Curry Barker transformou 'Obsessão' no fenômeno de terror de 2026; veja entrevista
Obsessão, novo longa de terror em cartaz, tinha tudo para passar despercebido nas bilheterias. De início, parecia uma simples progressão de carreira do até então youtuber Curry Barker às telonas. Orçamento foi de U$ 750 mil, a história não tem nada de tão especial.
Hoje, rumo à terceira semana em cartaz, o filme já acumula US$ 148 milhões em bilheteria global — mais de 140 vezes a mais do que o investimento — e caiu no gosto do público. Recebeu nota 7,9/10 no IMDb e aprovação de 96% no Rotten Tomatoes.
"Eu sinto que o terror pode morar nas coisas cotidianas, e esse tem sido um acerto do gênero como um todo nos últimos anos", disse Barker em entrevista à Casual EXAME. "É aí que ele se torna realmente assustador. Quis trabalhar a psicose humana dentro desse filme, sem grandes efeitos especiais, sem me apoiar tanto em coisas que não fossem a tensão entre aquelas duas pessoas".
Obsessão acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem vulnerável e deprimido após a morte de seu gato. Sem coragem de se declarar para a melhor amiga Nikki (Inde Navarrette), ele usa um objeto místico chamado "One Wish Willow" e deseja que ela o ame mais do que qualquer pessoa no mundo. O desejo se realiza, mas o sonho vira pesadelo quando a paixão dela se transforma em uma obsessão drástica e perigosa.
O diretor Curry Barker no set de seu filme OBSESSION, um lançamento da Focus Features (Manny Liotta / © 2026 FOCUS FEATURES LLC)
Do YouTube ao cinema: quem é Curry Barker
O sucesso estrondoso de Curry Barker no audiovisual pode parecer sorte, mas foi pavimentado num terreno muito específico: o YouTube. O cineasta fez filmes e curtas com a mesma qualidade (com o orçamento possível) das gigantes de streaming, dividindo o tempo com o criador de conteúdo Cooper Tomlinson no canal de comédia That’s a Bad Idea (Isso é uma Má Ideia).
Lá, a dupla acumulou milhões de visualizações com esquetes satíricos sobre assombrações e assassinos atrapalhados e criou bagagem para que o cinema de Barker ganhasse uma agilidade técnica. No primeiro longa-metragem dele, Milk & Serial (2024) — lançado de graça no YouTube —, o cineasta já acumulava as funções de roteirista, diretor, editor, compositor e ator.
"Quando era criança, eu já fazia e editava filmes porque queria ser ator. E eu sabia que essa era a única maneira de conseguir algo: fazer eu mesmo. O cinema veio naturalmente nisso, e eu descobri que gostava mais de fazer os filmes em todo esse processo no YouTube", acrescentou o cineasta.
Essa mentalidade "faça você mesmo" moldou a precisão de Obsessão. A transição da comédia digital para o suspense sufocante rendeu a Barker comparações diretas a novos nomes do terror moderno que também flertaram com o humor ou com a internet, como Jordan Peele (Corra!) e os gêmeos Danny e Michael Philippou (Fale Comigo).
"Nisso tudo eu entendi que você precisa fazer as coisas, mesmo se não der certo. Na maioria das vezes, as pessoas estão dispostas a ajudar se comprarem a ideia, se acharem que aquilo é legal."
O personagen Bear (Michael Johnston) no filme de terror/suspense "Obsessão", dirigido por Curry Barker.
Um novo terror para uma nova geração
A chegada de Obsessão aos cinemas, em 2026, vem em um bom momento. O gênero tem sido marcado por gratas surpresas vindas do circuito independente na última década, e viu um novo refresco após a repercussão de Corra! (2017) e Fale Comigo (2022).
Distante da figura dos monstros e serial killers que dominaram o tropo no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, as produções estão mais psicológicas. O horror de um Pennywise em cena ou um matador da serra elétrica tem sido substituído por cenas mais cotidianas e mistérios sobrenaturais que aparecem nas entrelinhas.
É o cenário ideal para enxergar sentimentos mais palpáveis à nova geração, como tristeza, solidão, apatia, ansiedade e angústia, como motores de narrativas de terror muito mais reais e assustadoras, independentemente do quanto de sobrenatural elas se apresentem.
"Eu acho que as pessoas andam mais aterrorizadas por essas coisas cotidianas, porque isso se conecta mais a elas. E noto que causa mais medo, um medo genuíno, que te faz pensar melhor sobre as coisas", comentou Baker sobre o cenário atual do gênero no cinema.
"Não que eu não queira trabalhar algo sobrenatural, o One Wish Willow está ali para isso. Mas, no caso desse filme, eu queria contar uma história sobre até onde pode ir a fixação de alguém por outra pessoa, e até onde a gente se questiona sobre o que é amor."
O filme de Barker não é o último de cinco anos para cá que trata mais da parte psicológica do que da "horrorosa". Outros sucessos, como A Hora do Mal, Herectic, Juntos e A Noite das Almas também têm seguido pelo mesmo caminho.
O bom momento do terror no cinema
A bilheteria de Obsessão, ainda que surpreendente, está longe de ser uma novidade no cinema de terror. A ordem do faturamento dos filmes, ao longo desses anos, se inverteu: historicamente, o gênero costuma registrar quedas severas de 35% a 50% na arrecadação no segundo fim de semana em cartaz, uma vez que o público mais fiel corre para as salas nos primeiros dias de estreia.
Hoje, é justamente o contrário. A arrecadação nos Estados Unidos do longa de Barker registrou um salto atípico de quase 39% na segunda semana após a estreia, impulsionada por uma campanha de marketing de guerrilha viral da distribuidora Focus Features e pelo boca a boca.
Não é exatamente novidade. No ano passado, ano de ouro para o tropo, Pecadores virou um blockbuster com seu musical vampiresco ao melhor estilo de Ryan Coogler justamente nas semanas seguintes às da estreia. No total, fez mais de US$ 370 milhões. Hora do Mal veio no mesmo embalo: US$ 270 milhões. A sequência de Invocação do Mal fez quase US$ 500 mil.
Neste ano, além de Obsessão (US$ 148 milhões), outros filmes do gênero já se apresentam entre as maiores bilheterias do ano. Pânico 7 fez US$ 208 milhões e Backrooms — com orçamento de US$ 10 milhões da A24 —, também em cartaz, fez US$ 118 milhões.
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