Da fábrica ao campo: as três frentes do Grupo Boticário para mitigar a crise hídrica
De São José dos Pinhais (PR)* — Em 2020, a região metropolitana de Curitiba viveu a pior seca em 40 anos. Os reservatórios chegaram às mínimas históricas, e a companhia de saneamento local, a Sanepar, precisou implementar o racionamento em algumas regiões. A Bacia do Miringuava, um dos sistemas hídricos que abastece a área, viu sua vazão cair 70%, ou seja, enquanto antes era possível retirar mil litros por segundo, o volume caiu para 300 litros.
É também nesta região que está a sede do Grupo Boticário, com uma unidade em São José dos Pinhais. Além do impacto nas casas e na qualidade de vida da população, a fabricante de itens de beleza e higiene percebeu os riscos crescentes para sua operação diante do aumento dos eventos climáticos extremos e da ocorrência cada vez mais frequente de secas e estiagens.
Recentemente, a companhia elaborou uma pesquisa que aponta o impacto futuro da escassez de recursos naturais sobre a fabricação. O resultado foi que quase a totalidade do que é produzido depende de água na formulação e que a falta desse recurso acarretaria, de longe, os piores impactos para a operação. "A água é o capital natural crítico para a nossa operação", conta Luis Meyer, diretor de ESG do Grupo Boticário.
Desde então, a fabricante trabalha em três frentes a partir da estratégia para o recurso hídrico: garantir eficiência no consumo, adaptar produtos para evitar contaminação de recursos naturais e restaurar bacias hidrográficas em parceria com agricultores.
"Conseguimos chegar a produtos e operações ecoeficientes, mas também gerar impacto para 'fora de casa'. Hoje, trabalhamos soluções considerando mananciais críticos e como incorporar estratégias baseadas na natureza para o trabalho do grupo", explica Meyer.
A EXAME foi até São José dos Pinhais para conhecer as instalações da companhia e entender como o Grupo Boticário atua na proteção desse recurso.
Eficiência hídrica na fábrica
O trabalho começa internamente: desde 2023, o Grupo Boticário instalou poços na unidade, que hoje respondem por cerca de 60% a 70% do consumo da planta. O restante é fornecido pela concessionária Sanepar.
A ideia partiu de garantir que fosse possível manter a produção mesmo em períodos de poucas chuvas e, ao mesmo tempo, reduzir a pressão sobre a rede do bairro. Wellington Baldo, gerente de sustentabilidade ambiental na empresa, explica que a água captada pelos poços passa por filtragem química para garantir que esteja adequada ao uso em itens de beleza e higiene.
Ela é aplicada principalmente em produtos faciais, como maquiagens e batons, enquanto a que vem da concessionária é usada em produtos cremosos.
Captação própria: Grupo Boticário implementou poços internos para reduzir a pressão hídrica em São José dos Pinhais (Letícia Ozório/Exame)
"A matéria-prima vai para o reator, onde recebe a mistura conforme a fórmula. O desafio principal é a higienização, que precisa de volume maior de água", explica Baldo. Cada ciclo de limpeza consome cerca de 200 litros. Para isso, a companhia instalou máquinas que recebem o líquido tratado e fazem a higienização automaticamente, embora algumas etapas ainda mesclem limpeza manual.
A água usada para limpar reatores, áreas comuns e em alguns processos de aquecimento e resfriamento passa pela Estação de Tratamento de Efluentes, instalada na unidade em 2023. Ao todo, o trabalho demandou investimentos de R$ 10 milhões e aumentou o uso de água de reúso de 20% para 60%. A estação funciona 24 horas por dia e processa 550 metros cúbicos diariamente.
Estação de tratamento de efluentes do Grupo Boticário: 60% da água de reuso é usada pela companhia internamente. O restante retorna para os rios próximos (Letícia Ozório/Exame)
Além da filtragem com bactérias aeróbicas, que destroem a carga orgânica, o líquido ainda passa por dois sistemas: ultrafiltração, que permite o uso em vasos sanitários e jardins, e osmose reversa, aplicada em caldeiras e torres de refrigeração.
Recuperação de bacias e nascentes
A frente mais complexa ligada à água é gerida pela Fundação Grupo Boticário, órgão criado para proteger recursos naturais. Já são mais de 36 anos de trabalho, sendo 20 dedicados à gestão hídrica.
Um dos braços da Fundação é o Movimento Viva Água, que atua com produtores rurais locais para incentivar e financiar a restauração florestal próximo a bacias estratégicas, como o Rio Miringuava. Durante a seca de 2020, áreas com maior cobertura vegetal mantiveram 50% do volume de água original, enquanto propriedades degradadas ficaram com 6% a 10%, de acordo com dados da Fundação.
O projeto também atua na Baía de Guanabara (RJ), no Cantareira (SP), Joanes e Jacuípe (BA), e seleciona uma nova bacia no Ceará para próximos ciclos. A iniciativa apoia comunidades sob alta pressão hídrica, especialmente grandes capitais e regiões de operação do grupo, que inclui as fábricas em Camaçari (BA) e Pouso Alegre (MG), ainda em construção.
Rio Miringuava: nascente em meio a propriedade apoiada pelo Boticário. Estratégia é financiar restauração como forma de garantir a preservação hídrica (Letícia Ozório/Exame)
Só na Grande Curitiba, o programa já mobilizou R$ 4 milhões em investimentos para turismo sustentável, agricultura regenerativa e reflorestamento e deve alocar mais R$ 2 milhões.
Um exemplo é a pousada ecológica de Leonardo Sena, proprietário do Rancho do Sena, na Colônia Murici, em São José dos Pinhais. O chalé, ao lado da plantação de frutas e hortaliças, ocupa cinco hectares protegidos com financiamento do Grupo Boticário. Ali, uma trilha desemboca no Rio Miringuava.
O apoio garante o plantio de novas mudas, especialmente da araucária, árvore símbolo do Paraná, que enfrenta destruição: restam apenas cerca de 4,3% de sua vegetação original.
"A cada nova muda, preciso subir a trilha com um perfurador de solo, um equipamento bem pesado. Daí volto e subo a trilha de novo, agora levando as mudas, também pesadas. Leva tempo e muito esforço físico. É por isso que a restauração florestal é um processo caro", explica.
Produtos seguros para o meio ambiente
A principal aliada na produção de itens seguros para o meio ambiente é a I.A.R.A. — Índice de Avaliação de Risco Ambiental. Implementada há 10 anos, a plataforma aplica metodologia pioneira em produtos enxaguáveis, garantindo que substâncias liberadas em corpos d’água sejam seguras.
De acordo com Andrezza Canavez, gerente de segurança de produto e métodos alternativos, a plataforma utiliza ferramentas digitais para avaliar a estrutura química de determinadas moléculas e, com a ajuda de inteligência artificial preditiva, avalia o efeito sistêmico e de irritação não só para os rios e oceanos, mas para as espécies de peixes e corais lá presentes.
"A plataforma determina o risco a partir de uma pontuação, já que não basta ser biodegradável. Os ingredientes não podem apresentar nenhum grau de ecotoxicidade ou de bioacumulação, processo em que um organismo retém e acumula substâncias químicas tóxicas", explica.
Com o sistema, a companhia substituiu fórmulas com certos silicones, microplásticos e ácido poliláctico por apresentarem riscos ambientais. Hoje, 98% dos shampoos e 100% dos sabonetes e óleos enxaguáveis atendem aos critérios ideais de biodegradabilidade.
*A repórter viajou a convite do Grupo Boticário.
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