Da carroceria ao 'queijo premium': os negócios de uma das famílias mais ricas do RS

Por Daniel Giussani 12 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Da carroceria ao 'queijo premium': os negócios de uma das famílias mais ricas do RS

Em Caxias do Sul, no interior gaúcho, uma oficina de motores aberta em 1949 por dois irmãos cresceu até virar um conglomerado com 13,1 bilhões de reais em receita.

A Randoncorp, maior fabricante de semirreboques, aquelas carretas que compõem a maioria dos caminhões nas estradas brasileiras, da América Latina, é hoje uma empresa com presença em mais de 120 países e ações negociadas na Bolsa.

Mas os Randon não pararam por aí.

A mesma família que construiu um império no transporte rodoviário também produz queijo tipo grana, um queijo de pasta dura com maturação longa inspirado no italiano grana padano, vinho espumante, azeite e maçã.

Isso tudo por meio da RAR, empresa agrícola fundada pelo patriarca Raul Anselmo Randon em Vacaria, na Serra Gaúcha, separada da Randoncorp e com capital fechado.

A RAR acaba de reorganizar sua estrutura de governança com a promoção de executivos internos, Jiovani Foiatto, que assume a diretoria de gastronomia, e Raquel Manfredi Pandolfo, que passa a liderar a diretoria executiva, e tem na mira uma meta ambiciosa: sair dos atuais 550 milhões de reais em faturamento e chegar a 1 bilhão de reais até 2034.

"Alcançamos avanços importantes nos últimos anos e, para sustentar esse ritmo e seguir em direção à nossa visão de 1 bilhão de reais, entendemos que este é o momento de fortalecer a governança e ampliar a capacidade de gestão do negócio", diz Sergio Martins Barbosa, presidente da RAR.

Para a RAR, chegar ao bilhão até 2034 exige mais do que crescimento orgânico. É preciso executar uma expansão de distribuição em mercados onde a empresa ainda não chegou — sem comprometer o abastecimento dos canais já consolidados.

O desafio maior está em escalar um portfólio premium num país com juros altos e consumo pressionado.

Uma oficina, um incêndio e um freio que mudou tudo: a história da Randon

Em 1949, os irmãos Hercílio e Raul Randon abriram uma pequena oficina em Caxias do Sul para consertar motores. Dois anos depois, um incêndio destruiu o galpão e quase encerrou a história antes mesmo de começar.

Forçados a recomeçar, os irmãos apostaram em algo que ainda não existia no Brasil: o freio a ar comprimido para caminhões.

A tecnologia se mostrou ideal para os veículos que enfrentavam as ladeiras da serra gaúcha e virou o embrião do que seria a Mecânica Randon.

Ao longo da década de 1970, com a expansão do mercado, a empresa investiu pesado nos semirreboques e triplicou seu patrimônio.

O crescimento rápido, porém, teve um custo: a recessão e o colapso do setor de veículos pesados na década de 1980 colocaram a empresa em crise, com dívida disparada. A recuperação começou com um contrato de exportação de 713 carretas para a Argélia.

Raul Randon morreu em 2018, aos 88 anos.

Antes disso, planejou a sucessão com cuidado. Em 1989 Hercílio, seu irmão e grande parceiro nos negócios, faleceu. Na década de 1990 iniciou um período de transição e reorganização administrativa. Os filhos que teve com a esposa Nilva Teresinha D'Agostini — David, Roseli, Alexandre, Maurien e Daniel — já participavam da administração e foi criada a holding familiar Dramd.

Como está a Randoncorp hoje

A Randoncorp encerrou 2025 com receita líquida consolidada de 13,1 bilhões de reais, crescimento de 10,3% em relação ao ano anterior, mesmo em um ambiente marcado pela elevação das taxas de juros no Brasil, incertezas políticas e econômicas globais e desaceleração em segmentos relevantes para a indústria automotiva.

O grupo conta com 5 verticais de negócios: Montadora, Autopeças, Controle de Movimentos, Serviços Financeiros e Digitais e Tecnologia Avançada.

