para estreia em junho (Tamires Vitorio/Exame)
Além disso, o gramado artificial dos Rams e dos Chargers precisa dar lugar a um híbrido de grama natural e fibras sintéticas, montado em camadas como um bolo, elevado 75 centímetros em relação ao nível atual, com sistema de drenagem a vácuo, irrigação própria e luminárias de LED ligadas até 18 horas por dia para que a grama "pense" que está ao ar livre.
Trinta funcionários (o dobro do necessário para um campo de futebol americano) vão cuidar do gramado durante toda a Copa. Haverá rolos reserva cultivados no estacionamento do estádio, prontos para emergências. Porque, sim, o plano B para a Copa do Mundo é literalmente ter grama no estacionamento.
O SoFi não está sozinho
Nos EUA, o SoFi não é o único estádio com esse problema. Doss 11 estádios americanos escolhidos para a Copa, sete têm gramado artificial. Todos precisam passar pela mesma cirurgia de troca de campo. A diferença é que cada um está em um estágio diferente e tem um cronograma específico.
O Gillette Stadium, em Foxboro, Massachusetts, já saiu na frente. A instalação começou no dia seguinte ao rali de despedida do Super Bowl do Patriots, em 1º de fevereiro. O processo todo levou cerca de seis semanas e a instalação da grama durou cinco dias. Em março, o estádio já recebia um amistoso entre Brasil e França no novo gramado.
O SoFi, por outro lado, está na fila da instalação em junho, a semanas do primeiro apito. Alguns estádios, como Atlanta, vão instalar o campo meses antes e cuidar dele como um gramado permanente.
Outros planejam instalar seus campos no início de junho. O SoFi está nesse segundo grupo. Segundo os responsáveis, o campo deve começar a parecer um gramado de futebol em cerca de um mês — o que colocaria o estádio pronto a 28 dias da abertura do torneio.
É uma aposta cara. Mais especificamente uma aposta de US$ 5,5 bilhões.
Isso já aconteceu antes — e foi pior
Antes de entrar em pânico, vale lembrar: atraso em estádio de Copa do Mundo é quase uma tradição.
No Brasil, em 2014, a Arena Corinthians em São Paulo — palco do jogo de abertura — não estava terminada na primavera de 2014. Arquibancadas temporárias foram instaladas para cumprir as promessas de capacidade.
Como em quase todos os outros estádios, a construção apressada levou a custos inflados. O estádio abriu na última hora, mas o primeiro jogo aconteceu sem maiores problemas.
No Catar, em 2022, os oito estádios foram entregues relativamente no prazo, mas o país precisou construir todos do zero em pleno deserto, com ar-condicionado, às vezes a metros do mar e usando trabalhadores em condições que geraram uma crise humanitária internacional.
A Fifa, aliás, tem um manual para isso. Desde 2019, uma equipe de pesquisadores das universidades do Tennessee e do Michigan State viaja o mundo testando gramados com uma máquina patenteada que simula a pisada de um jogador de futebol.
Eles testaram provavelmente 125 estádios, incluindo vários na Inglaterra, e definiram os campos do Arsenal e do Aston Villa como o padrão ouro. Tudo isso para garantir que nenhum jogador escorregue em um tapete de plástico mal colocado.
O estádio que já viu de tudo
Antes de virar campo de Copa, o SoFi já foi muita coisa. O terreno foi hipódromo por 75 anos, o Hollywood Park, de 1938 a 2013. Depois, virou o projeto esportivo mais caro da história americana.
A inauguração oficial seria em julho de 2020, com dois shows de Swift, mas a pandemia fez com que os planos fossem atrasados por alguns anos.
Quando Swift finalmente chegou, em 2023, foram seis noites seguidas de apresentações, com 420 mil pessoas presentes ao todo e um impacto de US$ 320 milhões no Produto Interno Bruto (PIB) do Condado de Los Angeles. Além do lado econômico, os shows foram tão intensos que pesquisadores do Caltech instalaram sensores sísmicos no estádio e detectaram 43 das 45 músicas como tremores de terra.
A agenda do SoFi não acaba por aí. Em 2022, o estádio recebeu o Super Bowl LVI. Em 2028, vai receber as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Los Angeles — e o campo vai virar uma piscina olímpica.
Então, vai dar tempo?
Provavelmente sim. A Copa começa em 11 de junho, no México. O primeiro jogo dos EUA, no SoFi, é em 12 de junho. A grama chega no mesmo mês. Os organizadores dizem que esse é o plano desde o início — e que a grama estará pronta, enraizada e no padrão Fifa quando o árbitro apitar.
Resta torcer. Ou, no caso do SoFi, regar.
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