Creatina pode ajudar no tratamento da depressão? Estudo traz novas evidências

Por Vanessa Loiola 1 de Julho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Creatina pode ajudar no tratamento da depressão? Estudo traz novas evidências

A creatina, suplemento conhecido por melhorar o desempenho muscular, também pode ter potencial para auxiliar no tratamento da depressão. Uma nova revisão científica encontrou indícios de benefício em alguns pacientes, mas concluiu que as evidências ainda são inconsistentes e insuficientes para recomendar seu uso com essa finalidade.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Ottawa e publicado na revista científica Brain Medicine. A revisão analisou cinco ensaios clínicos randomizados que investigaram o uso da creatina em pessoas com transtornos depressivos.

O que a revisão descobriu

Em vez de realizar um novo experimento, os pesquisadores reuniram e avaliaram os resultados de estudos clínicos já publicados. Ao todo, a revisão incluiu cinco ensaios clínicos randomizados, envolvendo 238 participantes, dos quais 126 receberam creatina e 112 receberam placebo. Os estudos foram realizados na Coreia do Sul, Estados Unidos, Brasil, Israel e Índia.

Quatro pesquisas envolveram pessoas com transtorno depressivo maior, enquanto uma avaliou pacientes com transtorno bipolar durante episódios depressivos.

Como havia diferenças importantes entre os estudos, como as doses utilizadas, duração do tratamento e perfil dos participantes, os pesquisadores analisaram cada ensaio separadamente, sem combinar todos os resultados em uma única análise estatística.

Resultados foram positivos em alguns estudos, mas não em todos

Dois dos cinco ensaios encontraram benefícios da creatina. Ambos envolveram mulheres com transtorno depressivo maior. Em um deles, participantes que receberam cinco gramas diárias de creatina junto com o antidepressivo escitalopram apresentaram uma redução maior dos sintomas após oito semanas em comparação com o grupo placebo, além de uma taxa mais elevada de remissão.

Outro estudo observou melhora adicional quando a creatina foi associada à terapia cognitivo-comportamental.

Os três estudos restantes, porém, não encontraram diferenças significativas entre creatina e placebo. Entre eles estavam pacientes com depressão resistente ao tratamento, adolescentes e pessoas com transtorno bipolar.

Como a creatina pode agir no cérebro

A hipótese dos pesquisadores está relacionada ao papel da creatina na produção de energia celular.

A substância participa da regeneração do ATP (trifosfato de adenosina), principal fonte de energia das células. Embora seja mais conhecida por sua atuação nos músculos, esse sistema também é essencial para o funcionamento do cérebro.

Estudos anteriores já haviam identificado alterações no metabolismo da creatina cerebral em pessoas com transtornos de humor. Além disso, a substância pode influenciar neurotransmissores como serotonina e dopamina, envolvidos na regulação do humor.

Há riscos?

De modo geral, os estudos incluídos na revisão relataram poucos efeitos adversos. Os eventos mais comuns foram leves, como desconforto gastrointestinal.

Entretanto, dois participantes com transtorno bipolar desenvolveram episódios de hipomania ou mania durante o tratamento com creatina. Segundo os pesquisadores, isso indica que o suplemento pode produzir efeitos diferentes dependendo da condição clínica do paciente.

Por que os cientistas pedem cautela?

Apesar dos resultados, os autores destacam que os estudos disponíveis apresentam limitações importantes. Além do número reduzido de participantes, a maioria dos voluntários era do sexo feminino, e parte dos ensaios apresentou limitações metodológicas que podem afetar a confiabilidade dos resultados.

Por isso, a revisão conclui que ainda não há evidências suficientes para recomendar a creatina como tratamento para depressão. Os pesquisadores defendem a realização de estudos maiores, com acompanhamento mais longo, diferentes doses do suplemento e populações mais diversas para esclarecer quais pacientes poderiam realmente se beneficiar da suplementação.

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