Da serra mineira à sede da ONU: a trajetória de Vanessa Santini Gomes

Por BRASA 30 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Da serra mineira à sede da ONU: a trajetória de Vanessa Santini Gomes

Aos treze anos, Vanessa Santini Gomes vivia no interior de Minas Gerais e não imaginava que um dia faria parte do sistema das Nações Unidas. Mais de uma década depois, ela soma à própria trajetória um capítulo que antes parecia distante: o ingresso no Escritório para Jovens da ONU.

A instância coordena a implementação da estratégia de juventude da organização entre diversas entidades da ONU e os times nacionais, além de avaliar anualmente o progresso em relação às metas do plano.

A jornada começou de um jeito simples. Ainda adolescente, Vanessa conheceu um movimento de jovens que incentivava o protagonismo juvenil e passou a se engajar em causas como gênero e democratização de oportunidades em sua região.

Foi nesse contexto que ela ouviu falar, por meio de colegas que já tinham conquistado bolsas integrais para estudar fora, do Programa de Mentorias BRASA Pré, da BRASA (Brazilian Student Association), a maior associação de estudantes brasileiros no exterior.

"Eu nunca imaginei que estudar fora fosse uma realidade para alguém de uma cidade com menos de 60 mil habitantes", conta Vanessa. A frase resume o ponto de partida de uma trajetória que, em poucos anos, levaria a estudante a se tornar mentee BRASA, em 2021, e, na sequência, aluna de Ciência Política e Política Pública na Duke University, nos Estados Unidos, com foco na política internacional do clima.

Do ativismo de gênero ao espaço das Nações Unidas

O interesse pelos órgãos internacionais surgiu de forma gradual. Vanessa explica que tudo começou no ativismo de gênero, ainda distante do universo diplomático que ela viria a integrar. A virada aconteceu na faculdade, quando uma amiga próxima contou sobre sua participação em conferências internacionais voltadas ao clima.

A partir daí, Vanessa passou a explorar a interseção entre gênero e clima e a se engajar nas Conferências das Partes (COPs) e na Convenção do Clima da ONU.

"Poder sentar em salas de decisão mudou a minha visão do que era possível", relembra. O envolvimento cresceu até que ela assumiu a coordenação do movimento jovem dentro do espaço da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Segundo ela, quanto mais conhecia o processo, mais encontrava propósito no trabalho.

Um estágio com data marcada para o impacto

Esse caminho desembocou no estágio que Vanessa iniciou em 18 de maio. Com duração de pouco mais de três meses, a posição a coloca no centro de um dos principais projetos do Escritório para Jovens da ONU: o braço da organização criado para ampliar a participação significativa de jovens nas diferentes esferas das Nações Unidas. Neste ano, o órgão lançou a segunda fase dessa estratégia, com o objetivo de acelerar sua implementação e criar novas formas de medir o progresso.

Vanessa integra a equipe responsável por apoiar iniciativas globais através da realização de pesquisas, elaboração de documentos oficiais e assistência em reuniões de alto nível.

O papel da BRASA na virada de chave

Ao olhar para o caminho percorrido, Vanessa credita boa parte da virada à BRASA. "Eu não sei se eu veria estudar em Duke University como uma oportunidade se não fosse pela BRASA", afirma.

Segundo ela, a associação esteve presente nos últimos cinco anos de sua vida, inclusive depois do ingresso na graduação nos Estados Unidos. A BRASA Local Duke a levou a conferências em diferentes regiões dos Estados Unidos. Já a BRASA Summit Américas a conectou com outros brasileiros que estudam no exterior, formando uma rede de apoio que ela descreve como essencial.

Foi dentro dessa rede, construída ao longo de anos de participação ativa em conferências e espaços de mentoria, que Vanessa passou a ser reconhecida por seu envolvimento com pautas climáticas e sua atuação dentro da UNFCCC.

Esse histórico chamou a atenção de outros membros da comunidade BRASA, que a indicaram para a vaga no Escritório para Jovens da ONU. Uma indicação baseada no trabalho que ela já vinha construindo, e não em uma ligação pontual.

"A rede te abre a porta, mas quem entra é quem já vinha se preparando", resume Vanessa, ao descrever como o caminho dentro da BRASA se converteu em oportunidade concreta.

"Quando eu vim pra faculdade, eu entendi que ter uma bolsa completa não é suficiente, é preciso suporte", resume. Para Vanessa, esse suporte foi o que permitiu transformar uma bolsa de estudos em uma trajetória sólida.

Os números por trás da mentoria

Para entender o alcance desse modelo, vale observar os números da BRASA. Ao longo de 11 anos de atuação, a organização já mentorou mais de mil estudantes e recebeu mais de cinco mil candidaturas para o programa.

Entre os mentees, 85% conseguem aprovação nos melhores programas de graduação e pós-graduação pelo mundo. Os dados de representatividade também chamam atenção: 43% dos participantes se identificam como pretos, pardos ou indígenas, e 75% são mulheres.

André Hiroki, diretor de Impacto Social da BRASA, explica que a procura pelo programa reflete uma lacuna de informação. "A gente percebe que existe um grande grupo de estudantes que sonha em estudar fora, mas sequer sabe por onde começar. Muitas vezes, faltam informações básicas sobre bolsas, processos seletivos e oportunidades disponíveis", diz.

Para Ana Clara Cardoso, analista de Impacto Social da BRASA, a taxa de aprovação está ligada à abrangência do acompanhamento oferecido. "A transversalidade que o Programa de Mentorias BRASA Pré providencia é o que resulta em tantas aprovações: desde o apoio psicológico até o contato com estudantes que já estão no exterior e seguiram o mesmo percurso que o mentee", afirma.

Esses números ajudam a explicar a afirmação de Vanessa de que bolsa completa não é suficiente sem suporte. Os dados de representatividade indicam que parte significativa dos mentees vem de grupos historicamente sub-representados em universidades no exterior, o que reforça a ideia de que o acesso à informação e ao acompanhamento, e não apenas o mérito acadêmico, ainda funciona como barreira para estudantes brasileiros que sonham em estudar fora.

Fundada há 12 anos, a BRASA nasceu com o objetivo de empoderar a próxima geração de líderes brasileiros em busca de um Brasil melhor. A organização apoia estudantes que estudam, estudaram ou sonham em estudar fora por meio de mentorias, conferências e bolsas de estudo. Mais informações estão disponíveis aqui.

Para Vanessa, a sua história ilustra o papel dessas associações na ampliação de horizontes para jovens brasileiros que, como ela, partem de regiões e contextos onde uma carreira internacional pode parecer distante. "Associações como a BRASA fazem justamente esse papel de viabilizar oportunidades que não chegam a todos jovens de outras formas", diz. "E isso mudou a minha trajetória."

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