Da depressão à final de Roland Garros: a virada de Maja Chwalinska
O circuito do tênis mundial testemunha uma das trajetórias mais improváveis da história recente dos Grand Slams. Atual número 114 do ranking da WTA, a polonesa Maja Chwalinska, de 24 anos, venceu nesta quinta-feira, 4, a russa Diana Shnaider por 2 sets a 0 (7/6 e 6/4) no mítico saibro da quadra Philippe-Chatrier.
Com a vitória, ela garante uma vaga inédita na final de Roland Garros.
A campanha de Chwalinska em Paris carrega marcas estatísticas que desafiam a lógica do esporte. Vinda do torneio qualificatório (qualifier), no qual precisou vencer três partidas apenas para entrar na chave principal, a tenista canhota de 1,64m acumulou nove vitórias consecutivas.
Ao alcançar a decisão contra a jovem Mirra Andreeva, ela se tornou apenas a segunda tenista na Era Aberta (considerando as chaves masculina e feminina) a chegar à final de um Major vinda do quali. O feito alcançado anteriormente apenas por Emma Raducanu no US Open de 2021.
Da dificuldade com o hotel aos milhões em premiação
O impacto do "conto de fadas" francês reflete-se diretamente nas finanças da atleta. Em coletivas anteriores ao longo do torneio, Chwalinska chegou a revelar, de forma bem-humorada, que o desempenho em quadra a ajudou a superar as dificuldades financeiras que enfrentava para arcar com os custos de sua hospedagem na capital francesa.
Com a classificação para a final de simples, a polonesa garantirá um prêmio monetário substancial de pelo menos 750 mil euros (aproximadamente R$ 4,3 milhões).
O montante equivale exatamente a tudo o que ela acumulou em premiações oficiais, somando toda a sua carreira profissional anterior. No aspecto esportivo, a projeção do ranking indica um salto histórico: a tenista deixará a 114ª posição para figurar no 21º lugar do mundo na próxima atualização da WTA.
Diagnóstico de depressão e a pausa na carreira
A presença de Chwalinska no topo do tênis parecia distante há cinco anos. Em 2021, logo após o torneio de Wimbledon, a atleta anunciou um afastamento das quadras por tempo indeterminado após ser diagnosticada com depressão severa.
Na ocasião, relatou lidar com pensamentos sombrios e a pressão do circuito. "No início, eu me esforcei bastante. Pensei que precisava me manter forte, resistente e continuar treinando", desabafou após avançar nas quartas de final em Paris. "Mas aí eu simplesmente não conseguia mais sair da cama. Estava sem vida, para ser sincera. Sabia que precisava fazer uma pausa, porque senão eu simplesmente não conseguiria viver. Sinceramente, não sabia se ia voltar ou não."
O processo de reabilitação incluiu o retorno para a residência dos pais e suporte psicológico focado no distanciamento do ambiente competitivo.
Na juventude, Maja havia sido parceira de sua compatriota e atual número 1 do mundo, Iga Swiatek, com quem faturou a Billie Jean King Cup Júnior em 2016 e alcançou a final de duplas do Australian Open juvenil em 2017.
Virada de chave em Jurerê Internacional
A reconstrução de sua carreira profissional e a retomada da confiança técnica passaram diretamente pelo saibro brasileiro. Em dezembro de 2024, Chwalinska desembarcou em Florianópolis para disputar o WTA 125 na capital catarinense.
Na terra batida de Jurerê Internacional, a polonesa conquistou o maior título de sua trajetória até então, vencendo a suíça Ylena In-Albon na final de simples. Na mesma edição, ainda ergueu a taça do torneio de duplas ao lado da brasileira e medalhista olímpica Laura Pigossi.
O caneco em Florianópolis atuou como um catalisador. Posteriormente, a tenista consolidou seu jogo no saibro europeu com conquistas nos torneios de Montreux, na França, e Oeiras, em Portugal. Em Roland Garros, a consistência na terra batida se provou real: para chegar à final de sábado, Chwalinska eliminou seis atletas da chave principal, incluindo quatro tenistas posicionadas no top-50 mundial, como a campeã olímpica Qinwen Zheng, Elise Mertens, Maria Sakkari e Anna Kalinskaya.
No próximo sábado, 6, a polonesa tentará fechar a quinzena mais importante de sua vida com o troféu de Grand Slam na mão. Independentemente do resultado, a caminhada que começou nas quadras de Santa Catarina já garantiu seu espaço na história do tênis contemporâneo.
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