Da base ao topo global: como essa empresa centenária usa IA para exportar talentos do Brasil
O desenvolvimento de pessoas deixou de ser uma agenda de suporte de Recursos Humanos para se consolidar como uma estratégia de sobrevivência e crescimento corporativo.
Em setores hipercompetitivos e essenciais, como o agronegócio e a nutrição, a capacidade de reter conhecimento histórico e, ao mesmo tempo, acelerar a transformação digital dita o ritmo de dominância no mercado global. Poucas organizações traduzem esse desafio de forma tão robusta quanto a gigante ADM (Archer Daniels Midland Company).
Com uma presença massiva que conecta a produção no campo às mesas dos consumidores ao redor do mundo, a empresa centenária B2B opera hoje no Brasil sob um ecossistema complexo: a convivência simultânea de quatro gerações no ambiente de trabalho.
Em entrevista exclusiva à EXAME, Antônio Paixão, diretor de Recursos Humanos da ADM no Brasil, detalha a engenharia cultural e tecnológica que permite à subsidiária brasileira não apenas preencher cadeiras executivas com quem começou na base, mas também exportar profissionais qualificados para as sedes globais do grupo.
O líder como acelerador
Para a ADM, o aprendizado contínuo deve ser encarado como o principal ativo para assegurar a inovação e a segurança alimentar global. A empresa adota a metodologia 70/20/10 para estruturar as trilhas de carreira:
70% do aprendizado acontece na prática: Por meio de novos projetos, exposição executiva e trânsito por diferentes áreas de negócio.
20% vem de trocas e conexões: Estruturado em programas formais de coaching, mentoria e aconselhamento entre pares.
10% consiste em treinamentos formais: Capacitações técnicas e comportamentais customizadas através de plataformas como o LinkedIn Learning, subsídios educacionais, cursos de idiomas e programas de inclusão, como o ensino de Libras.
"Os treinamentos formais ajudam, mas são os líderes que aceleram as carreiras dentro da ADM. Sendo uma empresa centenária, nós valorizamos profundamente esse balanço geracional", afirma Antônio Paixão. "As gerações mais maduras trazem visão de negócio, contexto e repertório. Os mais jovens contribuem com agilidade, novas perspectivas e familiaridade tecnológica. Uma complementa a outra, nenhuma se sobressai."
Essa cultura de desenvolvimento orgânico explica o alto índice de retenção da companhia, onde profissionais que ingressaram como menores aprendizes, estagiários ou trainees ocupam hoje postos de alta liderança no Brasil e no exterior.
Mentoria conectada por IA
Um dos principais pilares de conexão interna da ADM é o seu programa global de mentoria, totalmente desprovido de travas burocráticas.
O processo foi descentralizado por meio de um aplicativo proprietário que utiliza Inteligência Artificial para cruzar dados de competências e interesses. O colaborador preenche quais comportamentos ou habilidades deseja aprimorar, enquanto os gestores seniores cadastram suas principais fortalezas. O algoritmo faz o match ideal de forma instantânea.
O impacto prático dessa tecnologia quebra fronteiras geográficas e de escopo de atuação. Andre Degasperi partilhou o seu exemplo real como mentor no programa.
"Tive uma enxurrada de pedidos de mentoria, principalmente de profissionais da Geração Z vindos de áreas como finanças e comercial, sobretudo do nosso segmento de nutrição, buscando aprimorar competências de comunicação. O processo de troca é riquíssimo para as duas pontas", conta Degasperi.
Além disso, o executivo destaca o movimento de internacionalização dos talentos locais: "Tenho duas coordenadoras no meu time que hoje realizam sessões de mentoria com líderes baseados fora do país — uma delas com o time corporativo de RH e outra diretamente com a nossa sede global, em Chicago. Isso encurta caminhos e expande o networking de forma brutal."
Do campo à mesa: desaprender para reaprender no novo agro
Tradicionalmente conhecida pela força no trading de grãos e no agronegócio puro, a ADM expandiu fortemente sua atuação nos últimos anos para as verticais de nutrição humana e animal. Essa transição exigiu um RH altamente ágil para capacitar equipes em conhecimentos técnicos profundamente específicos e mutáveis.
Para dar conta do recado, a empresa utiliza seus profissionais mais seniores como replicadores e facilitadores de conhecimento in loco, estabelecendo uma dinâmica de "padrinhos" que acompanham os novos colaboradores diretamente nas operações mais complexas.
Paralelamente, a tecnologia atua como um motor de produtividade. Os funcionários da ADM contam com o suporte de ferramentas como o Microsoft Copilot e um ecossistema interno exclusivo, o Chat ADM, desenhados por um time de TI dedicado a mapear as fronteiras da IA no fluxo de trabalho.
A visão da companhia para os próximos cinco anos é clara: a tecnologia democratiza e personaliza o aprendizado no ritmo de cada indivíduo, mas não substitui o fator humano. "A IA não vai substituir o aprendizado humano, ela vai potencializá-lo. Elementos como capacidade de influência, resiliência, escuta ativa, empatia e construção de relacionamentos continuam sendo estritamente humanos", pontua Paixão.
Em um cenário onde o Brasil assume o protagonismo definitivo na segurança alimentar mundial, a liderança da ADM conclui que a principal habilidade do profissional moderno é a capacidade de "desaprender para reaprender". Combinar o peso de uma marca centenária à velocidade da IA e ao frescor das novas gerações é a receita da companhia para garantir que o país continue liderando a cadeia de suprimentos global — do campo até a mesa.
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