Crypto Finance AG, do grupo Deutsche Borse, anuncia expansão na América Latina

Por Mariana Maria Silva 9 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Crypto Finance AG, do grupo Deutsche Borse, anuncia expansão na América Latina

Mesmo em um momento de correção e maior cautela nos mercados globais de criptomoedas, o Brasil continua no radar de instituições internacionais que enxergam na região uma combinação rara de escala, maturidade regulatória e demanda real por serviços financeiros digitais. Nesse sentido, a Crypto Finance AG, empresa do grupo Deutsche Borse, anuncia nesta segunda-feira, 9, sua expansão para a América Latina com foco no Brasil.

Enquanto parte do mercado ainda associa cripto a ciclos de alta e queda, grandes players trabalham com uma lógica diferente: preparar a infraestrutura antes que o próximo movimento de expansão aconteça. É com essa visão que a Crypto Finance AG decidiu acelerar sua estratégia para a América Latina A empresa atua no modelo B2B, oferecendo soluções de compra, custódia, liquidação e infraestrutura para bancos, fundos e instituições financeiras profissionais.

“Nós somos provedores de serviços cripto para instituições financeiras e hedge funds em nível profissional. Somos regulados desde o início e operamos a partir do nosso hub europeu em Frankfurt, com licenças em toda a Europa”, afirmou Stjin Vander Straten, CEO da Crypto Finance AG, em entrevista exclusiva à EXAME.

Brasil como porta de entrada na América Latina

O executivo destacou que o país reúne três fatores difíceis de encontrar juntos: tamanho de mercado, sofisticação do sistema financeiro e avanço regulatório.

“O Brasil é um dos maiores mercados de cripto do mundo. Itaú já está ativo, Santander está se movimentando, há muitos bancos digitais com serviços financeiros fortes. Para mim, o Brasil não é apenas o maior mercado da região, é o mais pronto para ser institucionalizado, em termos de governança, maturidade e responsabilidade”, disse o executivo.

Regulação como motor de confiança

A regulação aparece como peça central da estratégia. O novo marco legal brasileiro para criptoativos, que estabelece regras para prestadores de serviços e operações, muda o perfil do investidor institucional.

“O Brasil introduziu a nova regulação cripto no fim de novembro, o que traz segurança ao mercado. As regras ficam claras, isso gera estabilidade e permite que saibamos exatamente como operar”, disse Vander Straten.

Segundo ele, o impacto vai além da conformidade jurídica. “Isso ajuda bancos e empresas a entenderem o que precisam fazer do ponto de vista legal e operacional. Quando o ambiente é previsível, o capital institucional entra com mais conforto.”

Dentro da estratégia regional, o Brasil ocupa a primeira posição. Depois vêm Argentina e México. “A nossa primeira prioridade é o Brasil. Depois vem a Argentina, que é menos avançada em regulação, mas bastante aberta. Em terceiro lugar está o México, que é mais sofisticado, mas também mais complexo para entrar”, explica.

Stablecoins e uso real na América Latina

Na avaliação do executivo, a América Latina tem características estruturais que impulsionam a adoção além da especulação. Inflação, remessas internacionais e busca por acesso a moedas fortes aparecem como motores do uso real.

“Na América Latina, inflação é um fator importante, mas também remessas, envio de dinheiro e acesso ao dólar. Isso impulsiona muito o uso de stablecoins”, disse Stjin Vander Straten à EXAME.

Ele observa que o comportamento do usuário mistura investimento e funcionalidade. “Muitos clientes compram cripto em instituições financeiras, mas depois querem transferir para uma carteira própria, por confiança. Isso mostra como cripto funciona tanto como meio de pagamento quanto como preservação de valor.”

Nesse contexto, as stablecoins passam a atuar como infraestrutura financeira. “Nós servimos bancos como Santander, Itaú e outros. Se eles tiverem um caso de uso para stablecoins, estamos prontos para implementar, como qualquer outro token, sempre dentro da regulação”, disse Vander Straten.

Amplitude de acesso às criptomoedas

À EXAME, Stjin Vander Straten explicou que um dos objetivos da Crypto Finance AG é ajudar a ampliar a oferta de criptoativos na região. Atualmente, alguns bancos já oferecem o investimento em criptomoedas, mas ficam restritos à poucos ativos, geralmente os maiores, como bitcoin e ether.

“Hoje, entre 90% e 95% do volume cripto nos bancos é bitcoin e ether. Isso é igual na Europa e no Brasil. Nós oferecemos mais de 200 criptoativos, mas o regulador quer garantir liquidez e proteção para o cliente. Normalmente o banco começa com bitcoin, depois adiciona mais cinco ou dez ativos conforme a demanda", afirmou.

Infraestrutura e integração com bancos

“Ajudamos os bancos a lidar com custódia, gestão de chaves, compliance e integração. Eles precisam focar no cliente, não em obstáculos técnicos”, disse o executivo.

Nesse sentido, Stjin Vander Straten explicou que projetos desse tipo não são imediatos. “Em iniciativas grandes, o processo pode levar de oito a vinte e quatro meses, com mais de dez ou quinze workshops para alinhar todas as áreas do banco”, afirmou.

Segundo ele, no início muitos executivos veem cripto como algo quase proibido. “Depois entendem que é apenas uma nova classe de ativos, com particularidades, mas com fluxos parecidos com ações ou câmbio.”

Aposta de longo prazo mesmo com o mercado em queda

Mesmo com o mercado passando por períodos de queda e medo extremo, a empresa mantém o plano de expansão. “Eu estou bem relaxado. Este é o terceiro ciclo que acompanho. Já vimos bancos abandonarem projetos achando que o bitcoin iria a zero, e isso não aconteceu”, disse o CEO.

Segundo ele, a conversa mudou. “A discussão com os bancos é muito mais ampla do que preço. É blockchain, stablecoins, tokenização de ativos, infraestrutura. O cripto está aqui para ficar.”

Há também uma lógica de preparação para o próximo ciclo. “Claro que isso impacta o P&L, mas vemos clientes europeus comprando agora. Você quer estar pronto quando o mercado virar. Os bancos querem estar prontos, porque é assim que as instituições ganham dinheiro quando o ciclo muda.”

Blockchain como parte do sistema financeiro

Para o futuro, Vander Straten vê o blockchain como parte estrutural do sistema financeiro. “Queremos evitar um ‘momento Kodak’ na infraestrutura financeira tradicional”, explicou.

Para ele, o futuro será híbrido. “O blockchain permite negociação, liquidação e custódia 24 por 7. Não será uma mudança de um dia para o outro. O sistema tradicional se aproxima do blockchain, enquanto empresas cripto passam a oferecer ações e produtos financeiros.”

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: