Corajosos, tímidos, sociáveis: a ciência confirma que animais têm traços individuais

Por Maria Luiza Pereira 9 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Corajosos, tímidos, sociáveis: a ciência confirma que animais têm traços individuais

Por muito tempo, a ciência evitou atribuir traços de personalidade aos animais por receio de antropomorfizar seus comportamentos.

Hoje, porém, pesquisadores acumulam evidências de que muitos animais apresentam características individuais estáveis, comparáveis ao que chamamos de personalidade nos seres humanos.

A revista Popular Science reuniu descobertas de décadas de pesquisas em comportamento animal.

Os estudos mostram que diferenças consistentes entre indivíduos são observadas em mais de uma centena de espécies, incluindo mamíferos, aves, peixes, insetos e até aracnídeos.

As primeiras experiências deixam marcas duradouras

O ambiente em que um animal cresce exerce um papel fundamental na formação de sua personalidade.

Assim como acontece com os seres humanos, as experiências vividas nos primeiros momentos da vida podem influenciar comportamentos que serão carregados por muitos anos.

Segundo a pesquisadora Alison Bell, os animais são profundamente afetados pelo ambiente em que vivem durante a infância. "Eles são influenciados por suas primeiras interações com os pais e irmãos", afirma.

Esse efeito costuma ser mais fácil de perceber em animais de estimação. Cães resgatados de situações de abandono ou maus-tratos, por exemplo, frequentemente mantêm traços comportamentais relacionados a essas experiências.

"Animais de estimação que vêm de abrigos ou que sofreram maus-tratos não esquecem isso. Isso deixa marcas profundas", diz Bell.

Embora seja comum associar esse tipo de impacto emocional a cães e gatos, o mesmo princípio vale para animais selvagens.

Um esquilo que recebeu poucos cuidados maternos, por exemplo, também pode carregar consequências comportamentais dessa experiência ao longo da vida. "Este princípio certamente se aplica a outros organismos", destaca a pesquisadora.

A genética influencia, mas não explica tudo

A herança genética tem um papel importante na personalidade animal, mas está longe de ser a única responsável pelas diferenças entre indivíduos.

De acordo com Bell, os estudos indicam que os fatores genéticos respondem por cerca de 35% da personalidade dos animais, proporção muito semelhante à observada em seres humanos.

Para o psicólogo Samuel Gosling, uma das vantagens dos estudos com animais é a possibilidade de separar com maior precisão os efeitos da genética e do ambiente.

Em algumas pesquisas, por exemplo, cientistas transferem ovos de aves para outros ninhos e acompanham o desenvolvimento dos filhotes para identificar quais características foram herdadas geneticamente e quais surgiram a partir da criação recebida.

"Graças ao controle experimental que os estudos com animais proporcionam, nossas estimativas desses efeitos podem ser muito mais precisas do que em humanos", explica Gosling. "Em humanos, temos que lidar com eles no mundo real, com suas complexidades."

Ainda assim, apontar um único fator como predominante seria simplificar demais a questão.

"Esses estudos mostraram que existem fatores genéticos, fatores ambientais, fatores biológicos não genéticos e todo tipo de outras coisas que influenciam a personalidade dos animais", afirma o pesquisador.

Cada espécie desenvolve sua própria forma de personalidade

A personalidade também é moldada pelas exigências evolutivas de cada espécie. Bell, que é bióloga evolucionista, busca entender quais comportamentos são mais relevantes para a sobrevivência e o sucesso de diferentes animais.

"O que me interessa é saber quais comportamentos os animais têm que são realmente muito importantes para aquela criatura em particular, para aquela espécie?", explica.

Ela cita o exemplo dos papagaios. Para compreender sua personalidade, é preciso considerar fatores como alimentação, predadores, habitat, ameaças e oportunidades encontradas ao longo da vida. "Se eu estiver estudando um papagaio, o que será importante é a comida que ele come, os predadores que ele pode encontrar, as ameaças que enfrenta, as oportunidades que tem e o seu habitat."

Por isso, os traços mais relevantes para um papagaio podem ser completamente diferentes daqueles observados em peixes, baleias ou cupins. "Isso será diferente para um papagaio em comparação com um peixe, em comparação com uma baleia, em comparação com um cupim", ressalta Bell.

A personalidade pode mudar, mas mantém uma assinatura própria

Embora a personalidade não seja completamente fixa, ela tende a apresentar uma notável estabilidade ao longo da vida.

Bell explica que muitos animais mantêm uma espécie de "assinatura comportamental" desde a juventude até a fase adulta. Em estudos com peixes-espinho, sua equipe observou que indivíduos mais propensos a correr riscos continuavam demonstrando essa característica em diferentes momentos. "Podemos medi-los repetidamente e descobrir que os indivíduos que assumiram riscos ontem também serão os mesmos amanhã e no mês que vem", afirma.

Isso não significa, porém, que a personalidade seja imutável. Experiências acumuladas ao longo da vida podem provocar mudanças importantes. "Novos ambientes, interações sociais e até mesmo mudanças na saúde podem influenciar o comportamento", diz Bell.

Os pesquisadores ainda não sabem ao certo se os animais mudam mais ou menos do que os seres humanos com o passar dos anos. Para Gosling, não há motivos teóricos para acreditar que uma das duas possibilidades seja necessariamente verdadeira.

O maior obstáculo pode ser a nossa própria percepção

Curiosamente, um dos desafios para compreender a personalidade animal pode estar menos nos animais e mais nos seres humanos. Segundo Bell, aceitar que outras espécies possuem personalidades exige rever duas ideias profundamente enraizadas: a de que os humanos são totalmente excepcionais e a de que os animais seriam muito mais simples do que realmente são.

"Ambas as coisas precisam acontecer, e acho que isso desafia o pensamento convencional", afirma.

Mesmo diante de um número crescente de evidências científicas, muitas pessoas ainda demonstram surpresa ao descobrir que animais apresentam características individuais tão marcantes.

Para Bell, essa reação talvez revele mais sobre nossa própria visão de mundo do que sobre os animais em si. "O que mais me surpreende é o quão surpreendente isso é para as pessoas", conclui.

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