Crise imobiliária na Suíça mobiliza apoio para limitar população

Por Matheus Gonçalves 24 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Crise imobiliária na Suíça mobiliza apoio para limitar população

A Suíça passa por sua pior crise imobiliária desde 2014, com inquilinos em potencial enfrentando suas piores chances em mais de uma década, alerta o Escritório Federal Imobiliário do país (FOH, na sigla em inglês). E, com base nas tendências dos anos anteriores, o FOH também duvida que a oferta e a demanda por moradia voltem a um equilíbrio em 2026.

“A melhoria da situação para quem procura alojamento depende essencialmente do crescimento do número de domicílios. Em 2026, prevê-se que este número se mantenha num patamar semelhante ao do ano anterior”, explicaram os especialistas do gabinete de habitação ao jornal suíço Swiss Info.

A crise vem, em grande parte, devido ao crescimento populacional da Suíça, que vem registrando um aumento constante nos últimos anos: em 2022, o número de residentes permanentes aumentou 0,83% em relação ao ano anterior, 1,26% no ano seguinte e, apesar de uma leve queda de 0,4% de 2023 para 2024, a cifra voltou a subir em 2025, com um aumento de 0,6%.

Atualmente, o número é de mais de 9 milhões de habitantes, muitos dos quais são estrangeiros, a maior cifra já registrada, segundo a plataforma de análise demográfica Macro Trends.

Isso suscita preocupações entre residentes suíços, que sentem que o mercado imobiliário e a infraestrutura pública estão sendo sobrecarregados por uma população muito grande para o país, cujo território é cerca de 6 vezes menor que o estado de São Paulo. Esses medos mobilizam apoio a um controverso referendo que visa limitar a população suíça, cuja votação ocorrerá no mês que vem.

A medida, proposta pelo partido de direita Swiss People's Party (SVP, na sigla local), visa estabelecer um limite de 10 milhões de habitantes até 2050 e ameaça pôr fim ao acordo de livre movimentação do país com a União Europeia, origem da maioria dos imigrantes.

O projeto conta com significativo apoio da população suíça, um país tradicionalmente conservador: "Dez milhões seria um desastre", disse à Reuters Erika Hermann, de 63 anos, vendedora aposentada e apoiadora da iniciativa. "É gente demais para a Suíça."

Ruim para os negócios, bom para o povo

Vista aérea da pequena cidade tradicional de Davos, na Suíça, onde acontece o Fórum Econômico Mundial. Cidadãos de cidades e vilas assim temem perder seu estilo de vida com o crescimento populacional implacável (GanzTwins/Getty Images)

A proposta, todavia, suscita alertas no mundo corporativo. Se o referendo do mês que vem passar, o acordo de livre movimentação com a UE é apenas um dos tratados em risco, já que o bloco, de longe o parceiro comercial mais importante da Suíça, pode retaliar com consequências econômicas que seriam graves para o país.

Alguns críticos comparam ainda o referendo à votação do Brexit no Reino Unido, há uma década, já que a liberdade de circulação é fundamental para o acesso da Suíça ao mercado único europeu, o que preocupa principalmente empresários e executivos.

Grupos empresariais afirmam que isso poderia dificultar o acesso da Suíça à mão de obra, país em que mais de um em cada quatro residentes é estrangeiro. Mais de 82% deles são da Europa, a grande maioria da Itália, da Alemanha, de Portugal e da França.

O Conselho Federal também se opõe à medida, mas o referendo já garantiu o suporte popular mínimo para ser obrigatoriamente submetido a uma votação — apesar do tradicional apoio da população aos conglomerados empresariais, as pesquisas mostram que esse referendo tem altas chances de passar.

O receio da população - apesar de ter semelhanças com outras crises imigratórias - é particular entre os suíços, que temem tanto a chegada de imigrantes de baixa renda quanto a de estrangeiros ricos (geralmente algo atraente para países), o que pode gerar um temido processo de gentrificação.

Muitas pessoas no país ainda vivem em pequenas vilas tradicionais e temem a destruição de seu estilo de vida típico em prol da construção de mais moradias devido à presença de investidores ricos e influentes.

Segundo a consultoria imobiliária Wüest Partner, os imóveis na cidade de Zug, famosa como um centro internacional para as pessoas mais ricas do mundo, estão agora mais caros do que em Genebra, onde os imóveis de luxo valiam mais do que em Singapura, Londres, Nova Iorque, Tóquio e Paris, de acordo com o relatório de riqueza de 2026 da Knight Frank.

As preocupações com o estilo de vida tradicional são os principais motivadores da medida entre a população.

O vice-presidente sênior de finanças de Zug, Heinz Taennler, disse que o cantão era, em parte, "vítima do próprio sucesso", o que criou, segundo ele, uma demanda "exorbitante" por imóveis. Mas ele afirmou que os preços das casas eram muito mais influenciados pela localização e acessibilidade do que pelos níveis de impostos, citando um estudo de 2017.

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