A expansão internacional tem sido um dos principais motores desse crescimento: as aquisições recentes da EBS, no Reino Unido, e AXN, nos Estados Unidos, impulsionaram as receitas internacionais.

Daniel Randon, presidente da Randoncorp: faturamento de R$ 13,1 bi em 2025 (Leandro Fonseca/Exame)

A empresa que os Randon compraram

Nem tudo no portfólio da família nasceu de uma ideia do patriarca.

A Frasle Mobility, fabricante de componentes de fricção para freios, pastilhas, lonas e discos usados em carros, caminhões e ônibus, foi fundada em 1954 pela família Stedile, em Caxias do Sul.

Os Randon só assumiram o controle em 1996, quando a Randon S.A. adquiriu a participação acionária da empresa.

Nos 30 anos seguintes, a Frasle cresceu dentro do grupo por aquisições sucessivas — e hoje é listada separadamente na Bolsa. Em 2025, registrou receita líquida de 5,5 bilhões de reais, 38,5% acima do ano anterior, impulsionada pela compra da Dacomsa, distribuidora mexicana de autopeças de reposição, concluída em janeiro daquele ano.

O hobby que virou empresa

Enquanto a Randoncorp crescia no setor industrial, Raul Randon cultivava outro projeto — literalmente.

O patriarca começou a produzir maçãs por causa de um incentivo fiscal, dado que, em meados dos anos 1970, o país importava grande parte do consumo doméstico da fruta.

A entrada nos queijos veio depois, quase por acidente.

Em meados dos anos 1990, Raul aprendeu com um amigo italiano sobre as particularidades do grana padano. Decidido a produzir o item no Brasil, voou para Ohio, nos Estados Unidos, e comprou 140 vacas prenhas, que chegaram a Porto Alegre em dois aviões cargueiros da Boeing.

A lógica se repetiu nos vinhos. Em meados de 2002, Raul decidiu começar a produzir vinhos aproveitando a comemoração de 50 anos de seu casamento.

Escalar sem perder o controle

A RAR opera com uma premissa que vai na contramão do varejo alimentar tradicional: crescer dentro do segmento premium, sem buscar volume.

"A gente escala a empresa dentro do nosso segmento, que é o premium. A gente não vai para o lado do 'bastantão', porque aí a disputa é muito grande e exige muito investimento", diz Barbosa, presidente da empresa.

Na prática, isso significa expansão controlada.

A empresa exporta maçãs para mais de 20 países e projeta cerca de 10 mil toneladas de maçã exportadas, com presença na Europa e na Ásia.

No mercado interno, avança em pontos de distribuição — de grandes centros a destinos turísticos. "Você vai para o litoral, para o Norte, para lugares como Fernando de Noronha, e encontra nossos produtos. Isso é fruto de distribuição bem feita", afirma o executivo.

O ambiente econômico dificulta essa equação. Juros altos e inadimplência crescente afetam o consumo, inclusive no segmento premium.

"A gente sentiu, claro. Seria mentira dizer que não. Mas, com canais bem estruturados e produto diferenciado, a gente consegue atravessar esses momentos", diz Barbosa.

Para crescer, a empresa já investiu em infraestrutura — de câmaras frias a equipamentos. O foco agora é na execução. A reorganização de governança anunciada recentemente é parte dessa preparação: promover lideranças internas que conhecem a operação, sem depender de contratações externas para uma fase de escala.

"A gente sempre diz: não coloca todos os ovos no mesmo cesto. Nem todos os negócios vão bem ao mesmo tempo — mas sempre tem um que puxa o outro", afirma Barbosa.

Essa lógica atravessa tanto a RAR quanto a Randoncorp. Do freio a ar comprimido que salvou dois irmãos após um incêndio ao queijo maturado por dois anos nas câmaras frias da Serra Gaúcha, os Randon construíram negócios com uma característica em comum: apostas de longo prazo.

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